sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Clara

Clara era uma mosca. Poderia ter escolhido ser um elefante, um raio, uma caneta, um pedaço de borracha velha, mas era uma mosca. Quis ser uma mosca. E era; era uma mosca. Clara era uma mosca.

Uma noite clara estava voando e ao deparar-se com o pólen duma flor estranha debaixo de uma lua clara, decidiu Clara pousar.

Pousou e lá ficou clara, a mosca na flor sob a lua. Pôde ver com seus olhos de fractais uma realidade toda espelho, na qual aparecia, repetidas vezes, um menino que a olhava do parapeito da janela.

A janela de grade prata era brilho na lua da noite e clara, naquela hora, era fulgor. Clara no que podia ver, por detrás, no através e pela fresta, era frêmito; era flor e era frêmito; era flor clara.

Desistiu da flor e voou para a janela, a lua de prata gradeada. O menino, moreno, de olhos bem negros, viu a mosca que vinha. Não sabia que a mosca era Clara. Não sabia que a mosca tinha abdicado da flor no jardim para vir pousar à sua janela.

Não sabia e nunca soube que Clara era uma mosca porque quis, um dia, ser mosca. Poderia ser moça, mas mosca Clara. Só para que ao olhar o negrume dos olhos espelhados do menino, pudesse ver-se enquanto via; só para que não se pudessem distinguir os olhos dos outros olhos; só para que aparecessem como incontáveis terços de queijo a Lua clara, ali, no improvável caminho dos olhos multifacetados.

2 comentários:

Jay Jay disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

acho q esbocei um choro, e isso é muita coisa. nem acho q seja um texto daqueeeles, mas arte é assim, não faz mt sentido, e é bom qd não faz.

Janaina/ hey_jayjay