Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

O tilt da Telma


Revista piauí

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Breve ensaio sobre a luz e o movimento


Eu tinha prometido a mim mesmo, ao começar este blog, que não postaria textos de caráter muito pessoal aqui, etc... Peço permissão a mim mesmo, desdigo o que outrora disse, me preparo e vou. É mais ou menos por aí, mais uma vez: desdigo o que outrora disse, me preparo e vou. Ou ainda, redigo o que outrora disse, me preparo e vou. Como seria bom, no meio de tudo isso, poder optar por não ir. Agora que está tudo tão bem, agora que as coisas fluem de um jeito quase mágico e é tudo tão gostoso, agora que amanhece o dia e a gente vê quão bonito é. É, é mágico, é bom, é gostoso. Gostaria de, com todas as minhas forças, evitar que voltasse a ser noite, de novo, fazer com que a Terra parasse de girar, contemplar cada coisa em seu lugar na maravilha que é a inércia, a falta de movimento, a luz acertando em cheio as coisas sem que as coisas se movam, numa espécie de beleza eterna e etérea. Mas as coisas movem, a Terra gira, os dias vão e vêm, as horas passam, o movimento está aí, tudo se move, a luz mal tem tempo de tocar os objetos e lhes imprimir uma sombra ou um ângulo inquestionavelmente belo sem que venha o movimento seguinte, brusco, abrupto, e destrua todo efeito fosco ou fluorescente paulatinamente trabalhado para que, então, venha a sombra mole e a luz disforme, de forma que todo sol e toda luz penetrem nos corpos de uma maneira um tanto quanto insípida e desleixada. Tudo isso porém não aconteceria se pudéssemos parar o movimento, se pudéssemos não depender do sol a nos iluminar, ainda que seja mais natural, talvez, ainda que o sol rode junto com os corpos e o efeito seja sempre novo, mas sempre vinculados a uma fugacidade impressionante, a uma necessidade de desfrutar de cada nesga, de cada instante de luz porque adiante, aí está, uma variação do ângulo do sol, um movimento sutil do corpo precedendo o movimento brusco, outros timbres, outras nuances, uma espécie de transmutação eterna, de mudança indubitável. Estar sempre à mercê do sol e da luz do sol, e movendo-se de um lado para o outro, tentando capturar a beleza já tão passado, que não se permite voltar ainda que se volte o corpo à mesma posição, porque o sol já caminha em outros passos, já projeta outros horizontes, já não permite uma mesma imagem. Aquela imagem estonteamente bela já não existe, não volta é quase uma ilusão de óptica. O sol rodou, girou, projeta ao meio-dia agora. As coisas são agora, tal como são. Virá a tarde, que precede a noite. A noite é dia pra quem está do lado de lá. Pra quem está do lado de cá, a tarde é a madrugada de quem vai e ainda não chegou, é um esperar triste e silencioso pelo dia que amanhecerá imprevisível, nublado ou ensolarado, talvez com chuva, granizo, quiçá neve. Ninguém poderá saber a intensidade do frio ou da saudade pra quem vai e pra quem fica, mas o sol que nos ilumina é sempre o mesmo, ainda que com suas variações de humor, seus fusos horários invertidos, suas nuances intempestivas de um aquarela dourada antes de dormir embaixo de uma de nossas camas e acordar tal e qual uma moeda de um centavo, redondo ou quadrado, do lado de lá. As nuvens, no entanto, são de cada um. A chuva que chega e que molha pode ser boa, pode ser má, pode ser a enchente ou a colheita. A chuva é de cada um. A noite pode ser treva ou pode ser farra, pode ser ócio ou pode ser tédio, ou pode ser só. A noite é de todos, o sol não vê a noite. A lua que míngua, um dia se enche. E quando se encher da cheia, esvazia, até ficar nova. A lua nova é o espaço vazio, é a ausência de luz que se projeta à frente, no espaço morto entre o minguar e o crescer. A lua cresceu, e cresceu bem; foi bonito, não foi? Veio a lua cheia, ah, que plenitude. Agora, a lua míngua, visivelmente e com força, um estágio antes. Virá o período da lua nova. A lua nova é ausência, é escuridão e céu negro. É ainda novidade, é o porvir, é a noite com seus guizos e grunhidos, talvez choros. Depois, com fé, a lua cresce, de novo, reluzente e tenaz, até que nasça a lua cheia, branquíssima, iluminada, a lua cheia mais bela que já se viu. E ainda com fé, há de se esperar que, ainda que a lua se decida por minguar de novo, que se demore na cheia, que não se vá tão breve, que seja suficiente sempre para encher de plenitude e luz os tempos vindouros, as outras luas, planetas, cometas e satélites que, porventura, um dia cheguem.

Quanto ao sol e ao movimento do sol, bom seria se pudéssemos nos fechar em um quarto, naquele quarto onde pudéssemos ver o mar imponente lá fora pela fresta da cortina, sem se importar se é dia ou se é noite, se o sol brilha com força ou sem, porque o que importava mesmo era nos ver através do espelho assim, inertes, inebriados de nós mesmos e de nossa própria luz artificial, contemplando a beleza do contorno e da sombra, sob o feixe de luz exato e pelo tempo que quiséssemos, bastando, à nossa vontade, regular, segundo nossas próprios anseios e desejos, ainda que inconscientes, as posições dos corpos e a intensidade da luz ou da penumbra daquela lâmpada incandescente do motel.

Por enquanto, porém, há uma natureza e uma meteorologia clamando do lado de fora: há lobos, corujas, cigarras, dias, noites, lua, sol, movimento. O inerte, por enquanto, é devaneio, é sonho de verão azul. Peço desculpas se não consigo evitar a existência e a intensidade da luz do sol, ainda que não agora, ainda que tente colocar uns óculos escuros para ver melhor as coisas e não me perder do caminho. Não posso refutar a luz, entenda, não agora, não posso negar a liberdade da luz do sol, ainda que o tempo acabe por ficar nublado às vezes, ou sempre, e ainda que eu me recuse, por vontade própria a me mover para tentar variar o menos possível a incidência da luz. Entenda que não posso me furtar a nada disso porque para optar pela inércia é preciso conhecer o movimento e, porque, lá, onde fulgura o outro lado do sol, não haverá motéis com lâmpadas incandescentes, onde me bastaria olhar a tua própria imagem naquele ângulo peculiaríssimo para que não fizesse questão do sol, mas não terei escolha; estarei do lado de fora, se fizer sol ou se chover.

Isto é um desabafo. Tem um monte de metáforas, mas continua sendo um desabafo. Acho que é uma forma de dizer o que eu quero dizer, o que eu preciso dizer, sem dizer necessariamente, ipsi litteris, aquilo que eu estou dizendo. É confuso, eu sei. Peço que não tente analisar meu texto palavra por palavra, isso vai me irritar; as idéias vão e vêm, se sobrepõem, se misturam, etc... Esse texto foi/está sendo escrito de uma só vez e não pretendo relê-lo, como não costumo fazer com textos desse tipo. No fundo, sei que você pode achar tudo isso uma grande babaquice, ou achar que eu fiz um texto bonito que demonstre o quanto minhas idéias são babacas; é uma interpretação possível. Falar dessas coisas todas é muito difícil, me abrir nesse blog é muito difícil; tentar expor, de alguma forma, aquilo do qual eu sempre me esquivo e sempre fujo é difícil pra cacete. Entendimento pleno dessas palavras nem eu as terei, mas é uma tentativa de tentar pôr as coisas em ordem, ainda que eu não consiga ou só embaralhe mais as coisas todas.

Se eu fosse desses, faria uma prece pra setembro chegar mais rápido. Mais para que setembro chegue, é preciso passar por agosto. E para agosto chegar, ainda temos julho inteiro pela frente. E, a despeito da vontade em contrário, esses dias, todos eles, terão de ser vividos, um por um, ainda que doam. Mas pode ser ainda, e tenho fé, de que haja o famigerado pote de ouro no final do arco-íris. Ou, quem sabe, um arco-íris inteiro quando acabar o pote de ouro.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Manifesto

Declaro que faço parte dessa juventude de olhos cegos, mãos atadas e pensamento paralítico. Declaro que, no direito inalienável do meu silêncio, compactuo com todas as atrocidades cometidas diariamente contra toda sorte de pessoas: da fome ao preconceito, do desemprego à depressão. Declaro ainda que, como representante da classe, penso apenas em mim, nas minhas coisas e nos meus objetivos particulares. Desde cedo, aprendi que a felicidade é algo que devo buscar por mim mesmo, algo que não pode ser construído coletivamente. Prefiro indiscutivelmente ser um indivíduo a ser um cidadão. Esnobo a puta e o mendigo, não os encaro. Percebo que sou frágil; tenho medo, muito medo. Da morte, da solidão e da polícia. Não vou às ruas. Não tenho causas nem preceitos. Não vejo motivo para protestos porque acho que as coisas estão indo sempre muito bem. Declaro que não sou conservador nem liberal, porque pouco sei da política. Como todos os outros, reclamo por entre os dentes, digo que o Brasil que não vai pra frente, que os políticos são todos uns safados. Declaro que acredito na verdade que me chega pela televisão, não preciso de outras fontes. Minhas músicas são meu combustível diário, coloco os fones nos ouvidos e afasto-me da realidade, crio uma barreira entre mim e o que acontece ao meu lado. Declaro que sou guiado pelo prazer a qualquer custo, a qualquer tempo. Sempre corro, não sei de quê, não sei pra onde. Prefiro não saber o que nos move à frente, ou ainda, o que não nos move. Declaro que faço parte da massa pálida e descafeinada que engrossa as filas de emprego sem se questionar e sem protestar. Somos uns cordeiros, todos. Tenho fé ainda de que a felicidade virá na caixa do Sucrilhos do dia seguinte. Declaro que meu projeto mais ambicioso é erguer minha casa de gramado verde e cercas brancas e construir uma família onde vivamos todos tal e qual o comercial de margarina. Eu, filho do carbono e do amoníaco, espero sempre. Pelo beijo ou pelo escarro. De minha face, contudo, nenhum músculo se moverá. Declaro, em nome de todos que represento, que optamos por ser assim, que é nossa escolha estar sempre indiferente ao que quer que seja, que temos até um certo orgulho em não sermos mais do que pedaços inertes de plástico.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Twitter poem #001

desenho um asterisco com os pés
tento crer
ainda
que a força do lápis
ou a câimbra
me presenteará com uma árvore
um barco à vela

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Verso do caderno, em 30/03/2009


Que saudade daqueles tempos nos quais eu escrevia qualquer coisa no verso da última folha do caderno e aquelas horas passavam lépidas, ligeiras, a aula sempre muito inútil do lado de lá, ali, no conhecimento projetado à frente com tanta intenção acreditando ainda que os alunos dos cursos superiores são diferentes daqueles do colégio e vão estar muito preocupados em aprender aquilo que se dá, mas na verdade, no fundo mesmo, ninguém está nem aí, talvez porque as aulas sejam mesmo desinteressantes ou porque as pessoas estão preocupadas demais com o futebol de amanhã e a menina de saia curta que passou. Mas a verdade é que os tempos idos são os mesmos de agora, salvo algumas pequenas mudanças de contexto, mas estão aí o trabalho, as mesmas pessoas gelatinosas que povoam o espaço, os mesmos traços, as mesmas letras; ainda essas pessoas presas nessas vidas de pão e circo e que vão casar e ter filhos e ser felizes para sempre, e tanto faz que se mudem os rostos e os nomes, não importa, é esse mesmo espírito vazio e essa falta de cultura que faz com que não se possam distinguir os medos de agir, de pensar e de ser, uniformíssimos. Mas hoje, apesar de tudo, já há muita coisa sólida para além de toda falta de coragem e para além de todo conformismo: há estrelas no céu. Há liberdade e há verdade. Não há medo, ou quase. Não há o eterno, não há o pra sempre. Não há o incurável, não há o crônico, há só o presente, e que presente. Há tanta coisa dentro para além do que se vê e para além do que se pensa, mas agora já não há essa necessidade torpe e crônica do travar-se, não há fronteiras para o corpo, não há o pensamento paralítico. Porque a coisa crônica não passa de um monte de letras no papel; e é quase conto e, sendo conto, já é quase poesia; e sendo poesia já é quase bela, sem que haja meio de fugir da beleza porque ela está em todo lugar; para onde quer que se olhe lá está a beleza, para além do aparente e para além do turvo, para além do próprio belo. Essa necessidade de transcender, de querer acreditar que há algo que transcende e que transcende de verdade já é tão passado, já é tão anteontem, já é tão cheia de ilusão e de mentira que já não faz mais sentido; a libertação, a liberdade, nada disso é uma questão transcendental, é uma questão de aqui e agora, pura e simplesmente, de se livrar dos medos e de tudo que não presta porque, olha, ser feliz é simples, ou ainda que não seja, vá lá, mas é tanta beleza, tanta beleza desperdiçada nos raios de sol, na cidade que brilha aqui, na cidade que brilha do lado de lá, na cidade poluída, pequena, industrial, megalopolizada, cinza,turva, limpa, desacreditada, segura, violenta, luxuosa, popular, hospitaleira, nessa cidade na qual nada transcende, na qual as coisas são harmônicas por si mesmas ou não, na outra cidade também, em qualquer cidade, em todas as cidades onde há prédios e essa necessidade vital que é mais que existir, que é ainda mais que contemplar e mais que estar, tudo tão real, tudo tão ao vivo e pleno de sentido em si mesmo e tudo belo, belo, insuportavelmente belo. E essa beleza já não fica encalacrada numa redoma de sinapses desconexas, já se expande para além do limite do pensamento, já se deixa entrever nuns olhos que brilham e num sorriso desmedido, real, sincero, que não transcende e que não se propõe a transcender nada, não se propõe a ser qualquer outra coisa que não um sorriso real e sincero, ocupando um lugar no espaço, um lugar cartesiano, ou ainda que não, mas um lugar real, puro, sólido, concreto. As coisas no mundo emanam uma vontade natural de essência, ou é preciso que emanem, ou não, mas é o que se vê; no fundo, são as coisas sendo, existindo, ocupando o espaço, um átomo, um lápis, uma cidade, uma necessidade inexpugnável de ser e de seguir sendo. O mundo, ou ainda que eu, através dos olhos do mundo, sorri, sorri porque acha graça de si mesmo quando tropeça ou quando chove, ou ainda quando morre a flor e quando nasce o rato até que o rato morra e que outra flor nasça, sem que nada transcenda, mas que tudo seja riso, ainda, de uma forma ou de outra, de preferência largo, mas às vezes discreto, entre os dentes, mas sempre sincero e sempre riso, porque as coisas são e vão continuar sendo, desta forma ou de outra, flores e ratos nascendo e morrendo o tempo inteiro, as cidades crescendo e existindo, as pessoas remoendo suas vidas, chorando suas mágoas, comprando carros, casando, tendo filhos, fingindo que lêem, achando que podem e achando que sabem, derrubando muros, pulando cercas, tramando teias e um riso honesto por cima de tudo isso não pela mudança, pela revolução ou pela transcendência, mas pelo simples e pelo cotidiano, pela beleza e pelo nada, pela aula que segue fluida enquanto escrevo.

twitter

blog says: twitter is killing me softly...