sábado, 21 de fevereiro de 2015

Meio preto, meio árabe – as faces ocultas do preconceito e da opressão



Sou um brasileiro típico. Tenho a cara de todos os lugares e de lugar nenhum. Dessa forma, é muito fácil apontar para mim e dizer que pareço um indiano, um árabe, um boliviano, um egípcio. Sou fruto da mais profunda miscigenação brasileira. Sou tão profundamente brasileiro que tenho uma ancestralidade insondável: meus pais nasceram aqui, meus avós nasceram aqui. Dos meus bisavós, há uma memória remota, onde a memória e a vontade se confundem de forma bastante ardilosa: negros escravizados da África, índios, colonos antigos estabelecidos nas Minas Gerais e na Bahia, pretos forros, alguém remotamente português, mouros: ninguém sabe ao certo. Na minha família, somos todos frutos dessa terra chamada Brasil.

Tenho dois irmãos de mesmo pai e mesma mãe. No entanto, a genética, esse jogo de dados, fez com que nascêssemos todos com a mesma cara, porém com cores diferentes. Sou o mais preto dos três. Minha irmã é um pouco mais clara e meu irmão já bem mais claro, dos olhos cor de mel.

Ocorre que sou um preto de araque. Não fui premiado pela vida com uma cor e uma ancestralidade que me remeta de forma inequívoca aos meus ancestrais de Angola ou de Moçambique. Meu tipo, a minha cara, está sujeita a mudanças e nunca está pronta. A roupa que uso e a barba que escolho para viver meus dias me deixam mais paquistanês, mais iraniano, mais preto do sul da África ou mais marroquino.

Peço desculpas pelas possíveis falhas de ortografia, mas passa de uma da manhã: é tarde, eu vim de um bar, e embora as condições me conduzissem a um sono pesado e tranquilo, achei tão fundamental escrever esse texto que não pude deixar para depois.

Recentemente, tenho deixado a barba crescer de uma forma meio desordenada. Trata-se não mais do que uma vontade, um capricho, uma escolha estética. Desde que tomei essa decisão quanto à barba, tenho ouvido em tom de chacota coisas do tipo “cuidado ao entrar nos Estados Unidos”, “com essa cara você não entra na Europa”, etc. Essas chacotas são escrotas e babacas, de forma geral, e vou explicar mais adiante o porquê.

Sempre tenho um certo orgulho de ‘não ter sofrido preconceito na vida’. Sou preto, mas isso nunca foi muita questão para mim. Por ter passado uma vida inteira não sendo ‘tão preto assim’, fui vivendo à margem desse conflito. Ademais, também sou gay e vivo com meu companheiro, mas como sou muito pouco afeminado, vou levando uma vida em que todo o preconceito lançado contra mim vai sendo jogado para debaixo do tapete tão subrepticiamente que eu nem vejo.

Acabo de voltar de uma maravilhosa de Carnaval em Cuba. Foi um tempo incrível. Cuba é maravilhosa e convive de forma harmônica com seus paradoxos. Tenho para mim que faço post em breve sobre a experiência que tive na ilha, vamos ver se cumpro.

Por puro diletantismo, deixei a barba ir crescendo antes da viagem. Cheguei a uma barba que se podia cofiar, e o ato de cofiar a barba traduz como poucas coisas a expressão que quero transmitir às vezes. Minha ideia, inocente, era a e fazer a barba em Cuba, de preferência em um barbearia tradicional cubana, de forma que eu pudesse passar metade da viagem com uma barba à la Fidel e a outra metade com a barba mais ou menos comportada. Ao fim e ao cabo, foi bem isso o que aconteceu.

Chegamos em quatro no aeroporto de Havana. Eu, meu companheiro, e um casal de amigos (Joana e Pedro). Enquanto esperávamos na fila da imigração, um policial veio e nos abordou. Perguntou nossas intenções e Cuba (turismo) e nossas profissões (três engenheiros de produção e um médico). Pouco depois, quando Joana e Pedro já haviam passado pela imigração, uma outra policial nos abordou. Novamente perguntou as nossas intenções em Cuba (turismo) e se eu tinha nacionalidade turca ou árabe (não), se eu tinha parentes lá (não, não tinha) e que minha fisionomia se parecia com a deles (ao que eu disse que sim, apenas a fisionomia se parecia). Algum dos policiais certamente gravou meu nome e, embora eu não tenha disso parado na imigração, minha mala voltou com o fecho-eclair quebrado. A mala foi levemente revirada, e (evidentemente), não acharam nada demais, nada que não condizesse com um turista que passaria seis dias na ilha.

Até nem ia mencionar quando no voo São Paulo – Havana a aeromoça perguntou se eu comia presunto, ao que eu disse que, sim, que comia. Tenho cara de cidadão de país muçulmano, talvez. É phoda ter a cara de um lugar que não é o seu, passar por cidadão de um lugar que não te representa em absoluto.

O motivo desse post é que acabo de voltar de um bar, onde estava com meu companheiro, um amigo e uma amiga. Contamos essa história. O que ouvi do Gabriel (meu companheiro), após contá-la é que eu deveria ter feito a barba antes de entrar em um outro país, que eu cori um risco muito grande de passar por um interrogatório bizarro na imigração, etc. Esse discurso foi, em certa medida, corroborado pelos meus outros dois amigos que estavam no bar. Seguiu-se a isso um apontamento quanto ao fato de eu correr no Aterro do Flamengo sem documentos. Que eu corro riscos de ser achacado por policiais, de ser torturado, etc.

Existem casos que já vim em blogs de caras que foram interrogados ou presos enquanto corriam só por serem pretos. E de gente com cara de árabe ou com algum adereço muçulmano que foi parado no aeroporto e teve que ‘dar explicações’.

Embora a dimensão do ‘ser preto’ quase não apareça muito na minha vida, eu já fui parado pela polícia duas vezes. E por esse motivo. O post que conta essas histórias pode ser visto aqui. E a dimensão do ‘ser árabe’ aparece quando falam em turco comigo na rua, quando perguntam a minha procedência.

Essas pessoas com as quais eu estava no bar me amam muito. E fizeram esses comentários e me deram essas ‘dicas’ no intuito de me proteger, por não quererem que eu sofra.

Só que proteger também oprime.

É claro que eu não quero ser mártir de porra nenhuma. Eu adoro poucas coisas na vida quanto a condição de estar vivo, acho a vida incrível e mágica.

No entanto, dizer para que eu mantenha a barba feita é (quase) tão opressor quanto me revistarem no aeroporto porque eu deixei de fazê-la.

É pedir para que a filha não ande com uma saia muito curta, porque os lugares são perigosos. É pedir para que o filho não ande de mãos dadas com o namorado na rua porque a homofobia está violentíssima.

Entendo isso como uma forma enorme de amor, mas esse amor reforça as condições de opressão.
Eu não tenho que pedir desculpas a ninguém por ser preto. Eu não tenho que mudar os meus atos por ‘ter cara de árabe’ ou ter uma barba aparada por esse motivo.

De certa forma, é fácil para quem é branco pedir para que eu mude a minha aparência ou a minha conduta para que eu me encaixe num tipo de ordem que acham que eu devo seguir (e que, de fato, existe). Só que eu não posso ser outra coisa. Eu posso raspar a barba, cortar o cabelo de uma outra forma, mas eu continuo tendo ‘cara de árabe’, eu continuo sendo preto. Eu simplesmente não posso ser outra coisa, e portanto, não serei!

É claro que querem que eu sofra menos, que eu cora menos riscos, mas eu não tenho como não corrê-los. Eu corro mais riscos por ser preto. Só que eu não tenho como deixar de ser isso que eu sou. É claro que eu tenho cara de suspeito, mas toda suspeição é, nada mais nada menos, do que um aparato legal, mas ilegítimo, para que a as forças de ordem possam destilar seus preconceitos.

Eu até posso deixar uma barba curta, evitar usar roupas que me remetam ao mundo do crime ou que me façam ter ‘cara de bandido’, andar sempre com dinheiro e um comprovante de renda no bolso para mostrar que sou ‘cidadão honesto e trabalhador’.

Só que eu não quero pagar nenhum preço por ser preto, essa não é uma escolha que eu tenha feito e eu não vou pedir a desculpas a ninguém. Sim, eu corro mais riscos do que vocês brancos, mas a menos que eu me recuse a sair à rua, tenho que aceitar que sim, corro esses riscos.

E também tenho que aceitar e entender que essas coisas só vão parar quando as pessoas pararem de se sujeitar. Só vai ser possível que a mulher não precise alisar o cabelo para ir ao trabalho quando as mulheres, de fato, pararem de alisá-lo para ir ao trabalho. Se todo mundo ficar em casa ouvindo suas mães dizerem que ‘minha filha, se arruma direitinho pra trabalhar, penteia esse cabelo’, ou ‘filha, é feio para uma mulher ficar falada no bairro’, ou então, ‘filho, tudo bem você namorar o fulano, mas não beija em público não porque as pessoas são muito perigosas’, enfim, se todo mundo ficar nessa inércia de merda e nao jogar a realidade na cara das pessoas, vamos continuar achando que somos um país hétero-branco-masculino-cisgênero como as novelas da Globo fazem crer a qualquer pessoas que as assista em qualquer lugar do mundo.

Ser preto ‘não tão preto’, ser gay ‘não afeminado’, ter cara de árabe ‘de barba feita’, embora sejam todas coisas que pareçam naturais em mim, foram todas fruto de uma escolha completamente inconsciente, alimentados por medo e pelas neuroses mais diversas.

Assim como a sociedade não muda com uma canetada, a vida também não muda com um arroubo da vontade durante a madrugada. É claro que as coisas muito provavelmente continuarão sendo do jeito que são, mas conseguir enxergar a coisa e falar/escrever sobre a coisa é quase um atestado de que essa coisa realmente existe, de que ela está lá.

Digo isso porque a minha vontade nesse momento é a de recuperar em mim uma pretitude que se esconde em algum lugar que já não sei bem onde, ao mesmo tempo em que quero ser a bicha mais afeminada que eu conseguir ser. E claro, sair por aí com um turbante na cabeça.

Esse texto foi escrito num átimo, sem revisões. É quase duas e meia e eu preciso dormir. Agradeço a paciência dos que me leram até aqui.


A revolução que Cuba me trouxe, ao chegar no aeroporto de Havana, não foi comunista.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Eu não sou Charlie, eu não sou Ahmed, eu não sou ninguém



Vi em algum lugar e já não me lembro exatamente onde, tamanha a profusão de textos sobre o assunto, de que o Somos Todos Charlie tem uma certa semelhança com o “Somos Todos Macacos”, que surgiu aqui no Brasil no caso Daniel Alves, e que foi rapidamente vilipendiado pelos movimentos sociais. No entanto, à parte o fenômeno da rápida comoção das pessoas, e de eventuais mudanças de postura após esta rápida comoção, existe uma diferença entre os dois casos que talvez nos ajude a elucidar o que está acontecendo hoje, na França e no mundo.

Este elemento é a ausência de maniqueísmo. Enquanto no caso Daniel Alves existia uma clara noção de certo-e-errado, uma clara de noção de quem era o opressor e de quem era o oprimido, já não se pode dizer o mesmo no caso do atentado ao jornal francês.

Uma coisa que se viu naquele exemplo, e que não pode ser visto agora é a existência de um coro. Uma única voz em uníssono a dizer que éramos todos macacos, seguidos de uma outra voz, mais à esquerda, também um coro, a nos dizer que não, que não éramos. No caso de agora, pessoas à direita e à esquerda, ora dizem que são Charlie Hebdo, ora dizem que são Ahmed, o policial islâmico que morreu em decorrência do atentado. Não parece haver um consenso, em última instância, um coro, a guiar a massa de pessoas para um lado ou para o outro. De acordo com o que tenho visto (e cabe lembrar que cada um de nós tem acesso a um espectro da realidade, um percentil ínfimo; no nosso caso, que ainda estamos a um oceano de distância dos fatos, mais ainda), a sensação é de que as cartas na mesa do jogo político estão todas embaralhadas. A religião embaralhou a política.

No caso do Brasil, embora não tenhamos a questão muçulmana aparecendo de forma efetiva nos principais centros urbanos do país, temos também as nossas questões religiosas. Somos um país extremamente católico, temos um conjunto de evangélicos com grande representatividade no congresso (embora não representem todo o conjunto dos evangélicos), e religiões afro-brasileiras, além do crescente movimento ateu. E, por aqui, não, não podemos falar abertamente sobre religiões. Religião no Brasil é um tabu muito maior do que na França.

Nós somos o país que proibiu o desfile do Cristo Redentor no desfile da escola-de-samba Beija-Flor em 1989. Nós somos o país que tem medo dos ‘macumbeiros’ e os demoniza. Nós somos o país em que se declarar ateu é colocar em xeque a própria reputação e a própria dignidade. Ou, como diz o Laerte, o Brasil é o país em que o Hebdo não poderia existir. Nesse sentido, causa bastante estranheza que muitos brasileiros advoguem à favor da liberdade de imprensa quando qualquer piada com jesus cristo seria crucificada em terras tupiniquins (com trocadilho, por favor). É claro que todos condenam o atentado, a violência, etc. Mas em termos de liberdade de imprensa, tem muita gente por aí que é extremamente egoísta e só defende o ponto de vista da liberdade de imprensa porque se trata da religião do outro.

A discussão sobre o respeito às religiões é virtualmente infinito, de forma que não gostaria de me alongar sobre ele, até mesmo porque essa discussão está longe de ser o cerne da argumentação que pretendo desenvolver. O que deixo como minha opinião é de que toda religião é sim, profanável. Que eu não entendo exatamente porque todas as pessoas têm que ter respeito às religiões quando as religiões nem de longe têm respeito por todas as pessoas. Em última instância, acho que a profanação é um DIREITO de todas as religiões. Poder ser criticado significa ser reconhecido, ser percebido, estar no mundo, existir. Mas, enfim, embora eu seja a favor da liberdade da profanação, eu mesmo não as profano e as respeito todas. Sinceramente, mais por uma questão de convivibilidade do que por princípios. É importante ressaltar que ‘profanar’, da maneira que estou usando aqui, não tem a ver com incitação de ódio, tem a ver apenas com dessacralização. (ei, você! você pode não concordar com este parágrafo, mas por favor, continue lendo. :-] )

Mas essa questão religiosa da profanação é, na verdade, uma fatia de uma outra questão, maior: Que coisas podem ser ‘profanadas’? O que pode ser objeto de piada?.

A cultura brasileira assentou suas bases no humor de ódio, intolerância e deboche ao diferente, ao que fugia dos padrões, a tudo que era percebido como menor. Aí estão inclusos os negros, os gays, os índios, as religiões afro-brasileiras. Era o humor do opressor contra o oprimido. De uns dez anos para cá, com a popularização da internet e, especialmente, com a reverberação da voz dos movimentos sociais em decorrência das novas mídias, esse tipo de humor ‘politicamente incorreto’ passou a ser quase proibido, ao passo em que emergiu um novo tipo de humor de matiz oposta: o humor do oprimido contra o opressor. Esse tipo de humor que, no Brasil, sacaneia a Igreja Católica, os políticos, e gente muito rica (tipo o ‘Rei do Camarote’) fez e faz cada vez mais sucesso e muito disso se deve ao grupo ‘Porta dos Fundos’. Então, enquanto construímos nossa vivência histórico-cultural com charges do opressor contra o oprimido, hoje só vale o oposto, do oprimido contra o opressor.

E é nisso que reside a grande questão do problema. Enquanto há grupos, no Brasil, tradicionalmente opressores (Igreja Católica, homens brancos, latifundiários) e outros tradicionalmente oprimidos (negros, gays, quilombolas), o que se vê hoje, tanto no Brasil, quanto no mundo, a construção de um cenário onde esses modelos de ‘oprimido’ e ‘opressor’ podem não mais servir para enquadrar os grupos sociais.

É precisamente essa a questão das charges que retratam Maomé e do atentado ao Charlie Hebdo. O povo islâmico é AO MESMO TEMPO opressor, porque oprime suas mulheres e as relega a uma condição de dependência e subserviência aos homens (além de ser a religião dominante no planeta), e oprimido, porque ocupa um lugar periférico e marginal na composição da atual população europeia.

Ao mesmo tempo, os judeus, historicamente um povo oprimido, em especial se considerarmos a Segunda Guerra Mundial, pode ser visto também como um povo que oprime os palestinos (embora sempre haja outros pontos de vista). Se falarmos de grupos brasileiros, mesmo entre grupos historicamente oprimidos, podemos observar situações semelhantes. Mulatos oprimem pretos, gays oprimem trans. Mas mulatos são oprimidos por brancos, gays são oprimidos por heterossexuais. Onde, exatamente, está a relação de opressão entre ateus e evangélicos?

O fato é que as relações de opressão têm se tornado mais complexas. Isso se deve tanto ao empoderamento de grupos oprimidos quanto à dinâmica de formação e crescimento dos grupos sociais. As relações de opressão também têm a sua classe média, o seu nível gerencial (que recebe ordens do patrão e ordena ao empregado).

O que falar, então, do caso da polícia? A polícia, que no Brasil sempre é citada como um grupo extremamente truculento e opressora dos movimentos sociais, é também um grupo oprimido, de salários baixos. O Somos todos Ahmed é uma resposta interessante da sociedade francesa ao Somos todos Charlie. No entanto, essa polícia oprimida (e neste caso, ainda mais, por ser justamente um muçulmano) é exatamente a mesma polícia que, no dia seguinte, pode lançar bombas de efeito moral para dispersar uma manifestação (embora, na França isso fosse menos provável; mas mesmo assim, possível).

Enfim, esse texto termina de uma maneira inconclusiva, mas acho importante remeter ao título. Nessas horas, mais do que ser Charlie Hebdo, ou de ser Ahmed, é importante não ser essas coisas, mas pensar sobre essas coisas dentro de um mundo que dificilmente comporta respostas maniqueístas para as questões contemporâneas.

Por fim, creio que tal como nas manifestações de junho de 2013, só a história será capaz de entender exatamente o que aconteceu. Enquanto isso, exatamente como nas manifestações de junho de 2013 (que têm muito mais a ver com o atentado do que o Somos todos macacos), mais importante do que ter uma opinião de pronto é questionar, em primeiro lugar, a opinião que querem que você tenha.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Focas, pinguins e o conhecimento científico



Na última semana, a notícia de que focas estavam estuprando pinguins sacudiu a internet. À parte o fato deplorável de que alguns encontraram nesta notícia o subterfúgio que sempre quiseram para fazer piadas sobre o estupro de forma mais 'tranquila' e menos sujeita a julgamentos, e para além da notória bizarria que constitui o cerne da matéria veiculada, existe uma outra coisa que aparece quase nas entrelinhas de tão sutil, mas que vou tentar desenvolver aqui: a falibilidade do conhecimento científico.

O texto desta notícia, em suas várias nuances de acordo com o veículo de mídia, costumava apresentar ou no primeiro ou no último parágrafo um trecho como: "Cientistas estão intrigados com o fenômeno"; ou alternativamente: "Cientistas ainda não sabem explicar porque esse tipo de comportamento ocorre".

Cientistas estarem intrigados com o fenômeno é uma coisa ótima. Isto significa, no mínimo, que estes que foram citados na reportagem são bons cientistas. A segunda frase, entretanto, é aquela que traz o problema que ora abordo.

A raiz deste problema está na palavra "ainda". A existência desta palavra na reportagem traz consigo a seguinte mensagem: "Ora, trata-se de um fenômeno muito recente e que demanda muito estudo. Evidentemente, a ciência conseguirá explicar isto mais cedo ou mais tarde. Nossa impossibilidade de explicar o fenômeno é apenas momentânea."

Acredito que seria muito improvável que a matéria pudesse ser publicada sem que a palavra "ainda" estivesse na sentença. A frase "Cientistas não sabem explicar porque esse tipo de comportamento ocorre.", embora absolutamente verdadeira, frustraria não apenas os leitores mas também a própria comunidade científica, todos eles muito acostumados à ideia de que a ciência tem que dar conta de explicar todas as coisas.

Só que ela não vai.

Particularmente, até acredito que neste caso a ciência conseguirá explicar este fenômeno em breve. Mas pode ser que não consiga. Pode ser que este fenômeno, o estupro dos pinguins pelas focas, não tenha uma explicação científica. Ah, mas como assim? É, pode ser que não tenha. Quando um homem estupra uma mulher, isso não necessariamente tem uma explicação científica. Pode ter uma explicação psicanalítica, que não é ciência. Pode ter uma explicação espiritual/religiosa, que também não é científica. Em alguns casos, isso pode estar associado a um questão hormonal ou a alguma anomalia em uma região cerebral, o que, apenas nessa caso, teria a ver com o conhecimento científico.

A fé cega na ciência, e mais do que isso, achar que a verdade científica é a única verdade possível, é, senão burrice, ao menos ingenuidade. Os fenômenos, todos os fenômenos que acontecem, são dotados de uma tal complexidade, que olhar para eles sempre sob o mesmo prisma do conhecimento científico é nada menos do que reduzi-los a uma fração do que eles, de fato, são.

Essa estratégia de pensamento unilateral não é privilégio da ciência. Muitas religiões acreditam que todas as coisas podem ser explicadas por um livro sagrado (quando, é claro, não podem). Algumas linhas da psicanálise acham que tudo pode ser reduzido às pulsões sexuais (quando, é claro, não pode). Alguns economistas acham que a taxa de crescimento do PIB explica tudo quanto for relevante para a economia dos países, enquanto outros acham que a luta de classes é o grande conceito por trás de todas os fenômenos sociais (quando, na verdade, não são).

Não estou dizendo que não acho importante ter enfoques. Ao longo das nossas vidas, vamos escolhendo algumas formas de ver o mundo, sob alguns prismas, alguns ângulos. Isso é bastante razoável. Mas reduzir todas as coisas que existem a apenas uma única forma de olhar é não perceber que o mundo é mais complexo do que somos capazes de apreender.

Acreditar no método científico como única solução possível é um ranço do positivismo do século dezenove, que acha que os homens vão desenvolver a tecnologia até o ponto de domar a natureza por completo. É com certo espanto que vejo esse tipo de pensamento (que desembocou na eugenia e no conceito de raça superior) ser reproduzido ainda no século XXI. Não cabe mais achar que a natureza está lá parada, pronta para ser dominada e explicada pelos homens doutos e cultos. Não cabe mais achar que todas as coisas podem ser explicadas de uma única forma, seja a religião, a psicanálise, a economia ou a ciência. O mundo é plural, complexo, e nós não damos conta nem de nós mesmos muitas das vezes. É preciso admitir a própria ignorância.

Nessa linha, vou relatar uma experiência que tive. Eu não tenho religião. Não trabalho com o conceito de deuses ou divindades. No entanto, a postura presunçosa do ateísmo combativo que acha que deus não existe PORQUE a ciência é capaz de explicar todas as coisas foi me afastando da alcunha de "ateu" e me aproximando do termo "agnóstico". Hoje em dia, tenho me intitulado como "sem religião", o que evita desgastes e mal-entendidos nas relações quando o assunto vem à tona. Ser "sem religião" me exime de uma necessidade de explicar o mundo de forma unilateral e é por isso que a fé cega ateia na ciência me incomoda tanto.

Mas, retomando, sobre a experiência que tive, foi o seguinte. Certa vez, eu conversava com um colega (que já nem lembro mais quem era), e surgiu esse assunto sobre religião. "Ah, qual a sua religião?", ele perguntou, "Não tenho", respondi, "Sou ateu." Daí, este colega (que na ocasião acabei descobrindo ser bem religioso) me perguntou: "Ah, é, então como é que você explica quando a pessoa recebe um santo e muda completamente a aparência, voz, jeito, tudo? Você realmente não acredita que existem espíritos? Hein, como você explica isso?" Daí, respondi: "Não, eu não explico." "Ué, mas como assim? Você não sabe explicar isso então? Então você acredita ué." "Cara, eu não vim pra explicar nada. Eu não sei explicar isso como não sei explicar um monte de outras coisas. Tem muita coisa que eu não sei. E tudo bem não sabê-las." Ele ficou muito incrédulo e desconfiado com o fato de eu não ter um livro sagrado que desse conta de explicar o mundo, fosse ele a Bíblia, o Alcorão o Capital ou o livro do Stephen Hawking.

As pessoas não estão prontas para se assumirem ignorantes, para assumir que não sabem. E ficam lá esperando a ciência 'evoluir' para que possamos explicar porque existe um cometa que toca música ou porque focas estupram pinguins.

Acreditar que as coisas ainda não foram explicadas é, certamente, muito mais reconfortante do que aceitar que para algumas coisas (talvez para a maioria delas), não existe qualquer tipo de explicação.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

é preciso falar um pouco sobre a morte.






é preciso falar um pouco sobre a morte. não sobre essa morte desencarnada que deixa os restos do corpo (osso, unha e cabelos) na fria decomposição dos cemitérios, mas sobre a morte que se vive todos os dias e que nos invade de forma intempestiva. existe uma morte muito grande que nos rouba um pouco de colágeno e de memória todos os dias. esse morrer pouco a pouco é um misto de falta de viço e castração. é uma pressão por ser-se e construir-se nalgo que não é capaz de se sustentar: os trabalhos de toda sorte, as contas para pagar, a vida. é preciso falar um pouco sobre essa morte que é excesso de vida, sobre essa morte que é excesso de pulsação e falta de pulso. essa morte a cuja construção nos permitimos todos os dias sem nos questionarmos muito, e lhe cortamos a arte, a vontade, o deleite e o delito. é preciso falar um pouco sobre essa morte que é violência silenciosa todos os dias, transporte, dor de cabeça, café expresso, camisa social. é uma morte que se nos tolhe também o esporte, a cultura e a crítica. vai ficando só, ao fim dos dias sem fim, uma vida de pouco azul e de muito chá verde. há quem diga que a morte é o que nos iguala a todos e contra ela devemos todos ter uma espécie de resignação silenciosa, como se fosse preciso aceitá-la sem muita indagação. mas a morte são muitas mortes. há uma parte, e sempre há uma parte em tudo que é inteiro, que precisa ser aceita. mas há outra parte contra a qual se pode lutar. é preciso matar a morte que nos mata. é possível e é preciso gritar ‘parem as máquinas’, girar a engrenagem ao contrário. é preciso não morrer porque é preciso navegar. está mais do que na hora de falarmos sobre a morte que não desencarna, sobre essa morte regular de sala de espera, de saguão de aeroporto, de oito horas por dia no escritório, enquanto as sinapses belíssimas da abstração se vão perdendo nas sendas agudas do cerebelo. é preciso falar um pouco também sobre a morte que é também desencarnar, mas já tanto é dito sobre essa morte, que quase não se é concedido espaço algum para a novidade. e é sobre essa morte que é preciso falar. a morte da novidade, do encanto, da beleza, é preciso falar sobre muitas mortes. é preciso falar sobre todas as mortes. a morte dos poços nos quais se cai, a morte dos livros que são lidos e dos que não o são, a morte dos amores, a morte do desejos, a mortificada morte da morte. é preciso falar sobre a morte permeada de bondias, boastardes e boasnoites, que é miséria e comiseração travestida de formalidade. é preciso falar sobre a morte dos poços em que se cai. quando é morto o poço onde se cai, há que se pensar que a queda morre no rastro do poço, mas ela fica nonada. Nonada. a queda sem poço é a infinita queda no nada, onde se lhe extirpam o que há de mais sensível: a arte e todo o resto. é preciso, contudo, evitar a morte. a morte da morte. a morte da morte da morte da morte da morte da morte. é preciso evitar esse excesso de morte. não só a morte que nos chega de fora para dentro, mas também aquela de que somos feitos, porque somos feitos de morte. existe uma morte dentro de cada um, mas que é de todos. é uma morte que tem muito pouco a ver com essa morte desencarnada que deixa os restos do corpo (osso, unha e cabelos) na fria decomposição dos cemitérios. é uma morte do mundo, que é feito de pessoas, que são feitas de morte e de vida. mas só se pode querer deixar de morrer, ou não morrer, ou desmorrer, ou morrer menos, quando se sabe o que é a morte, quando se sabe que existe uma morte em todas as coisas. talvez por isso seja necessário colocar a morte na vida, propagar a palavra da morte, dizer cada vez mais a palavra ‘morte’. por isso é que é preciso falar um pouco sobre a morte.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Cambismo – um outro olhar e algumas reflexões


Durante o período da Copa do Mundo, algumas coisas ficam mais em evidência do que outras. Uma delas é a prática do cambismo, ou a cambistagem, que sempre está presente em todos os eventos de grande porte (grandes shows, apresentações circenses ou teatrais, torneios esportivos, etc.). O cambismo nada mais é do que o ato de comprar ingresso antecipadamente e revende-los a preços mais altos que os da bilheteria, porque lá, provavelmente, os mesmos já estão esgotados e/ou indisponíveis. Essa venda é geralmente realizada no dia do próprio evento.

Ainda que eu devesse saber se tal prática é criminosa ou não para elaborar esse texto com mais propriedade, confesso que não o sei. O que sei, contudo, é que há muita gente no Facebook se manifestando com veemência contra a cambistagem (e muitos alegam mesmo tratar-se de um crime). Muita gente indignada, revoltada, achando que é um absurdo alguém no mundo apresentar esse tipo de comportamento. Pois bem.

A maioria de nós, desde que nasceu, é bombardeada pelos ideais de mercado, a famigerada lógica capitalista. Segundo essa lógica, é preciso ser um vencedor na vida: é preciso se esforçar, ser sempre o melhor, trabalhar duro, consumir muito, eventualmente abrir o seu próprio negócio e investir o seu dinheiro.

Esta orientação de mercado é o que nos move, durante o curso das nossas vidas, a querer fazer um bom negócio (e não é à toa que 'bom negócio' é um nome que pega).

Dentre as possibilidades de se 'fazer um bom negócio', é possível citar alguns exemplos: abrir uma padaria, investir em ações, comprar imóveis.

Vamos falar de cada um deles, então. Abrir uma padaria: provavelmente, o local escolhido será longe de outras padarias, e terá que ter uma razoável clientela. Terá que manter boas relações com seus fornecedores e clientes. Mas, na verdade, tudo isso é secundário. O importante mesmo, para qualquer empresa, é gerar lucro, ou seja, fazer com que o investimento valha a pena. Para quem estudou um pouco de finanças na vida, é garantir que o Valor Presente Líquido seja maior do que zero, considerando todas as entradas e saídas de capital; em outras palavras, ganhar mais do que se gastou.

Investir em ações não é para qualquer um. O mercado é arriscado, e os riscos de perda são grandes. No entanto, existem algumas estratégias: investir em fundos de investimentos já consolidados e de boa reputação, investir em ações que são boas pagadoras de dividendos e, ainda, a estratégia perseguida por muita gente que é a de comprar na baixa para revender na alta. Em todas essas estratégias de investimento no mercado de capitais (e nas zilhões de outras estratégias possíveis), o objetivo é o mesmo: ganhar mais do que se gastou.

A compra de imóveis é o investimento dos sonhos dos nossos pais. O dinheiro vira uma casa em que você pode morar. Havendo mais dinheiro, compram-se outras casas, para alugar a terceiros. Os aluguéis funcionam como os dividendos das ações. Paga-se o usufruto àquele que detém o bem. Obter rendas através de aluguéis era a forma mais comum de investir em imóveis. No entanto, especialmente de uns cinco anos para cá, em que o valor dos imóveis cresceu assombrosamente em todo o país,  a lógica especulativa invadiu o mercado imobiliário, e se propagaram por aí os classificados de imóveis oferecendo um "excelente investimento". "Compra agora porque vai valorizar." "Tô vendendo o meu para comprar outro e ter um retorno." Essa é a lógica de comprar na baixa para vender na alta. Em outras palavras, novamente, ganhar mais do que se gastou.

Essas são práticas legais (no sentido de 'bacana' e também 'de acordo com a lei'), feitas por gente de bem, honesta, trabalhadora, que paga seus impostos em dia. Mas o cambismo, que, em última instância, é comprar na baixa e revender na alta seguindo a mesma lógica do 'ganhar mais do que se gastou', o cambismo não. Esses cambistas são, sim, são uns sem-vergonha, aproveitadores, oportunistas; são um bando de filhos-da-puta, isso sim.

Sempre existe uma diferença de vocabulário para separar o 'nós' dos 'eles' quando se trata de uma mesma coisa, e nesse caso não seria diferente: nós enxergamos a 'oportunidade'. Eles exercem o 'oportunismo'. É a mesma coisa. Mesmíssima. Nós temos transtorno mental, eles são malucos. Nós somos cleptomaníacos, eles roubam. Nós apenas ajustamos a declaração do Imposto de Renda, eles sonegam.

Existe, contudo, uma diferença relevante entre os três exemplos apresentados e a prática do cambismo: a legalidade. Acabo de conferir no Google e confirmar: o cambismo é mesmo ilegal! Mas como podem ser ilegais coisas sob a mesma lógica de funcionamento que é, basicamente, 'ganhar mais do que gastou'? Ora, o Brasil é mestre nesse tipo de artimanha jurídica, ou seja, fazemos isso o tempo inteiro. Qual a diferença entre o cara que bebe cerveja, o que bebe cachaça, o que fuma maconha e o que curte ecstasy? Essencialmente, nenhuma. Todos eles são movidos pela mesma lógica de 'se drogar'. Todos estão ali em busca de algum nível de alteração da consciência. Mas uns são permitidos, outros não.

Mais ou menos como nos casos das drogas, a legalidade é nada mais do que uma construção social. E que se retroalimenta. E não dá para dizer aonde o ciclo começa. A maconha é ilegal. Não paga imposto. Para que seja consumida, precisa ser através do tráfico. O tráfico de drogas gera violência. Se gera violência, então precisa ser ilegal. [etc...] A única forma de frear esse ciclo é legalizar as drogas. Mas, enfim, esse é um assunto secundário nesse momento.

Utilizei-o apenas para demonstrar que com o cambismo ocorre uma coisa semelhante. Quanto mais marginalizada ela vai se tornando, mais aparecerão motivos para que essa se perpetue como uma prática ilegal.

Mas voltando à diferença entre 'oportunidade' e 'oportunismo', é importante tentarmos entender porque especular com imóveis é socialmente aceitável e especular com ingressos de jogos não é. Existe 'oportunidade' em abrir uma loja de guarda-chuvas em um local de alta pluviosidade, e existe 'oportunismo' quando o camelô aumenta o preço do guarda-chuva de 10 reais para 15 reais quando começa a chover. Podemos tentar pensar novamente em cada um dos três exemplos já citados anteriormente: o que é preciso para abrir uma padaria? Em primeiro lugar, um capital inicial, que podemos supor da ordem de 200 mil reais, por hipótese. Em segundo lugar, crédito, Para ter acesso a crédito, é preciso que você tenha fiador, avalista, comprovante de residência e imóveis no seu nome, carro como garantia, e comprovante de renda mínima. Para investir em ações, é preciso acesso ao mercado de capitais, que está longe de ser democrático hoje em dia. É preciso também de um comprovante de renda, um computador com acesso á internet para as transações, uma conta bancária e, especialmente, know-how. Para investir em imóveis, é preciso ter know-how do mercado imobiliário, eventualmente um despachante, e muito capital inicial (tanto para viver de renda quanto para revendê-los a posteriori). Supondo um cenário menor de investimentos, ou seja, alguém que queira investir em imóveis de até 1 quarto, numa cidade de porte médio, podemos estimar o capital inicial mínimo em 500 mil reais.

E para 'investir' em ingressos, o que é preciso? Supondo um jogo no valor de 100 reais, o cambista médio que dispõe de 5 ingressos, precisou de um capital inicial de 500 reais Se falarmos de 'grandes cambistas', o cara que (uau!) dispõe de 20 ingressos para revender, necessita de um capital inicial de 2000 reais. E mais o quê? Mais nada! Esse cara não precisa de crédito, não precisa de avalista, fiador, comprovante de residência, nada. Ele precisa basicamente de 500 reais. E de uma outra coisa que é também muito importante: ACORDAR CEDO.

Esse último é também um fator importante para entendermos o problema. Vê-se por aí muita gente propalar a meritocracia como o suprassumo do capitalismo. Gente que acredita que as cotas não são necessárias porque se todo mundo se esforçar, todo mundo é capaz de passar no vestibular. Gente que acredita que se você trabalhar duro e com afinco, um dia você poderá ser dono da sua própria multinacional. Gente que acredita que o mundo é de quem nasceu para conquistá-lo e de que, para isso, é preciso apenas de força de vontade, porque afinal de contas, o sol nasce para todos.

Pois, ora, assim é a venda de ingressos. A bilheteria (ou o site, enfim), disponibiliza os ingressos para TODAS AS PESSOAS na mesma hora. Todas as pessoas têm acesso. Basta querer, e acordar cedo. É meritocrático. Se você acordasse cedo, ora, também poderia ter o seu ingresso. Aliás, ingresso para dar e vender!

Mas, ah, é que eu não tenho tempo para poder acompanhar a abertura da bilheteria. Eu trabalho, tenho duas reuniões por dia e uma filha para criar. Bom, aí já é um problema seu! Não vamos organizar melhor a venda de ingressos apenas porque você não quer levantar o seu rabo da cadeira para comprar ingresso na hora em que ele começa a ser vendido. Todo mundo dá o seu jeito. Não tem que ter ingresso para vagabundo que não quer acordar cedo! Pegar na enxada que é bom ninguém quer!

Da mesma forma que as vagas de vestibular, os ingressos estão disponíveis para todos, mas não são para todos. Vencem aqueles que melhor se esforçarem, os mais rápidos. Os outros sobram. Aí fica para uma próxima vez.

Só que o cara que utilizou a oportunidade de comprar o ingresso mais cedo (oportunidade que, ressalte-se, estava lá para todos) vai revender o ingresso ao cidadão de bem que pre-ci-sa assistir ao jogo. Ele irá revende-lo com algum ágio, ágio que o supracitado cidadão de bem é capaz de pagar; caso contrário, o negócio não seria fechado. (nas vagas de vestibular não; os que sobram, sobram mesmo. não têm como negociar a vaga, não podem alegar que acordaram um pouco mais tarde para o trem da vida)

A cultura da oportunidade e a especulação em todas as suas formas são o esteio do sistema capitalista. Todo mundo quer fazer um bom negócio. A maior parte das pessoas não tem como abrir uma padaria, investir em ações ou em imóveis. Mas estão todos, ricos e pobres, ávidos para transformar dinheiro em mais dinheiro. O cambismo é apenas uma das poucas formas que os mais pobres encontram para fazer isso (assim como se envolver com o tráfico de drogas ou revender tupperware). Sim, vou usar a palavra, o cambismo é uma forma de investimento mais DEMOCRÁTICA.

Talvez por isso o cambismo seja criminalizado: é foda ver gente pobre com poder de barganha!



Obs: Esse é um texto que tenta entender e contextualizar socialmente a prática do cambismo, e extrair daí algumas reflexões. Se você acha que estou defendendo a prática do cambismo, você não entendeu nada.

Obs 2: Ao escrever esse texto, acabei encontrando um breve texto jurídico (em linguagem acessível), que aborda a questão de um ponto de vista muito parecido com este, enveredando por uma abordagem que trata da criminalização da pobreza. O link da postagem está aqui.

sábado, 19 de abril de 2014

Como elaborar um curso de graduação em ciências humanas


1) Escolha termos amplos e genéricos, p. ex: História, Arte, Ciência, Filosofia.

2) Misture os termos entre si, dois a dois (e às vezes, até três a três) de forma aleatória: História da Filosofia; Filosofia da Ciência; Ciência da Arte; Filosofia da História da Arte;

3) Adicione marcadores temporais, como Medieval, Moderno, Contemporâneo; ou locais: Africano, Asiático, Russo, Brasileiro. O resultado será algo como: Filosofia da Ciência Brasileira; História da Arte Russa; História da Ciência Moderna Ocidental;

4) Coloque números, em geral, ordenados de 1 a 4, mas números grandes e fora de propósito como 11, 12 e 13, podem ser interessantes também. Números romanos dão um charme a mais. Teremos coisas como: História da Filosofia Contemporânea no Brasil IV, Arte Russa III, Filosofia da Ciência Sul-Americana I, etc...

5) Agrupe todos os termos gerados, sete a sete, em oito semestres, de forma mais ou menos aleatória. A única restrição é atentar para a ordem dos numerais: quando utilizar o mesmo termo com variações nos números, é conveniente, embora não obrigatório, colocar as disciplinas I antes das que são II, e assim por diante.

6) Voilà!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Encontros, desencontros e neuroses


Tenho uma certa admiração pelas pessoas cuja totalidade dos relacionamentos são formados por pessoas de círculos pessoais previsíveis: escola, trabalho, família, faculdade. Minha vida nunca foi assim. Naturalmente, conheci muita gente bacana e formei alguns amigos nesses lugares. Mas uma parte significativa das pessoas com as quais eu me relaciono ou já me relacionei são oriundas de encontros fortuitos: gente que eu conheci no Carnaval, na night, em rodas literárias. E essas pessoas trazem também os seus amigos ao meu convívio, o que amplia ainda mais as possibilidades de conhecer pessoas novas e legais. Quando percebo, voilà, fiz amizades a partir do nada.

Esse breve preâmbulo é só para externalizar a importância que eu dou aos encontros. Acredito que os encontros são, sim, obra de um mero acaso (como quase tudo nessa vida). Mas somos nós que decidimos o que fazer com esse acaso. (um pouco mais sobre os encontros, e sobre um deles que foi especialmente importante para mim, pode ser visto aqui).

Pois bem, vamos à história. Hoje, ao sair do trabalho após uma liberação antecipada em virtude do feriado da semana santa, decidi aproveitar um pouco desse tempo. Fiz uma massagem ayurvédica, viadagem com a qual muito raramente me presenteio, e depois decidi tomar um café.

Escolhi o Moinho Café, em Botafogo. Este café foi escolhido porque era especialmente perto, e e especialmente acolhedor. No primeiro quarteirão da Rua São Clemente, um letreiro com giz em frente a uma pequena porta de vidro estreita esconde um café de alma europeia: calmo, sóbrio, silencioso, com nível adequado de iluminação e música agradável em volume baixo. Somando-se isso tudo ao bom serviço e à cortesia dos atendentes, tem-se a impressão de que se paga um preço justo por qualquer coisa que se consuma por lá.

Sentei em uma mesa grande, sozinho, e fiz o pedido: um cappuccino e um augusto bolo de tâmaras.

Ao meu lado, estava sentado um casal que parecia não ter chegado muito antes de mim. Ela, branca, alta, os cabelos encaracolados tingidos de um vermelho intenso. Usava calça jeans com lavagem clara e uma camisa branca estampada, dessas que ficam razoavelmente folgadas na parte de baixo logo após o busto. Era bonita e jovem. Estimo 24 anos, mas aceitaria uma idade entre 20 e 27. Ele, baixo, ligeiramente nerd mas não muito, camiseta preta que parecia ser de alguma banda de rock mas não era; enfim, ele, personagem menos importante da história, ali apenas como contraponto à moça, para que ela tivesse com quem dialogar e o enredo pudesse vir à tona. Não eram casados; pareciam, antes, um casal de amigos de há muito.

Falavam sobre escrita. Ela morria de medo de ser rejeitada. Achava que todos os seus textos eram muito ruins. Ele argumentava que não, que ela escrevia muito bem, que era muito talentosa. Ela contra-argumentava dizendo que só os seus amigos (esse rapaz e mais um outro) haviam lido os textos dela, e que eles só achavam os textos bons por causa da amizade.

Pude notar rapidamente que ela tinha a autoestima muito baixa. Era muito pouco autoconfiante. Achava que não seria publicada e que, se fosse, não seria lida. E repetia a todo momento que seus textos eram muito ruins.

"Por que você os acha tão ruins?"
"Eu sei que são ruins."
"Mas qual o motivo que você tem para achar que seus textos são ruins."
"Eu apenas sei. É como perguntar para alguém que não gosta de camarão porque essa pessoa não gosta de camarão. Não existe uma razão, ela apenas sabe."
"Você tem uma falta de autoconiança muito destruidora."
"Pode ser. Na verdade, eu acho que eu escrevo como o Verissimo. São coisas curtas, mas eu acho que eu estou reinventando a roda, escrevendo o que já foi escrito."
"E daí? Nada se cria, tudo se copia. Você acha tudo que você escreve é ruim?"
"Acho que sim, a maior parte."
"Acho que falta para você uma prática do fazer. Você não se dedica a escrever. Você começa a escrever, acha ruim e pára. Só quando você começar a escrever mais, você vai se dar conta de que tem muita coisa boa e de que você vai melhorando aos poucos. Está faltando prática."
"Nem te falei, mas sobre isso aí, teve uma sessão de análise em que o meu analista perguntou assim: 'Se você se considera assim tão desprezível, porque valoriza tanto a própria opinião?'"
"É, eu acho que ele tem alguma razão, sim. 
"Cara, eu vou levar essa nossa conversa pro meu analista hoje."

Esse era o teor da conversa, com pequenas adaptações porque a memória não é de ferro. Mas além do teor da conversa, havia uma outra coisa relevante: a forma da conversa. Eles conversavam alternando entre o inglês e o português. E trocavam de idioma no meio da frase, às vezes. Achei aquilo simplesmente magnífico. Tão magnífico que eu até inventei uma memória de já ter esbarrado com eles uma outra vez (e pode até ter mesmo acontecido).

A minha vontade foi a de desempenhar o papel do estranho que se propõe a ser amigo: dizer que ela deveria, sim, continuar escrevendo; dizer que a escrita requer prática, e que ela não deve se exigir tanto; confortá-la, de alguma forma.

Meu ímpeto foi o de me chegar à mesa dos dois, pedir licença, dizer que ouvi a conversa deles durante todo esse tempo e me oferecer voluntariamente para ler os textos dela; dar a ela o meu e-mail e dizer-lhe para que me escrevesse e que eu tinha, sim, interesse; que se ela queria uma leitura anônima, isenta, de alguém que não a conhecesse, isso era exatamente o que eu tinha a oferecer; que ela poderia frequentar o Clube da Leitura junto comigo e que isso poderia dar a ela a real noção do quão boa ou ruim ela era em termos de escrita.

A partir daí, imagino que ela agradeceria e anotaria o meu e-mail. Talvez me enviasse alguns dos seus textos, talvez não. Certamente, na noite de hoje, ela teria uma sessão de análise com mais elementos para discussão. A longo prazo, pode ser que nos tornássemos grandes amigos, ou que eu me tornasse amigo do irmão dela; pode ser que eu fosse o padrinho do seu casamento daqui a oito anos, com o mesmo rapaz que a ouvia pacientemente ali, naquela hora.

Pedimos a conta simultaneamente. O garçom trouxe a máquina de cartão para ambas as mesas. Pagamos. Levantamo-nos juntos, os três. Chegamos à porta. Saí, primeiro. Imagino que eles tenham vindo logo após, mas não conferi. Muita coisa poderia ter sido após esse encontro, mas como não houve encontro, nada foi.

Travei absolutamente. Na verdade, ensaiei minha abordagem ao casal durante quase todo o tempo em que estive no café. O bolo e o cappuccino foram consumidos, inclusive, com certa ansiedade. Mas fui embora, travestido de anônimo dos ouvidos moucos.

Alguns motivos pesaram para que o desencontro não se transformasse num encontro. A leitura recém-completa de Dias Perfeitos, do amigo Raphael Montes, me deu um certo medo de entrar em contato com anônimos. A personagem principal do livro, Clarice, acaba por se envolver em uma série de enrascadas após dar trela a um desconhecido em um churrasco, que acaba por se revelar um psicopata de marca maior.

Outro motivo, mais concreto, é de que eu não estou com tanta disponibilidade interna, a ponto de abrir espaço na minha vida para uma desconhecida que, de antemão, sei que é neurótica à beça e tem sérios problemas de autoestima.

Mas o terceiro motivo, o mais concreto de todos, é que realmente foi a pá de cal para que eu desistisse de vez de estabelecer qualquer contato. Permiti-me fazer a mim mesmo a seguinte pergunta: "Ora, e se os textos dela fossem realmete ruins?" Era uma possibilidade. Haveria, mesmo, uma possibilidade de que os amigos só estivessem ali para confortá-la e que ela, de fato, fosse uma péssima escritora.

Agora imaginem a situação. Chego para ela e me ofereço como leitor voluntário; constato que os textos são uma merda. Eu a confortaria com mentiras, fazendo coro com a desonestidade do restante dos seus amigos? Ou eu diria a verdade na cara dela? "Olha, de fato, seus textos são mesmo muito ruins. Você já pensou em trabalhar como cantora? De repente, você poderia fazer arquitetura, administração, veterinária, sei lá, vender artesanato na praia; mas como escritora, acho mesmo que você não tem nem técnica nem talento." Nesse caso, a menina que já é problemática poderia ter o destino da sua saúde psíquica alterada por mim, o anônimo. E se ela entrasse em uma crise de depressão profunda? E se ela se matasse? A culpa seria minha, afinal, por ter entrado na vida dela de forma tão pouco clara e tão pouco cuidadosa com seus sentimentos?

A verdade é que fui criando tantos senões, tantas possibilidades nessa rede de tramas confusas a respeito do futuro, que não consegui fazer o que sempre fiz: permitir-me aos encontros. Isso reflete em mim, evidentemente, uma certa maturidade e uma busca de maior solidez nas relações. Isso tudo se mistura a um certo grau de aversão ao risco que começa a surgir, agora que cheguei nos 27 e os vinte-e-poucos vão ficando para trás.

Esse discurso etário e de aversão ao risco, se vocês sacaram, é um disfarce, um eufemismo para dizer que o tamanho da neurose só aumenta com o tempo. Fiquei algumas linhas julgando aqui a menina, coitada, mas a verdade é que não sei dizer se, de fato, sou menos neurótico do que ela.

Torço pela moça, no final das contas. Torço para que se permita, para que escreva mais, para que empenhe mais esforços em resolver as suas questões internas. A conversa dela, completamente alheia às possibilidades do entreouvido, abre caminhos a outras sessões de análise, conversas de bar, julgamentos e identificações. E também a uma crônica, quem diria, mais ou menos como as do Verissimo.



[esse texto foi escrito no dia 17 de abril; a postagem foi feita no dia seguinte, sexta-feira santa, por razões de conveniência ao autor]