quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O que aprendi (ou não) lendo um livro acadêmico sobre sadomasoquismo


Acabo de ler ‘A perversão domesticada – BDSM e consentimento sexual’, de Bruno Zilli (Ed. Papéis Selvagens, 2018). Este livro foi escrito por Bruno a partir da sua dissertação em Saúde Coletiva, realizada no Instituto de Medicina Sexual (IMS) da Uerj. Na verdade, trata-se do próprio trabalho acadêmico defendido em 2007, publicado no formato livro em 2018, quase sem alterações.

Bruno é antropólogo, mas seu trabalho de mestrado foi realizado na Saúde Coletiva (ao que consta, o autor torna ao campo das Ciências Sociais no seu programa de doutorado). Para quem não sabe, a sigla BDSM significa Bondage (amarração e técnicas de imobilização), Disciplina e SadoMasoquismo. Isto posto, vamos à discussão do texto.

Basicamente, como a quase totalidade dos trabalhos acadêmicos de mestrado, a estrutura é dividida em revisão de literatura, metodologia, estudo de caso / coleta de dados, e conclusão. Em vez de optar por uma leitura diagonal, focada basicamente em olhar a introdução e a conclusão, me dispus a ler o texto de maneira integral.

A revisão de literatura, que costuma ser a parte mais maçante das dissertações, está um primor. Bruno discute a evolução do BDSM através de um prisma histórico. O sadomasoquismo e outras práticas tidas como ‘perversões sexuais’ ao longo da história, como a homossexualidade, são discutidas no seu enquadramento como transtorno. Descritas como ‘parafilias’ no contexto do surgimento da psicanálise no início do século XX, em pouco tempo estas práticas passam a ser descritas como ‘transtornos parafílicos’ no contexto da psiquiatria e das descrições de doenças contidas nos Manuais DSM (Diagnostic and Statistic Manual, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria), que, atualizados em média a cada década, são um dos principais instrumentos que vêm sendo utilizados para se caracterizar determinado comportamento como doença ou transtorno mental.

Esta revisão de literatura aborda a evolução do DSM, desde sua primeira edição (DSM I), até a sua quinta edição (DSM 5). É apresentada uma discussão muito articulada sobre a gênese desses manuais, de como ele nasce tendo por base a psicanálise e, como ao longo do tempo, a psiquiatria se desvincula do campo epistemológico de Freud (com suas explicações psicologizantes), aproximando-se de uma abordagem médica, técnica, biológica e mais ‘científica’ (com suas soluções farmacológicas). Explica também como a psiquiatria, através do DSM, pensa as parafilias e os transtornos parafílicos à luz dos novos movimentos civis dos anos 1960, especialmente os da afirmação da homossexualidade através de uma óptica de grupo/cultura, reivindicando para si a negação de seu enquadramento como doença/transtorno.

É uma discussão riquíssima e muito bem conduzida (eu, que não sou da área, percebo que aprendi bastante).

Sinto, contudo, que a dissertação deveria ter sido circunscrita a esta bela elucidação, bem feita, articulada, que ensina ao mesmo tempo que engendra novas discussões e pensamentos a quem a lê.

As partes posteriores do trabalho são conduzidas num nível de detalhe e de riqueza de discussão muito menores do que os encontrados na revisão de literatura. Em primeiro lugar, os dados são todos coletados na internet. Embora o próprio autor sinalize que essa tenha sido uma crítica que surgiu algumas vezes ao longo do trabalho, e apesar mesmo dos argumentos utilizados pelo autor para justificar a pesquisa nesse formato, os dados encontrados na internet não são muito interessantes.

Bruno vasculha algumas listas de discussão e sites sobre BDSM, em busca de alguma espécie de referencial normativo para o conjunto destas práticas. Naturalmente, ele encontra com facilidade essas informações. Esses ‘guias para as práticas de BDSM’ são uma certa maneira de homogeneizar o discurso e as práticas BDSM em direção a uma certa normatividade, que justifique a prática como ‘normal’ (e, portanto, não patológica) a partir da categoria do consentimento.

Sinto que essa abordagem, entretanto, ficou meio circular. Ao procurar por um conjunto de normas, é de se esperar que se encontre algo normativo.

O autor se identifica como alguém que não é da comunidade BDSM. Certamente, existe aí uma lacuna de conhecimento do objeto a ser estudado (conjunto de práticas BDSM), que poderia ter sido preenchida por algumas entrevistas. Mas elas não são realizadas. Alguém pode argumentar que isso não faz parte diretamente do escopo do trabalho, mas, especialmente se considerarmos que o autor é antropólogo, faltou uma etnografia mínima. Não é evidenciada no trabalho nenhuma percepção sobre o senso de pertencimento à comunidade BDSM por seus praticantes, sequer uma descrição das práticas. O leitor fica, portanto, apenas com uma conceituação teórica, vaga, sobre o que poderiam ser estas práticas BDSM.

É claro que esta percepção nesta resenha/análise que ora construo é posterior às leituras de trabalhos como ‘Festas de orgias para homens’, de Victor Hugo de Souza Barrreto, e de ‘Manifesto contrassexual’, de Paul B. Preciado, autores que, de certa maneira, habitam em alguma medida o universo que estudam, fazendo uma ponte entre a vida acadêmica e a vida real.

A impressão é a de que Bruno Zilli não mergulha no seu universo de pesquisa, trazendo ao leitor uma visão ‘limpinha’ demais do que se propõe a pesquisar.

Por último, a categoria do consentimento sexual, que está no título, não foi adequadamente problematizada. Há alguma discussão (pouca) do BDSM como jogo/cena, em oposição ao que seria o BDSM real, isto é, aquele no qual o não-consentir entraria como um elemento real da erotização dos corpos.

Mas sinto que faltou uma discussão um pouco mais contemporânea. Frases como o ‘Não é não.’ e ‘Depois do não, tudo é assédio.’, reivindicadas como verdades pela maior parte dos feminismos, podem ser deslocadas em um contexto no qual os jogos eróticos têm no consentimento sexual (real ou encenado) um de seus principais elementos. Que articulações podem ser feitas a partir do avanço dos feminismos no século XXI, que reivindica essas verdades, e das lutas de uma comunidade BDSM que coloca a categoria do consentimento na centralidade mesma de seus jogos eróticos?

É claro que se trata de uma dissertação de mestrado (e não de uma tese), que foi defendida num programa de Saúde Coletiva (e não de antropologia), escrita há quase dez anos (e não hoje). Dou todos os descontos. Mesmo considerando também que o mundo acadêmico talvez não estivesse tão permissivo a voos mais ousados à época, não posso me furtar à constatação de que esta leitura me deixou um pouco frustrado.

O livro chegou às minhas mãos e me despertou interesse pelo título. Dessa forma, tudo o que eu esperava encontrar era uma discussão contemporânea de qualidade sobre as práticas BDSM e o consentimento sexual, possivelmente à luz de alguns estudos de gênero. Não encontrei, fiquei frustrado.

Por outro lado, encontrei uma valiosa e bem-articulada discussão sobre os caminhos discursivos da psicanálise e da psiquiatria ao longo de todo o século XX, perscrutando o movimento das parafilias (ou ‘perversões sexuais’) do patológico em direção à normalidade. Fiquei surpreso.

É isso. Frustração, surpresa: o livro de Bruno Zilli está aí para mostrar que as coisas não são uma coisa só. Mirei no que vi, acertei no que não vi. Quem nunca?

domingo, 22 de julho de 2018

Meu circo




Fui no último final de semana à festa Vaca Profana, no Circo Crescer e Viver. Ele fica na Praça Onze, em frente à estação de metrô. Tão logo cheguei e adentrei o espaço, tive um sensação de familiaridade e espanto. Aquele era o ‘meu circo’. O lugar em que até os quatro anos de idade frequentei com alguma regularidade, e cujas lembranças estavam guardadas em algum lugar bem profundo, quase mofadas. Mas morei no Centro da cidade, no Bairro de Fátima, e frequentava muito aquele lugar.

Sim, mudaram a lona, a estrutura da arquibancada, o entorno; quase nada havia ali que lembrasse o antigo circo. Talvez nem eu mesmo me lembrasse ao certo. Havia, contudo, alguma coisa naquele lugar que remetia à criança que fui, à minha infância, aos quatro anos de idade em que eu já me percebia um pouco desencontrado no mundo, gauche na vida.

Toda essa memória foi puxada por um evento de que também não me lembro muito, mas que minha mãe sempre conta. Eu tinha quatro anos, ela estava fazendo aniversário e grávida da minha irmã, com oito meses. Em algum momento da festa eu insistia para que alguém me levasse ao ‘meu circo’. Tanto pedi e tanto perturbei as pessoas que, em dado momento, minha madrinha disse ‘Ai garoto, vai sozinho então.’  Sem entender as ironias de gente grande, acatei a solução. Sorrateiramente, desci as escadas, cruzei a portaria do prédio, dei um bom dia ao porteiro e segui, sabendo bem para onde ia, em direção ao circo.

Minha mãe conta que em algum momento notou que eu não estava mais na festa, e ao conversar com minha madrinha, percebeu que eu podia ter saído de casa. Desceu as escadas do prédio, grávida e assustada e, ao perguntar para o porteiro sobre o meu paradeiro, foi informada de que eu havia passado pela portaria do prédio e saído à rua. Tomou a direção do circo e finalmente me encontrou, dois quarteirões depois. Fiquei um pouco surpreso com o susto da minha mãe, apenas tinha acatado uma sugestão e feito o que achei que deveria: ir ao circo, sozinho, sem esperar por alguém que pudesse me levar.

Quase trinta anos se passaram e, no meio da madrugada do último final de semana, sob a lona do circo da praça onze (outro e o mesmo), fui tomado por essa lembrança e assaltado por uma perturbadora indagação. Se algo ainda em mim permanece o menino de quatro anos que decide ir ao circo por conta própria, onde foi parar essa segurança? Que fiz eu desta audácia?

Perturbado um pouco por esses questionamentos e por essas lembranças, e sóbrio demais para curtir uma festa cuja música não empolgava, fui embora para casa cedo, antes das duas da manhã. Pensei em escrever, mas logo dormi: só consegui fazê-lo alguns dias depois, reconstruindo com esmero esse passado algo esgarçado, que encontrou seus próprios meios de se impor e de dizer.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Rei da Vela


Acabo de voltar da última sessão da peça ‘O rei da Vela’, dirigida por José Celso Martinez e encenada na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca.

Em primeiro lugar, devo dizer que, para quem não está no eixo Zona Oeste, a Cidade das Artes é um local cuja viagem vale a pena. O lugar é lindo, a arquitetura é monumental e agradável, a acústica da sala de teatro é irretorquível (havia um evento de cerveja artesanal no vão livre do espaço, imperceptível para quem se mantinha dentro da sala). Não bastasse isso, fui em ótima companhia.

Foi minha primeira experiência com o teatro de José Celso Martinez, esse monstro sagrado do teatro brasileiro. Mesmo velhinho, ele nos brindou com sua presença atuando no palco, e também com um ótimo discurso ao final do espetáculo (que, como já dito, coincidiu com o encerramento da turnê carioca).

O texto, escrito por Oswald de Andrade, é modernista e antropofágico. A direção contribuiu para deixá-lo ainda mais doido.

Nas quatro horas de peça, com dois intervalos, foi contada a história do anti-herói, o rei da vela. Espécie de messias do atraso, o rei da vela é alguém que ganha tão mais quanto o povo perde. Ele tem a face do capitalista, do moralista, do lobista, do despachante.

A caracterização dos personagens foi adaptada para dar uma contemporaneidade às cenas, de maneira que aparecem vários elementos/arquétipos com atuação na política dos dias de hoje: o militar bronco e odioso, o gringo estadunidense, o oprimido, o índio, o feitor.

Há vários méritos na peça, e não é à toa que ela vem sendo um sucesso de público e de crítica. Escrachando a vida política brasileira, Zé Celso realiza uma montagem que encontra forte ressonância no público.

E é aí, a meu ver, que a peça perde. Resvalando muitas vezes para alguns clichês dos quais o público se sente parte, tudo acaba por cair num jogo fácil de dar a isca certeira aos que têm fome de política.
Quando digo fácil, quero dizer que o público que foi à peça, uma burguesia carioca intelectualizada de classe média identificada com os ideais da esquerda, aplaude sem sobressaltos um elenco que incita diretamente na plateia gritos de ‘Lula livre’, ‘Marielle presente’, etc...

Ao mostrar o discurso do capitalismo de maneira rasgada, apesar das nuances e camadas criadas pela direção, o espetáculo resvala no panfleto e no maniqueísmo.

Nesse sentido, minha principal crítica é ‘ter gostado demais’ da peça. Sinto que fui contemplado demais politicamente, que a peça disse o que eu gostaria de ouvir e/ou o que já tenho de antemão. Só que eu vou ao teatro para ser incomodado. E senti falta, sinceramente, de um conflito instaurado, de que minhas opiniões titubeassem, de que houvesse mais dúvida e menos grito de guerra.

Jogando contra o maniqueísmo maior, um dos elementos que colabora para esse ponto de vista mais dúbio é a personagem Heloísa, uma lésbica futurista que é oprimida por gênero e orientação sexual, mas opressora por riqueza material.

Outro ponto alto da peça é a introdução, no primeiro ato, da música ‘Envolvimento’, uma composição de MC Loma e as Gêmeas Lacração. Num rompante, quando um dos personagens fala sobre a tradição no Brasil, começa a tocar ‘Sento, sento, sento, sento, sento e quico devagar. Vou quicar e rebolar, vou quicar e rebolar.’

O funk de MC Loma e as Gêmeas Lacração é uma das mais novas expressões do kitsch brasileiro. E, diferente de todo discurso empolado sobre o capitalismo, a burguesia, os bolcheviques, e também diferente de toda sátira política dos dias atuais com os nomes dos políticos levemente alterados, ‘Envolvimento’ não teve o aplauso do público.

O funk, naquele teatro de intelectuais, foi uma das poucas coisas que parece ter criado algum incômodo na plateia, ainda que leve.

O incômodo contra o uníssono.

Mc Loma e as Gêmeas Lacração, na minha opinião, é o mais verdadeiro desbunde, a mais violenta das afrontas apresentadas por ‘O rei da vela’ (não ao establishment político, mas à plateia). É ali que está o teatro de Zé Celso.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Inteligência, resistência e bom-humor



Foi por um mero acaso que esbarrei com o livro de Victor Hugo de Souza Barreto, ‘Vamos fazer uma sacanagem gostosa? – uma etnografia da prostituição masculina carioca’, lançado há alguns meses pela Editora Universitária da UFF, a Eduff.

Uma pequena nota de jornal (talvez no Ancelmo Gois, já não me lembro) indicava o lançamento do livro, na Livraria Travessa de Botafogo. Como moro relativamente perto, o horário era conveniente e o tema me chamou a atenção, decidi ir. Victor Hugo ficou um pouco surpreso com a minha presença, uma vez que não nos conhecíamos (e ainda não nos conhecemos). Como já lancei livros, suponho como ele tenha se sentido. Esperamos ver os amigos e os mais chegados, de forma que topar com um anônimo interessado em nosso texto é algo que nos deixa meio surpresos, quase assustados. Ele me escreveu uma dedicatória algo genérica, mas carinhosa, e me indagou quem eu era, o que fazia ali. Não consegui dizer outra coisa além da minha formação em engenharia de produção, mas me coloquei como alguém interessado ‘no assunto’ (de forma que, para ele, eu poderia ser um estudante, um garoto de programa, alguém que pensa em abrir uma sauna, etc)

Cheguei em casa com o livro, fininho. Descobri que o mesmo era fruto de uma dissertação de mestrado defendida na UFF, universidade pela qual tenho imensa gratidão (‘carinho’ ou ‘amor’, além de soar piegas, seria falso). Victor Hugo é mestre em antropologia pela UFF, onde atualmente cursa seu doutorado.

O livro é um bálsamo. Ao folhear as primeiras páginas e verificar o modo como estavam estruturados o texto, as referências, o estilo, fiquei feliz. Victor Hugo escreve bem, e o melhor de tudo, escreve para ser lido, o que deve ser encarado de maneira muito positiva, em especial em textos acadêmicos.

É claro que houve um trabalho adpatativo da dissertação ao livro. Mas mesmo em trabalhos acadêmicos publicados sob a forma de livro, é raro ver uma prosa tão fluida, tão cuidadosa com o leitor. O desafio da escrita técnica (seja uma tese de mestrado ou um livro de ensaios), no meu ponto de vista, é o de escrever de maneira equilibrada, sem cansar o leitor com tautologias e excessos, mas, ao mesmo tempo, sem tutorá-lo, sem infantilizá-lo. Victor Hugo acerta o tom.

O trabalho de Victor Hugo é dividido em cinco capítulos. O primeiro, introdutório, apresenta os eixos teóricos aos quais o trabalho se vincula. Curiosamente, é um capítulo leve, e mostra como a discussão proposta se articula com as problemáticas de gênero e com as questões relativas ao corpo e à subjetividade abordadas na filosofia desconstrutivista francesa dos anos 1970 (Foucault, Deleuze & Guatari [eu senti falta do Derrida]). Os capítulos posteriores se ocupam da sauna, dos boys (garotos de programa) e do programa em si. O último capítulo, interessantíssimo, vai discutir os limites éticos da pesquisa e o papel do pesquisador antropólogo frente aos seus ‘objetos’ de pesquisa (leia-se ‘objetos’ com muitas aspas).

O trabalho é inteligente porque constrói de maneira efetiva um conhecimento novo sobre a prática da prostituição no Rio de Janeiro, em especial as que ocorrem nas saunas. Com a leitura, passei a entender a maleabilidade discursiva na prostituição masculina, a relação estreita das saunas com as delegacias de polícia, as motivações, os desejos e os atravessamentos corpóreos dos garotos de programa, e mais do que tudo, a viscosidade das informações relativas a esse mundo. Victor Hugo se movimenta numa espécie de areia movediça, em que todas as informações são fluidas, se desencontram: viscosas, é como tudo aquilo que pretendesse assimilar como informação, como dado, se lhe escorresse pelos dedos.

Por isso, mais do que apresentar as informações, o autor se dedica a explicitar os limites delas, as contingências, as dificuldades em montar um panorama que se aproxime da verdade, do factual, quando tudo o que parece haver é apenas uma produção discursiva errática.

O aspecto da resistência deve ser enfatizado nesse trabalho. Particularmente, tenho implicado com o termo ‘resistência’. Acho que ele dá uma ideia de passividade, de ir se permitindo uma corrosão lenta, de reduzir o ritmo da sangria. O aspecto que quero enfatizar é outro. No mundo turbulento em que vivemos, em especial no que diz respeito à revanche conservadora que assola o país, o trabalho de Victor Hugo é o que se pode chamar de uma resistência ativa, porque nele está contida a produção de alguma coisa. Mais do que resistir, é preciso produzir, inventar. Esse trabalho, e sua publicação na forma de livro, é uma produção intelectual ativa: incomoda os reacionários, afronta o conservadorismo, se coloca politicamente de maneira marcada.

Nisso, gostaria de ressaltar o papel da Universidade, em especial o da UFF. Se Victor Hugo pôde fazer esse trabalho, é porque a Universidade lhe concedeu alguma liberdade na escolha do tema e na maneira de tratar o assunto. Certamente, seus professores o guiaram de maneira adequada na escolha dos referenciais metodológicos, mas a liberdade apresentada no texto (sem abrir mão do rigor técnico) parece refletir a proposta de uma universidade também livre.

Pode ser apenas um viés, ms tenho a impressão de que a UFF, em particular, se coloca num lugar de vanguarda nas cências humanas. Além deste, outros dois trabalhos sérios como o Museu de Memes e a dissertação de Mariana Gomes, “Minha pussy é o poder”, sobre a Valesca Popozuda, parecem apontar para o fato de que a UFF, talvez mais do que outras, está com suas antenas dirigidas à contemporaneidade. Esses trabalhos (tendo o de Victor Hugo, inclusive, sido publicado pela editora universitária) mostram uma Universidade viva, que entende e produz conhecimento sobre o que está acontecendo hoje, agora, nas diversas articulações do real.

Por último, vale a pena destacar o bom-humor. Entenda-se por bom-humor um certo misto de leveza e irreverência. Podemos começar pelo título. Mais do que seu papel de enunciar o conteúdo das páginas do interior do livro, a abordagem provocativa do título é também uma performance. Não é apenas um enunciado que descreve, mas um enunciado que faz, promove uma mudança no mundo (Jacques Derrida apresenta uma discussão interessante sobre os discursos, no seu livro ‘A farmácia de Platão’. De acordo com ele, os discursos podem descrever [algo, alguma coisa, alguém] ou agir sobre o mundo, performar; a palavra que descreve versus a palavra que faz.) A performance do título se evidencia no desdobramento do convite. Foi por causa dele (do título, do convite) que comprei o livro.

Depois, os inúmeros ‘causos’ que o pesquisador conta tendo observado as saunas vão se mostrando uma ferramenta interessante para montar o panorama pretendido. Anedóticos e muito divertidos, as histórias contadas quebram a monotonia das descrições dos espaços e das pessoas, bem como das necessárias articulações teóricas. Se toda escrita é, em si mesma, algo mortificada (em relação à vida real), as histórias contribuem para dotar o texto de uma vivacidade maior.

Destaco o seguinte trecho: “Durante o tempo de pesquisa ali, por exemplo, acompanhei um fato curioso. Um dos clientes, já octogenário, passou mal durante um programa com um dos boys. Ainda que um outro cliente, que era médico e que estava presente na casa naquele momento, tenha tentado reanimá-lo, ele veio a falecer. Toda a ação seguinte com a polícia foi feita rápida e discretamente, sem maiores prejuízos ou aborrecimento para os negócios da sauna.”

Sem dúvida, essa história contribui muito mais para entender as relações das saunas com as delegacias de polícia do que uma descrição, ainda que detalhada, de como elas ocorrem.

Para finalizar, devo dizer que Victor Hugo apresenta uma prosa inteligente, leve, bem articulada e bem posicionada politicamente. Definitivamente, uma obra cuja leitura vale a pena!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A revolta da camareira


No dia 04/10/2017, o jornal O Globo trazia uma reportagem que se intitulava ‘A revolta da camareira’. A matéria de página inteira era ilustrada por uma moça parda e sorridente que embalava nas mãos seu bebê de cerca de um mês de idade, e trazia o seguinte texto.

"Katielly Verônica da Silva está virando o Rio de Janeiro de pernas para o ar. A moça, nascida na comunidade do Borel, tem 25 anos recém-completos e foi camareira de motel pelos últimos três anos. Tendo começado no Hotel Rosa da Vila, no bairro do Sampaio, logo arrumou emprego no badalado Hotel VIPs, na Av. Niemeyer. Contudo, sua estada no Vidigal não durou muito tempo. “Era muito bom porque eu encontrava os jogadores de futebol e uns atores de novela também. Eu me sentia uma pessoa importante trabalhando lá, mas fiquei muito longe da minha família.” Por esse motivo, Katielly aceitou uma remuneração menor e uma vida mais distante dos famosos, e trabalhou por quase um ano no Hotel Corinto, na Tijuca. “Quem diria que trabalhando lá eu é que iria ficar famosa?”, provoca a morena. Morando com sua mãe, seu pai e seus dois irmãos na Rua São Miguel, na parte baixa da comunidade onde nasceu, Katielly foi alçada à fama nacional logo após sua demissão. “Eles não me quiseram, né? Aí eu tive que dar meu jeito.”, desabafa Katielly. Segundo a moça, sua demissão foi sem motivos. “Por corte de custos”, eles disseram. Foi nesse dia que Katielly teve a ideia que mudaria sua vida para sempre. “Foi uma coisa que veio assim, na hora. Uma ideia súbita mesmo. Se você me perguntar ‘Ah, mas por que você fez isso?’, eu não sei se eu conseguiria te responder. Acho que eu fiquei com raiva e queria fazer alguma coisa para extravasar. Daí, eu me lembrei que tinha uma amiga que era técnica de laboratório na Fiocruz e pensei: por que não?” Katielly, que não revela o nome da amiga, diz que fez tudo muito rápido. Ligou para ela, explicou a situação, e perguntou se ‘dava pra fazer’. A amiga disse que sim, desde que ela saísse de lá imediatamente e a encontrasse no laboratório. Após a resposta afirmativa da amiga, Katielly se preparou para a ação. Escolheu um quarto aleatório do Hotel Corinto e recolheu o sêmen que se depositava em cima da cama. Guardou o material no potinho vazio em que havia trazido sua marmita e, despedindo-se de todos, pegou um uber até a Fiocruz. “Eu não tinha dinheiro, mas fiquei com medo de não dar tempo se eu fosse de ônibus.”, disse a camareira. Chegando lá, dirigiu-se à sala de trabalho da amiga e perguntou sobre as técnicas de congelamento. Porém, como Katielly estava em seu período fértil, a amiga propôs que fizessem o procedimento imediatamente. “Nem precisou congelar. Ela pegou uma seringa descartável que ela tinha no laboratório, e fomos juntas ao banheiro. Foi lá que ela me introduziu o ‘material’”. Ao chegar em casa, Katielly ligou para a amiga e disse que estava nervosa e um pouco arrependida, mas esta lhe tranquilizou dizendo que era muito pouco provável que aquela loucura desse certo. O tempo, porém, provaria o contrário. Evangélica e sem namorado (e, segundo a própria, sem nenhum parceiro ocasional), Katielly viu sua menstruação cessar e sua barriga começar a crescer. “Eu custei muito a acreditar que aquilo tudo estivesse acontecendo. Mas não tive coragem de contar nem para os meus pais, nem para os meus amigos. Inventei uma história qualquer de um cara que eu conheci numa festa.” Ela guardaria esse segredo durante os nove meses de gestação. A verdade só viria à tona após o nascimento do seu filho, João Victor. “Quando ele nasceu, senti que era a hora de contar.”, disse a camareira. Entretanto, em vez de compartilhar sua intimidade apenas para os mais próximos, Katielly procurou uma emissora de televisão e literalmente se abriu durante um programa vespertino. Além da fama meteórica e do sucesso nas redes sociais, Katielly também ganhou um farto enxoval com roupas, fraldas e produtos cosméticos. Sobre a inescapável pergunta a respeito do pai da criança, a camareira revoltada parece ter uma resposta na ponta da língua: “Eu estou à procura de um grande amor, que me aceite do jeito que eu sou e que se dê bem com o João Victor. Pai é quem cria.” Sobre a última frase, essa parece não ser uma opinião compartilhada pelos homens desesperados que ligam para o Hotel Corinto todos os dias, pedindo cópias de recibos do cartão de crédito do mês de janeiro e exigindo filmagens da entrada dos carros no hotel, no fatídico dia. “A gente teve que colocar uma linha de telefone só pra isso.”, resmunga Irineu Valadão, gerente do hotel. Quanto à amiga de Katielly, a direção da Fiocruz emitiu uma nota na qual informou que “embora não tenha sido autuada judicialmente sobre o caso da autoinseminação artificial da camareira, permanece à disposição da sociedade para prestar os devidos esclarecimentos”."

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Mulheres de Gogó



Lúcia tristinha, um pomo-de-adão mal ajambrado que lhe veio na loteria da genética e que se só se mostrou na adolescência, aos treze anos, aquele caroço grande e intumescente como se fosse um peitinho nascido no lugar errado ou um desses casos de caxumba ou hipertireodismo, mas não: era mesmo o dito-cujo.

Tinha sempre de explicar aos outros que não era travesti, transex, quase-mulher. À época, morria de medo de se pensar como alguém que pudesse estar exposta em desgastados panfletos nos orelhões de Copacabana. Só saberia que o nome desse medo era preconceito muito tempo depois, mas não aos treze.

Tanto faz, tanto faz, sua mãe lhe dizia. Era na mãe que tinha de buscar apoio porque o pai era um senhorzinho bem carrancudo e avesso aos diálogos que tivessem algum grau de profundidade. Não se preocupe minha filha, tanto faz ter ou não ter isso aí que você tem na garganta, quem te ama não vai ligar pra isso, filhinha. E a mãe repetia, acolhedora, os mesmos argumentos repletos de clichês àquela menina jovem que só estava preocupada em ser exatamente como todo mundo, sem idiossincrasias.

Lulu Caroço, como passou a ser conhecida na escola, veio, por fim, a se locupletar dos movimentos sociais que faziam a cabeça e o corpo da garotada. Lulu Caroço teve de fazer a transição do luto à luta e, munida de termos como empoderamento, representatividade, combate à opressão, e outros de igual carga semântica, decidiu que seu papel na vida seria o de representar, junto ao movimento feminista, as mulheres com pomo-de-adão.

Era uma causa nobre. Mas era percebida como pouco séria no rolê. O movimento das mulheres de pinto (que é a forma como se colocavam internamente as travestis e transexuais no movimento) já tinha respaldo interno e endosso acadêmico. O das mulheres barbadas era uma corrente minoritária por entre as feministas mas, uma vez unido ao das mulheres que optavam por não se depilar, essa corrente ia conseguindo trilhar o seu próprio caminho.

O das mulheres-de-pomo-de-adão, então, era uma corrente completamente nova. Havia pouquíssimas mulheres nessa situação. Além de si mesma, Lulu Caroço só havia ouvido falar de uma mulher em Sergipe, duas em Alagoas, uma no Paraná e outra no interior de São Paulo na mesma situação. Tratava-se, literalmente, de meia dúzia de casos.

Instada por Lúcia Silva, sua homônima que atuava como uma das coordenadoras das pautas feministas descentralizadas, democráticas e absolutamente horizontais do Estado do Rio de Janeiro, seção Metropolitana IV, a abandonar a luta em defesa dos direitos das mulheres-de-pomo-de-adão e, pior, a unir-se à corrente das mulheres de pinto, Lulu Caroço disse não. Alegou que as pautas eram completamente diferentes daquelas das mulheres de pinto e, pior, acusou sua xará de querer silenciá-la e diminuir o valor da sua luta. Cadê a sororidade nessas horas?

Mas não era só dentro do movimento que as dificuldades apareciam. Lulu Caroço tinha muita dificuldade em explicar a sua luta para aqueles que estavam alijados das discussões que floresciam no seio dos movimentos. O que, afinal, Lulu Caroço reivindicava para si e suas cinco companheiras de infortúnio?

O primeiro ponto era justamente esse: o de que o pomo-de-adão feminino não fosse tratado como um infortúnio. Seria, antes, uma característica sem viés de positividade ou de negatividade. Lulu queria ser percebida como uma mulher normal.

Por outro lado, Lulu entendia que o pomo-de-adão era também um motivo de orgulho, e que não cabia às mulheres-de-pomo-de-adão o sacrifício de escondê-lo ou mascará-lo. Era um símbolo da sua singularidade e da sua feminilidade, e que dele deveriam ser vangloriar as portadoras.

Outra causa que assumiu foi a da mudança de nome: se o pomo ocorria em homens, mas ocorria também em mulheres, era razoável que não fosse chamado “de adão”. Proporia como uso corrente um nome de uso neutro. Inicialmente, pensou na asséptica alcunha de “proeminência laríngea”, nome científico da referida protuberância. Ao perceber a dificuldade de emplacar algo desse naipe, todavia, optou pela conhecida forma popular: “gogó”.

Foi assim que surgiu o “Mulheres de Gogó”. Formado inicialmente por Lulu Caroço e suas cinco companheiras, o movimento foi ganhando a adesão paulatina das mulheres de pinto. Inicialmente rechaçadas, as travestis e transexuais encamparam a luta de Lulu Caroço que, ao mesmo tempo, percebeu que sem elas seria difícil progredir, tanto nas trincheiras internas quanto na guerra de gêneros sangrenta que se travava lá fora.

À medida que o nome “Mulheres de Gogó” emplacava, foram entrando as lésbicas das mais variadas gradações, das menininhas às caminhoneiras, passando pelas sapatões clássicas. Elas acreditavam que o gogó poderia fazer referência ao timbre da voz, e que ter o timbre mais fino ou mais grosso era uma característica de cada mulher, e que devia ser respeitada.

Por fim, as outras mulheres, que não tinham proeminência laríngea, que não eram nem travestis, nem transexuais e nem lésbicas entenderam que o gogó era algo que deveria estar associado àquelas que têm, sim, o direito de falar, e que devem falar sempre para serem ouvidas e respeitadas, e que podem se expressar, e que jamais se calariam novamente. O gogó era uma arma de todas as mulheres.

“Mulheres de Gogó”, hoje um renomado bloco carioca, sai toda segunda-feira de Carnaval. A rua Viúva Lacerda, no Humaitá, já não dá mais vazão ao fluxo das foliãs, e elas estão em acordo com a Prefeitura para desfilar na própria Rua Humaitá. Depois de enredos clássicos como “Tem caroço nesse angu” e “Gogó boys”, o enredo para o ano que vem será “O caroço que a gente não quer”, sobre o câncer de mama.

Lulu Caroço, com cinquenta anos de idade e trinta e sete de militância, aguarda ansiosa pelo momento em que subirá no carro de som e proporá que as mulheres realizem um auto-exame coletivo das mamas, tudo bem coreografado no meio do bloco, no compasso da axé music.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Macunaíma do século XXI se chama Fátima


Para lá das águas turvas, depois das trilhas que saem do povoado em direção às florestas, dizem que há um grande tesouro. Fátima, que não é boba, foi até lá. Encontrou perigosos perigos, animais peçonhentos e bichos de fábula.
Em lá chegando, Fátima viu um pote dourado, e logo imaginou que deveria ser esse o pote que tanto procurava. Não era. Esse era apenas um pote dourado esquecido por um grupo de adolescentes da semana passada.
Depois, Fátima encontrou um pote muito pequeno, verde, com inscrições em uma língua estranha. Dentro do pote não havia nada. Ela olhou com mais calma e viu que logo abaixo das inscrições estava escrito ‘Made In China’.
Tupã apareceu um pouco depois na floresta, aquela cabeleira de altíssima condutividade elétrica. Fátima perguntou, ‘Oh, Tupã, que rege as águas, quedê o meu tesouro?’
E Tupã, que não era bobo, disse assim para Fátima: ‘Fátima, querida, eu sou Tupã, sou responsável aqui por reger os raios e os trovões. Quem cuida das águas aqui é a Ana, pergunte pra ela.’ ‘E onde posso encontrar Ana, oh Tupã, senhor da sabedoria?’ E Tupã lhe deu o endereço da Agência Nacional de Águas, em Brasília.
Lá chegando, Fátima perguntou pela Ana. Foi atendida por uma moça mulata e magra, chamada Estela. Estela, que não era boba, disse que a Ana não podia atender agora, mas que ela podia mandar os seus questionamentos para o Serviço de Atendimento ao Cidadão, através da Lei de Acesso à Informação.
E Fátima tirou do bolso o seu smartphone, e no teclado touchscreen fez um email-cartinha. ‘Oh, Serviço Todo-Poderoso que atende ao cidadão, fui informada de que é aqui que vocês podem me informar sobre o tesouro que tanto procuro’.
Quarenta e quatro dias depois, Fátima recebeu uma resposta do Isaías, técnico administrativo. Isaías, que não era bobo, foi logo logo tirando o seu da reta e disse assim pra Fátima: “Prezada Fátima, não podemos atender a sua solicitação. Seu protocolo é o 09627278. Quaisquer informações sobre o Tesouro Nacional devem ser tratadas pelo órgão competente, beijinho beijinho tchau tchau”
Aí a Fátima ficou fula da vida porque precisava mesmo do seu tesouro e não sabia que raios seria o órgão competente. Mandou pela antena parabolicamará um chamado em wifi para todos os povos da floresta que queriam saber do órgão competente pra achar o tesouro.
Tesouro vai, tesouro vem, plim-plim chega um e-mail da Gisela, que não era boba, dizendo pra ela “Aqui está o que você sempre quis saber, chega de farsas, clique aqui”. Claro que a Fátima clicou.
Aí o smartphone touchscreen wifi 3G da Fátima, que também não era bobo, tentou que tentou se esquivar dos vírus que a Gisela tinha mandado. E tentu fazer isso abrindo páginas e páginas aleatórias.
Só que deu um erro porque travou em uma página estranha. Dizia blablablá feitiço da ilha do pavão azul jacaratingonga joão ubaldo ribeiro michi-michi-michelê pois quem viu não fala nela e quem ouve falar não menciona a ninguém tching-rong-dan-dan encontro marcado em botafogo na terça-feira 24 para falar do tesouro.
Então que a Fátima, que não era boba, chamou todos os povos da floresta e também mandou um email pelo wifi pra Tupã e pra todos os povos da floresta porque ela decidiu ir. E a Fátima sabia que iam falar do tesouro dela, aí ela se ajeitou, colocou um perfume, decorou três versinhos e saiu de casa com pressa, meio sem saber se agora ela ia finalmente encontrar esse tal tesouro.

[texto escrito para o Clube da Leitura em 24 de março de 2015]