quarta-feira, 3 de abril de 2013

Bicicletas



As pessoas na TV e nos jornais ficam propalando a bicicleta como o supra-sumo (ou já seria o suprassumo?) da modernidade. Para ser moderno, antenado, descolado e formador de opinião, você tem que ter uma bicicleta. E de preferência ir ao trabalho com ela. E de preferência morando e trabalhando na Zona Sul. Esse tipo de gente sai na Revista O Globo de domingo.

À parte o fato de não ser branco o suficiente para sair na revista (nem suficientemente preto para entrar na ‘cota negão’ desse hebdomadário), confesso que tem vezes em que me esforço para ser esse cara moderno, antenado, descolado e formador de opinião. Embora a cada dia também menos jovem, o que se configura como um requisito extra, nos outros aspectos satisfaço os requisitos: tenho uma bike, moro e trabalho na zona sul, fui ao trabalho duas vezes de bicicleta. Faltou também uma profissão moderninha como designer, roteirista ou estilista, mas eu não estou aqui para falar das idiossincrasias desse jornal nosso de cada dia (cuja política eu analiso aqui). Vim para falar das bicicletas.

Existe uma coisa que pouca gente fala: o banho. O banho é um tabu. As pessoas de bike suam. E como elas fazem? Não é todo lugar que tem vestiário. E mesmo que tivesse... Tomar banho fora de casa é sempre bastante desconfortável. Você tem que levar seu aparato-higiene (sabonete, xampu, toalha, desodorante, etc). E também uma roupa nova. Ou seja, você tem que levar um peso a mais do que você levaria. E ainda tem aquele clima de ‘vestiário de academia’ que é sempre detestável.

Sempre existe a opção de não tomar banho também. Inclusive, há locais para os quais se vai que não dispõem de vestiário. Se não tiver, ok. Mas se tiver e você optar por não tomar banho, prepare-se para coçar os ouvidos: todos te chamarão de porquinho pelas costas. Mas tendo ou não tendo vestiário, o ônus do ciclista que opta por não tomar banho é: ter que lidar com o próprio suor.

Ambientalmente correto? Sei. No dia em que pensei em vir de bike, mas optei pelo ônibus, pensei (novamente) no banho. Se eu chegar lá e tiver que tomar um banho, será que minha pegada hídrica compensa?

A verdade é que não somos Amsterdam. E não seremos nunca. Vivemos em um país tropical. Essa lógica de ‘bicicleta por todo lado’ funciona bem para quem sai de casa no Leblon e vai pra PUC ou quem sai da Tonelero para ir à praia. Para grandes distâncias, isso tem que ser melhor pensado.

É lógico que bicicleta é legal para um ou outro, eu mesmo adoro! Mas achar que a bicicleta vai ser a solução para o problema viário das cidades é o mesmo que acreditar que a agricultura orgânica e agroecológica vai ser a solução para a produção e o consumo de alimentos no mundo.

Temos poucas ciclovias. Andar na rua é ainda perigoso. Eu moro no Catete e trabalho na Gávea: é longe. Ter que carregar tralhas como capacetes e equipamentos de segurança, além de novas roupas, quando convier, é outro problema.

Outra coisa que me deixa MUITO PUTO são essas MOTOCICLETAS que andam nas ciclovias. São veículos motorizados que deveriam ser proibidos de andar na ciclovia. A tal da bicicleta elétrica e suas variações: lambretas, patinetes e não-sei-mais-o-quê. Sinto-me aviltado quando esses monstros andam em uma faixa que explicitamente é para veículos não-motorizados. Sem contar que também ainda estou pra ver qual é a vantagem: você não pedala (e portanto, não sua). Ok, chega limpinho no trabalho, mas o benefício da bike não é justamente o de se exercitar enquanto se locomove? E essas porcarias NÃO SÃO AMBIENTALMENTE CORRETAS. As baterias carregáveis dessas bicicletas contém metais muito pesados, cuja produção, manutenção e descarte são extremamente nocivos ao ambiente.

Além disso, nossos bicicletários também não são seguros. Sei lá. Deixei minha bike dormir na rua de ontem pra hoje, no bicicletário da FGV, na rua Barão de Itambi. Cara, levaram meu banco e ainda tem uma estaca de madeira presa na minha tranca, sinal de que tentaram tirar minha bike da tranca e levar minha bicicleta. A gente perde a fé na humanidade, sabe. Eu acredito tanto nos homens. Sério, mais do que raiva, eu sinto um profundo desgosto às vezes de acreditar que tem uma galera que faz isso na maior.

Sem falar nas faixas compartilhadas, que poderiam ser uma coisa ótima se as pessoas fossem menos ignorantes. Transformaram esse pedaço da Pacheco Leão até o Baixo Gávea (o paredão do Jardim Botânico) em uma ‘faixa compartilhada’. Como tem muito poucos pedestres nessa calçada (dentre os quais, me incluo), as pessoas passam de bicicleta achando que isso é uma pista expressa. E são grossas, rudes, acham que o erro seu de estar andando na calçada.

Sei lá. Talvez eu repensasse uma série de coisas que estou dizendo aqui. Mas a verdade é que esse lance de roubarem meu selim me deixou meio azedo. E acabei fazendo esse post na contramão.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Por que o CEFET/RJ não vira UNIRIO?




Em primeiro lugar, quero deixar claro que este é meu blog pessoal, portanto, dentro do que se pode esperar em termos de indissociabilidade, essas opiniões não são do Igor professor do CEFET/RJ, e sim do Igor ex-estudante e que tem um carinho grande pela instituição. Essa é uma visão pessoal, portanto; jamais institucional.

Pois bem: para quem não acompanha essa novela há muito tempo, a história é a seguinte: o CEFET/RJ pleiteia há pelos menos dez anos a sua transformação em UTFRJ, Universidade Tecnológica Federal do Rio de Janeiro. No governo Lula, o modelo CEFET foi deixado de lado em detrimento do modelo IFET, Institutos Federais de Educação Tecnológica, que prioriza cursos técnicos e licenciaturas. Todos os CEFETs do Brasil viraram IFETs, exceto três: os do Rio de Janeiro, do Paraná e de Minas Gerais. O CEFET do Paraná virou UTFPR, modelo hoje perseguido pelos CEFETs do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, que continuam sendo CEFETs, os únicos do Brasil.

Nesses CEFETs, a graduação é destaque, de forma que se torna inviável adotar um modelo que priorize licenciaturas e cursos técnicos. Em especial no caso do Rio de Janeiro, a graduação se fortaleceu muito nos últimos quinze anos, com a criação de vários cursos de engenharia, além de programas de pós-graduação. Vale lembrar que os egressos desses cursos de engenharia no Rio não têm dificuldade de se estabelecerem no mercado e a qualidade dos mesmos é facilmente percebida por quem os contrata.

Mas por que o CEFET quer tanto virar Universidade Tecnológica? Em primeiro lugar, o impacto psicológico: quem é do CEFET/RJ sabe que tem um peso enorme estudar em um lugar que comece com U. É sério. Em segundo lugar, a questão da autonomia universitária, da contratação de professores, da criação de novos cursos e da ampliação geográfica da atuação universitária, tudo isso fica cada vez mais difícil à medida que o CEFET/RJ continua operando em um modelo antigo, no qual não se recebem nem os benefícios relativos ás Universidades, tampouco aqueles relativos aos IFETs. Vive-se um estrangulamento político que faz com que se torne muito difícil que os CEFETs do Rio de Janeiro e de Minas Gerais continuem sua trajetória de excelência em ensino, pesquisa e extensão, e isso não é segredo para ninguém.

A solução, óbvia, é transformar o CEFET/RJ em UTFRJ. Simples, não? Não! O MEC tem deixado claro que não quer esse caminho para o CEFET/RJ nem para o CEFET/MG. É lógico que a luta tem que continuar e tem que haver pressão em cima desta alternativa, por parte dos alunos e dos professores.

Mas é preciso olhar a questão com um pouco mais de calma, de forma a tentar entendê-la e pensar em soluções alternativas (é isso que nós, engenheiros, estamos acostumados a fazer). Em primeiro lugar: por que, afinal, o MEC não quer transformar os CEFETs em Universidades? Vamos olhar para os estados. Minas Gerais e Rio de Janeiro  são os estados com a maior quantidade de universidades federais do Brasil. O estado de Minas Gerais tem, acreditem, 11 universidades federais. Além das mais conhecidas como UFMG e UFJF, existem também algumas menos conhecidas como a UNIFAL (Alfenas), UFLA (Lavras), UFU (Uberlândia), etc... No Rio de Janeiro, somos um estado de proporções mínimas e temos 4 universidades federais,. dentre as quais a maior do país: UFRJ, UFF, UFRRJ, UNIRIO. Imagino que a pergunta que o MEC deve estar se fazendo ao recusar a proposta de transformação dos CEFETs em UTFs é: “Será que cabe mais uma universidade federal nesses estados?”.

Pensando nisso, foi que tive a ideia: Por que o CEFET/RJ não vira UNIRIO em vez de UTFRJ? Esta pergunta provocativa do título do post é uma opção que até agora, não vi ninguém considerar.

Se olharmos para as quatro federais do Rio, vamos ver que a UNIRIO é praticamente o complemento do CEFET/RJ: são fortes em humanidades, artes e sociais aplicadas, mas têm pouquíssimos cursos de caráter tecnológico. A única engenharia que eles têm é a engenharia de produção com foco em inovação e criatividade, que não formou nem a primeira turma ainda.

Se o CEFET/RJ fosse absorvido pela UNIRIO, não seria preciso criar mais uma universidade federal no estado, o que aumenta as chances de aprovação pelo MEC. Além disso, cria-se uma UNIRIO mais forte, com direcionamento também para a parte tecnológica.

Os únicos cursos que há em comum entre as duas universidades é o de administração (mas na UNIRIO é Administração Pública e no CEFET/RJ é Administração Industrial) e o de Engenharia de Produção (no CEFET/RJ, sem ênfase; na UNIRIO, com ênfase em criatividade). O curso da UNIRIO poderia ser transformado em Engenharia da Inovação e serem mantidos os corpos docentes de ambas. O mesmo valeria para os cursos de Administração.

Passaríamos a ser o Campus Maracanã da UNIRIO. O Campus Maria da Graça poderia ser a Escola UNIRIO, na qual poderia haver algum modelo de integração entre a formação de licenciados da atual UNIRIO e as aulas dadas na Escola.

Algumas disicplinas optativas da graduação poderiam ser de livre escolha (existentes em outros cursos) tal como é hoje na UFRJ. Dessa forma, o estudante da engenharia poderia fazer uma matéria interessante na Biblioteconomia, ou fazer aulas de canto e violão.

Para quem não sabe, a UNIRIO é uma faculdade relativamente recente e foi formada pela união das Faculdades Isoladas do Rio de Janeiro. Então, a Faculdade de Medicina do Rio (a primeira do Rio), uma Faculdade de Direito e algumas outras se juntaram, e criou-se a universidade. Portanto, para a UNIRIO, a ideia de acoplamento e fusão não é nada nova: é a essência da criação da própria universidade.

Naturalmente, é um processo que burocraticamente não é fácil e tem um custo, inclusive político (condensação de estrutura conduz a um enxugamento de cargos, o que pode fazer com que aqueles que têm cargos hoje no CEFET fiquem meio receosos de perdê-los...). Mas acho que esse custo de mudar ainda é menor do que o custo de permanecermos exatamente como estamos.

O mesmo acontece com o CEFET/MG e acredito que deve haver uma solução parecida de acoplamento, considerando alguma das onze universidades federais de que o estado dispõe.

Algumas pessoas podem argumentar que o CEFET/RJ é uma instituição centenária, de reconhecida excelência, e que é importante ser reconhecido como UTF, etc, etc, etc... Sei que nossa excelência não está no nome (já fomos ETN, ETF, CEFET...), e sinto que esse é o momento de uma mudança radical na estrutura do CEFET.

Eu também quero UTFRJ, caso seja possível. Mas parece não ser. E olhando para o problema de uma outra forma, pensei nessa solução alternativa. Pode ser que isso tudo não passe de um enorme devaneio, mas a cada vez que olho para o problema, mais fico convencido de que essa é uma solução viável e muito boa.

Decidi compartilhar isso, em primeiro lugar, porque acho que as ideias devem ser compartilhadas. Além disso, ainda não falei disso com quase ninguém, e estou querendo sondar a repercussão dela, e principalmente ouvir uma contra-argumentação ou algo que demonstre o quanto isso pode ser absurdo e não-factível. Porque, na boa, já estou começando a achar que virarmos UNIRIO seria até melhor do que virarmos UTFRJ...

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nordeste do Brasil - via Embrapa


Estive durante dez dias no Nordeste, a trabalho. Para quem não sabe, ou não se lembra, trabalho na Embrapa (unidade Embrapa Solos, localizada no Rio de Janeiro), e uma das minhas atribuições é realizar a avaliação das tecnologias que a Embrapa Solos desenvolve. Essas tecnologias são utilizadas em todo o Brasil mas, no presente momento, a região Nordeste tem sido contemplada como um importante público-alvo das nossas ações. Dessa forma, lá fui eu para o Nordeste, conversar com alguns produtores rurais e verificar, de perto, como as tecnologias que a Embrapa desenvolve são importantes para aqueles indivíduos. As avaliações são feitas considerando os aspectos sociais, econômicos e ambientais. Nunca tinha ido ao Nordeste na vida e, minha experiência estava programada para ser bastante intensa. Pernoites em cidades grandes ou capitais, acordar cedo, pé na estrada e pequenas cidades e vilarejos no percurso acordado. Pensei em fazer um ‘diário de bordo’ ou algo do tipo, mas não tive condições físicas e psicológicas para me dedicar a isso. Portanto, como um resumo desses dez dias, o que faço é um relato a posteriori, à medida que vou me lembrando de cada uma das coisas e de seus momentos importantes.

Pois bem. Saí do Rio rumo ao Recife no dia 25 de novembro. Fiquei no Hotel Aconchego, a duas quadras da UEP Recife, unidade de execução de pesquisas da Embrapa Solos no Nordeste. Passei o domingo fazendo um reconhecimento no bairro da Boa Viagem e tentando me localizar espacialmente. Instalei-me confortavelmente e dormi cedo, pois o combinado era que partíssemos no dia seguinte às 05:00h.

Às 5:00h da manhã de uma segunda-feira encontrei-me com a pesquisadora Maria Sonia, da UEP e o João Cordeiro, também da UEP, que nos dirigia. Um carro bonito da Embrapa, uma ‘ranger’, que se mostrou absolutamente necessária pelos caminhos que iríamos passar. Ficaria três dias com eles, analisando o impacto da tecnologia das barragens subterrâneas, que servem como forma de armazenamento de água da chuva no subsolo nos períodos de seca no Nordeste. Tomamos café da manhã na estrada. O primeiro choque: macaxeira, batata-doce, cuscuz, carne de sol, queijo coalho, pedaços de frango. O café-da-manhã por ali tinha cara de almoço. Depois de umas cinco horas de viagem, chegamos a Santana do Ipanema / AL, encontramos o primeiro agricultor, S. S., e o pegamos em um posto de gasolina em direção a São José da Tapera / AL, para a casa do agricultor S. D. Em lá chegando, S. D. tinha preparado um farto almoço para todos nós. Galinha capoeira (que conhecemos como galinha caipira por aqui), farofa, feijão, uma salada vinagrete que nunca vi igual. Uma delícia. Conversei em primeiro lugar com um técnico agrícola, que ajuda S. D. no seu cultivo. Depois, conversei com S. S. e, depois com S. D. Munido unicamente de um kit contendo prancheta, caneta e alguns questionários que funcionam como fios condutores do discurso, além da minha própria voz, fui conhecendo o ‘mundo de vivência’ deles (estou até agora arrependido de não ter utilizado um gravador, mas haverá outras oportunidades). Ambos são pessoas extremamente simples. S. S. gosta de falar com garbo, arrojar o discurso. Não fala como ‘homem da cidade’, mas percebe-se nitidamente que, para ele, a forma de falar é um indicador social. Tem muito orgulho de ser agricultor familiar e já esteve na Argentina falando de sua experiência. S. D. tem uma fala mais suave, mais tranquila. É mais despreocupado na fala, no traquejo. Tem um jeito manso de encarar a vida que é, de fato, encantador. Sequestrei uma de suas frases para a minha vida: “O mundo é composto.” É uma das coisas mais bonitas que já ouvi. Após o momento conversa-e-questionário, fomos conhecer a barragem de S. D. na área que ainda se mantém úmida apesar da pior seca dos últimos 40 anos enfrentada pela Região Nordeste, S. D. ainda tem áreas de solo úmido por conta da barragem e planta coentro, milho, feijão e frutas. S. D. ficou particularmente feliz ao descobrir um pé de cedro no seu terreno, que não foi ele que plantou (“deve ter vindo com o vento ou pelos pássaros”). As condições de declividade do terreno e pedoclimáticas de S. D. são bastante privilegiadas, de forma que o sucesso de seu cultivo não deve ser tomado como o modelo de produtividade de todas as propriedades que contam com barragens subterrâneas. Achei interessante a adaptação de linguagem que tem que ser feita quando se conversa com os produtores. Eles não contam seus animais como aves, bovinos, ovinos e caprinos. Eles têm rês e criação. Rês é gado bovino. Criação é todo o resto. Alguns também não utilizam hectares para medir seus terrenos. Eles medem suas terras por ‘tarefas’. Felizmente, S. S., me deu a valiosíssima informação de que 1 há pode ser convertido para 3,17 tarefas... Ambos os produtores aparentam ser pessoas muito felizes. As barragens contribuem para a manutenção da segurança alimentar de ambos. Uma coisa bastante interessante é que sempre pensamos no modelo de avaliação econômica como a chance ou a possibilidade de se obter lucros com esta tecnologia. S. D. vende uma parte de seu cultivo a atravessadores, mas doa parte de sua produção e de sua água a vizinhos e outras pessoas que passam pela sua propriedade. Os economistas poderiam chamar a isto de ‘falha de mercado’, mas é bastante razoável compreendermos que a verdadeira ‘falha de mercado’ ocorre quando pessoas morrem de fome e de sede enquanto há comida e água do outro lado da cerca. Uma coisa que a gente aqui do centro-sul não entende é isso: alguns podem ter comida, outros podem ter água, mas a seca é para todos. E a solidariedade é a ‘falha de mercado’ de um capitalismo que não foi projetado para o semi-árido. Depois dessa majestosa estreia em campo e de ter começado com o pé-direito com dois agricultores dispostos a conversar, jantamos em Garanhuns / PE, onde o clima é mais ameno, e por lá pernoitamos, no imbatível hotel Tavares Correa, no qual tivemos uma noite de reis.


Dia seguinte, terça-feira. Após um ótimo café-da-manhã, no qual comi mugunzá pela primeira vez (uma delícia!), fomos  conhecer a barragem de D. S., em Buíque / PE. As condições do terreno de D. S. não são nem de longe aquela que vimos com S. D. A seca em Pernambuco foi muito pior do que em Alagoas. A área da barragem estava muito seca e D. S. perdeu boa parte de seu gado. Pelo seu porte, pudemos perceber que não havia fome (“graças à barragem, a gente tem feijão e milho estocado desde o ano passado”). Havia muita disponibilidade em colaborar com os questionários, mas a seca assume proporções alarmantes na sua voz (“se não chover, vai morrer todo mundo”). Complementa-se a renda com artesanato de panos de prato. Comprei um para mamãe, mas achei os preços caros (será que nosso preço foi diferenciado por sermos ‘da cidade’?). Levei uma pedra que vi no terreno, uma pedra vermelha, árida. Gosto de pedras. Saímos pouco antes de meio-dia e optamos por não almoçar, pois não daria tempo. Tínhamos um sortimento (de minha parte) de muitas barras de cereais e alguns outros víveres (batatas fritas, água, etc...) que fomos comendo no carro a caminho de Queimadas / PB. Pela estrada, havia muitos mandacarus e facheiros (um tipo de cacto mais aberto, em forma de coroa). A seca se via da paisagem.

Chegando em Queimadas / PB, precisaríamos ir à propriedade de D. D. Não tínhamos o endereço certo, e o celular de quem poderia nos fornecer também não pegava. Fomos pedir informação na rua e conhecemos um policial reformado, de cujo nome não recordo nem as iniciais. Ele nos levou até a casa de D. D., na cidade, mas era a pessoa errada. Finalmente conseguimos o telefone da pessoa que conhecia a localização de D. D., em uma localidade conhecida como Catolé Dois. O tal policial reformado (gente boa!) disse que nos levaria até lá. Na verdade, nos levou até a casa de um outro senhor, que, este sim, sabia o caminho. Ranger cheia, lá fomos nós pela estrada de terra, infinita. Chegamos em uma encruzilhada onde havia um senhor parado com uma espingarda na mão. Logo me vieram à mente cenas de coronéis ou traficantes, “donos do local”, que como nas favelas do Rio, liberam quem entra e quem sai. Nada disso, me disseram que era só um caçador de passarinhos. Mas eu fiquei mor-ren-do de medo.  Chegando enfim, a casa de D. D., a original, encontramos uma pessoa especialmente simpática e mais simples do que a média. Ficamos conversando numa prosa boa, e descobrimos que D. D. não possui mais a barragem. Segundo a própria, a mesma (que consiste numa estrutura de plástico enterrada sob uma vala em uma região declivosa, que barra a vazão de água no subsolo) foi instalada perto de uma craibeira, uma árvore lindíssima que lembra um ipê (vimos alguns exemplares pela estrada) e que tem raízes muito profundas. Vendo que a barragem não funcionava mais, D. D. descobriu que as raízes da craibeira furaram a barragem. Ela ficou com pena de derrubar uma árvore tão pujante e, entre a barragem a craibeira, ela optou pela árvore. Sem arrependimentos. Ela disse, no entanto, que foi muito feliz enquanto teve a barragem, e que possibilitou a ela muito bons cultivos e muita experiência de vida, que ela conheceu muitos outros lugares, que fez intercâmbio com muitos outros agricultores, e que gostou muito. D. D. disse que perguntaram se ela queria fazer uma outra barragem em sua propriedade, em outra parte do terreno, mas ela disse que não tem mais energia para fazer as manutenções necessárias. D. D. é dessas que tem o timing das coisas, está em outra: aposentada, curtindo seus netos. De uma sensatez impressionante.


Em seguida, na mesma localidade, descobrimos que havia um outro produtor que possuía uma barragem subterrânea, S. V. Fomos conversar um pouco com S. V. Fiquei meio sem graça pois diferente dos outros locais, em que a própria Sonia e o João me davam uma privacidade com o produtor, dessa vez eu tive que entrevistar S. V. sob os olhos da Maria Sonia, do João (nenhum problema nisso), do policial reformado e do outro senhorzinho. Encabulamentos à parte e lidando com as coisas da forma como era possivel, a entrevista fluiu relativamente bem. S. V. parecia bastante pouco empolgado com a barragem e com a vida, de uma forma geral. O produtor tinha uma mágoa muito grande com alguma coisa na sua vida recente (diz que ele era muito bonito antigamente) e, apesar de ter respondido ao que lhe era perguntado, parecia distante, e ferido de alguma forma. Claramente, nada a ver com a barragem. (“de uns anos pra cá, minha vida deu uma viravolta”), mas não entramos nesse meandros. primeiro, porque não nos interessava (a dor do outro deve sempre permanecer como um território inviolável, como sua própria casa, à qual só se se entra com a expressa permissão do dono) e, em segundo lugar, porque estávamos com outras pessoas que eram da localidade, o que tornava o “falar da própria vida” uma coisa ainda mais complicada. S. V. utilizava sua barragem, basicamente, para plantio de capim para o gado, o que achei digno de nota. Deixamos o senhorzinho em sua casa e, depois, o policial reformado. O policial quis que entrássemos em sua casa, o que fizemos por cortesia e gratidão. Ele descortinou sua triste história de vida, da falta de atenção por parte dos filhos e dos netos. Falou da ex-mulher e da piscina que mantém em casa para seus netos, que nunca vão à sua casa. O casamento acabou porque a mulher teve depressão e toma remédios controlados (nunca sei se essas coisas são de fato depressão, ou se ela teve um problema “de pressão”; o lance dos remédios controlados também não ajuda). Não sei a culpa que o policial tem nisso tudo nem das merdas que ele fez na vida pra merecer isso ou aquilo (“a gente não sabe a história”). Mas fiquei com pena, confesso. Tão prestativo... Levamos umas goiabas de seu pomar, que estavam ótimas, e seguimos para Campina Grande / PB.

Em lá chegando, fomos para o Hotel Village, bem localizado e de cujo quarto não gostei muito. Tomamos banho e fomos jantar fora. Fomos para o Bar do Cuscuz, onde encontramos outros embrapianos, amigos da Maria Sonia. Achei Campina Grande uma cidade simpática, pelo pouco que circulamos. Fomo pedir informação na rua a um bêbado, que quase entrou no carro, e a uma muda, que grunhia uma negação que não entendíamos (provavelmente querendo dizer “não! ele está bêbado!”). O Santo dos Perdidos & Achados, assim nominado pela Maria Sonia, não falhava, de forma que com ajuda de bêbados, mudas, ou policiais, sempre chegávamos aonde precisávamos... Tivemos um jantar muito agradável, onde comi pela primeira vez carne de bode. Achei ótimo. Feijão de corda (“feijão verde”, no linguajar local), farofa e carne de cordeiro completavam o cardápio. Dormimos.

Depois de um dia longo e sem almoço, tomamos café da manhã com calma e decidimos visitar uma barragem em Soledade / PB. Contamos com o apoio de uma ONG local para chegar lá e podermos conversar com o produtor rural, S. I. O produtor ficou uns quinze minutos falando de política local, de que a ONG vinha, ajudava e depois ia embora,e que eram necessárias ações mais afirmativas e constantes ao longo do tempo, de amplitude mais coletiva. S. I. tinha um forte perfil sindical. Cheguei a cogitar que nossa entrevista não fosse à frente, dada a quantidade de fala política que entremeava seu discurso. A um dado momento, porém, conseguimos alinhar o discurso e focalizar nos aspectos que precisávamos. O agricultor utilizada sua área úmida de dolo para plantio de capim, o que parece ser uma tendência na Paraíba. Por alguma razão que não se sabe bem qual é, os agricultores paraibanos fazem a opção de alimentar o gado e manejar o dinheiro da venda do gado do que utilizar as áreas para plantio de hortaliças e leguminosas para consumo próprio. S. I. é bastante articulado. Além da barragem subterrânea, o mesmo tem um barreiro (buraco no chão, uma espécie de açude artificial para captação de água), dois poços, um cata-vento (mini-gerador de energia eólica) e um poço artesiano de inacreditáveis quatorze metros). Apesar de seu terreno não ter as melhores condições naturais, o arsenal tecnológico utilizado pelo produtor permite que o mesmo consiga viver bem mesmo nestes períodos de seca intensa (“as pessoas falam da seca. eu não sei o que é seca por aqui.”). Seu gado estava com uma pele brilhosa e, gordo. Um gado muito garboso, em contraste com a seca que se via na paisagem.

Saímos de lá diretamente para o aeroporto de Recife, pois eu deveria embarcara para Natal, para acompanhar outro projeto. Comemos um milho assado na estrada (ótimo! nunca tinha experimentado) e pouco depois almoçamos, também na estrada, por volta de umas 16:00h. Cheguei no Recife a tempo do voo para Natal e agradeci muito a Maria Sonia e ao João. São, de fato, pessoas incríveis, muito competentes e companheiras. nesses três dias de estrada hardcore, adquirimos uma intimidade e uma solidariedade comum que no modo normal da vida demora-se muito tempo para conseguir. Esses três foram os mais intensos da viagem: onde mais aprendi, e onde mais entrei em contato com essa realidade distante que eu sempre achei que não me dissesse respeito.

Cheguei em Natal exausto após um voo Trip. Cheguei s 22:00h no meu hotel de frente para a praia. Fui jantar forever alone em um restaurante-bangalô turistão. “Mesa pra quantos, senhor?” “Ah, só eu mesmo”. Comi uma salada, saí do restaurante, olhei a orla da Ponta Negra e, quando olhei para o horizonte, pensei que eu estava mais perto da África do que quando olhava o horizonte do meu Rio de Janeiro.

Acordei cedíssimo, tomei café no hotel e após alguns atrasos e quase-desencontros, encontrei Silvio e José Ronaldo (que são da Embrapa Solos do Rio) no hotel e pegamos a estrada rumo a Jandaíra / RN. A tecnologia a aser avaliada dessa vez seria o Tomatec, um sistema de produção de tomate ecologicamente cultivado, desenvolvido pela Embrapa. Encontramos o produtor R. no seu sítio. R., diferente do perfil de produtores que eu tinha visto até então, era engenheiro agrônomo, fazendeiro de médio porte, (tinha cerca de 12 empregados no seu sítio) e utilizava a agricultura não como subsistência, mas como atividade produtiva capaz de gerar valor. Apesar de estar se recuperando de uma doença séria, R. nos recebeu com um ótimo almoço e se mostrou bastante entusiasmado com a tecnologia e com a presença da Embrapa na sua propriedade. A entrevista, da qual muitas informações foram extraídas, foi feita com sucesso.Por se tratar de um perfil diferente de produtor, as perguntas puderam ser feitas de forma mais straight-forward, ou seja, de forma mais simples e direta, de engenheiro para engenheiro. Houve um Dia de Campo em sua propriedade, evento que tinha por objetivo prospectar novos agricultores para o Tomatec e ensinar as técnicas do sistema de produção a alguns estudantes de cursos técnicos em agronomia locais. Visitamos a parte onde estava sendo cultivado o Tomatec, experimentamos alguns (são gostosos!) e vimos as técnicas de ensacamento de pencas, manejo com fitilho, fertirrigação por gotejamento, manejo integrado de pragas, etc... Entrevistei também um outro produtor, L., que não teve tanto sucesso como R. no seu cultivo do Tomatec, por questões de mão-de-obra, e também, um técnico agrícola (extensionista rural) que trabalha com eles. Saímos de lá e passamos em Ipanguaçu, onde um dos pesquisadores da Embrapa, o Silvio, está construindo uma fábrica de ‘lenha ecológica’, os chamados briquetes. A fábrica está saindo muito legal, está quase pronta. De lá para Natal, cerca de três horas de viagem, passamos por uma estrada escura e quase se carros (bastante medonha) e fui conversando com o Silvio sobre as coisas da vida, num debate saudável com alguém que tem opiniões diametralmente opostas às suas em muitas das esferas da política e do direito. esse tipo de debate é sempre interessante (com quem consegue respeitar as ideias do outro, apesar de diferentes). Só foi chato para o José Ronaldo, que ficou no meio de um ‘fogo cruzado’ verbal, que deve lhe geral alguns pesadelos no qual o grande monstro seja este tipo de discussão. Chegamos em Natal, encontramos a esposa do Silvio e jantamos. Fui para o hotel às 23:00h. Arrumei minhas coisas e para lá de meia-noite, exaustíssimo, dormi, para acordar no dia seguinte e, sem aproveitar um pedaço sequer da praia, acordar ás 5:00h, não tomar café da manhã e se mandar para o aeroporto para embarcar de volta para o Recife.

Cheguei no Recife pela manhã e fui de malas pra Embrapa (UEP) porque ainda era muito cedo pra fazer o check-in no hotel,. Conheci toda a unidade, cada um dos seus pesquisadores, analistas e assistentes. Maria Sonia me apresentou toda a equipe, do chefe-geral às secretárias. Almocei com Maria Sonia e o chefe-geral, José Carlos. Foi muito importante, tanto em termos de conhecimento, quanto politicamente. Passei a tarde organizando meus papéis no hotel, arrumando todo o conhecimento e informações que eu tinha coletado até o momento. Fui ao Shopping Recife à tarde pra almoçar e achei ruim. Decidi sair durante a noite e conhecer uma amiga virtual de literatura, a Raquel, que já conheço virtualmente há pelo menos uns cinco anos, através de uma comunidade no Orkut. No meu primeiro momento de lazer efetivo, marquei com ela no Recife Antigo, um bairro que é a Lapa de lá. Estava ela e o Alfredo, vulgo Pajé, que eu chamei de Rogério, porque ouvi desa forma. Ficou Rogério. A Raquel é uma pessoa encantadora. Fã de Cortázar e de uma semelhança político-ideológica e cultural que dá gosto de conversar. Rogério também é gente finíssima. É do Sul, foi pro Nordeste, é dessas pessoas que cruzam o mundo e que nunca precisou do eixo Rio-São Paulo pra ser feliz. Foi uma noite deliciosa, a cerveja que faltava num fim de semana depois de tanto cansaço. No final, meia-noite e meia, ainda vi um maracatu rolando no Recife Antigo, um ensaio, na verdade. Fiquei eufórico e emocionado. Não é maracatu produzido, como o daqui do Rio. É gente dali mesmo, gente simples, sem produção de vestimenta, que toca porque curte. A coisa é roots mesmo, não tem proselitismo. E de uma qualidade impressionante, de graça e na rua.


Dormi, acordei e tive um sábado ótimo. Fazia um sol bonito e eu fiquei na piscina do hotel pela manhã. À tarde, decidi ir a Olinda. Adorei. É extremamente parecida com Santa Teresa. ladeiras, casas bonitas e coloridas, lojinhas de souvenirs e artesanato, gente muito rica e gente muito pobre, desigualdade: Santa Teresa, ipsis litteris. Almocei num restaurante trendy, comprei presentes para a família. Esse clima de ter muita coisa á venda dá um ar de shopping a céu aberto e dota a coisa toda de uma artificialidade muito desnecessária. O carnaval ali deve ser um inferno, que nem Santa Teresa. Descobri que tinha um jazz em Olinda, ás 21:00h, e cogitei ir. Liguei pra Raquel e não consegui falar com ela, e falei com Rogério que disse que iria estar por lá. Cheguei ao hotel e dormi sem ter muita consciência disso, ás 18:00h. Acordei ás 21:00h sem saber se era dia ou se era noite. Acho que nesse cochilo eu consegui, enfim, descansar de tudo aquilo que eu tinha vivido nos dias anteriores. Fiquei nessa de vou-não-vou, mas era sábado à noite e decidi ir pra Olinda. Peguei trânsito, quando eu cheguei em Olinda às 23:00h, o mundo desabou em água sob a minha cabeça enquanto eu subia as ladeiras. Cheguei ao local do Olinda Jazz e descobri que o show tinha acabado de acabar. Comi um churrasquinho de frango na esquina, na chuva, estava morrendo de fome. Decidi ir embora o quanto antes, com medo de que meu ônibus pro Recife não passasse mais. Peguei o 910, Piedade –Rio Doce, e cheguei ao meu hotel. Mais um pouco e eu teria que esperar o bacurau, nome dado ao único espécime da linha de ônibus que roda pela madrugada. Achei bacurau um nome muito divertido. Acho legal saber que no Rio, as linhas circulam apenas em frota reduzida, mas não temos que ficar na dependência do bacurau... Enfim, um sábado à noite pra se fuder.

Veio o domingo. O tempo fechou, nublou mesmo, choveu. Fui ao Recife Antigo pra conhecer o Recife. Ninguém na rua: chuva, frio. Forever alone. Passei na Rua do Carmo, espécie de Saara ou 25 de Março de lá. Passei pelas pontes, fui ao Paço Alfândega. Mas, caraca, tudo muito triste mesmo. Voltei pro hotel e me deu uma puta saudade de tudo e de todos: das minhas coisas, das minhas pessoas, do meu lugar. À noite, fui a uma social na casa da Maria Sonia, onde vi outras pessoas da Embrapa (de outras unidades, pessoas que eu não conhecia). Mas tê-la visto e ter conversado um pouco com outras pessoas me fez me sentir um pouco melhor...

Segunda-feira o dia foi de trabalho. Acordei cedo para encontrar o João (novamente) e a Selma, rumo a São Vicente Férrer, município da Zona de Mata de Pernambuco, onde a Embrapa tem um projeto de otimização do cultivo da videira. Nosso encontro foi na sede da cooperativa que os agricultores possuem. A cidade passa por um momento muito bacana, onde a Embrapa, de fato, tem atuado como elemento criador de valor para os produtores. Paulatinamente, o cultivo da banana vem sendo substituído pelo cultivo da uva: mais interessante e mais rentável para o município. Em vez de aplicar os questionários individualmente, fizemos um esquema de oficina com dois grupos de 4 e 6 agricultores, respectivamente. O trabalho foi ótimo e conseguimos captar a percepção de dez agricultores sobre o benefício tecnológico proporcionado pela Embrapa. Os agricultores, cooperativados, têm visivelmente um brilho nos olhos quando falam da Embrapa e da melhoria na qualidade de vida que passaram a ter com o cultivo da uva. Aliás, fui ao campo experimental da Embrapa e comi algumas uvas do pé: deliciosas. E quem me conhece sabe que eu nem sou fã de uvas-de-mesa, com caroço. Mas, nossa, são deliciosas mesmo!

De lá, voltamos para o Recife. Descobri que a designação de gênero do Recife é masculina, e não neutra. “Prefeitura do Recife”. Portanto, você está no Recife e não em Recife. Isso parece bobo, mas é a diferença entre ser local e não ser... E dormi, e acordei cedo, tomei café-da-manhã e vim para o Rio de Janeiro. E cheguei em casa, exausto, às 15:00h, e ás 16:00h, já estava de saída porque eu precisava dar aulas, e a vida continuava.

E foi assim que eu voltei de lá uma outra pessoa e ainda o mesmo, com novos amigos, novas formas de ver o mundo, e uma percepção de que o Brasil é muito maior do que o que a gente supõe. Agora, que conheço mais, tenho clareza de que conheço ainda menos. E pro Norte? E pro Pantanal? E pro Sul? Quantas cidades e quantas terras, quantos agricultores, quanta vida, quanto sonho e quanto chão: quantos Brasis ainda temos a descobrir?

sábado, 8 de setembro de 2012

ABC do Josué



Tenho lido muito neste ano. Já li Rubem Fonseca, Thomas Mann, Martin Page. E li também o Josué. Para quem não sabe, o Josué é um menino de dez anos, que lançou este ano o livro "ABC do Josué", pela editora Dantes. A premissa do livro é bastante simples. Durante algum tempo da infância do Josué, a cada vez que ele não sabia uma palavra e perguntava o significado aos seus pais, os pais devolviam a pergunt,a e perguntavam ao filho o que ele achava que essa palavra significava. Assim, surgiu o "ABC do Josué", um livro muito pequeninho, mas extremamente denso e recheado de uma poesia diferente e genuína. E é divertidíssimo! :) Nós (que já somos 'gente grande'), conseguimos perceber o quanto de psicanálise se esconde nessas definições oriundas de conexões ainda muito superficiais e o quanto de beleza existe nisso! Só para se ter uma ideia, vou colocar aqui algumas definições dadas pelo Josué.

Contemporâneo: é alguém que não tem coração
Capitalismo: alguém que não tem barba
Verosímil: uma bicicleta de cinco rodas

Existe coisa mais genial do verossímil sendo definido por uma bicicleta de cinco rodas? Sério, eu me apaixonei pela definição de verossímil do Josué. E o contemporâneo que perdeu seu escrúpulos? E os capitalistas que, diferentemente de Marx e Lênin, não têm mais barbas?

Eu li muitas coisa legais esse ano, mas o "ABC do Josué" é, sem dúvida, a coisa mais interessante que li nos últimos tempos. É inovador, divertido, e é de um lirismo tão honesto que faz inveja a muito poeta 'gente grande' por aí que faz um esforço enorme pra tentar relaxar as sinapses em busca dessas conexões divertidas.

Fui fisgado, confesso. Pena que, segundo o livro, o Josué cresceu e já não quer mais brincar desse jogo. Acho que ele deve entrar, muito em breve, naquela fase onde o mundo fica mais sério.

Mas, depois de ler o "ABC do Josué", fiquei com a certeza de que o mundo só pode ser levado a sério de verdade se os dicionários forem escritos pelas crianças!



Obs: Para quem se interessar, comprei o livro na Tracks, que fica localizada na Praça Santos Dumont, Gávea, Rio de Janeiro. A Dantes parece ser uma editora pequena, e acho que vale a pena entrar em contato com eles para se informar onde se pode comprar o livro virtualmente. O site pode ser acessado clicando aqui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Poligamia pode?



Decidi voltar e escrever no blog porque preciso dar a minha opinião sobre o famigerado caso da união estável entre três pessoas em Tupã, no estado de São Paulo, cuja reportagem, na íntegra, pode ser vista aqui.

Minha primeira impressão foi a de não rechaçar a ideia. Ora, o que tem de errado em três pessoas decidirem viver suas vidas como bem entendem? Qual o problema disso? Mas depois, fui olhar o problema com mais calma. E percebi que não apenas ‘não rechaço a ideia’, como sou extremamente favorável ao encaminhamento legal da dita ‘poligamia’.

Hoje tive algumas discussões aqui no escritório. Eu estava na minha, trabalhando. Eis que alguém, no outro lado da sala (em voz alta), lança o assunto: “Vocês viram a pouca-vergonha do cara que se casou com duas mulheres ontem no Fantástico?” Tive que me levantar e dizer: “Permitam-me discordar, eu não acho que há qualquer pouca vergonha nisso!”

E aí, a discussão se instaurou.

A essa altura do campeonato, o nazismo declarado da população brasileira não me impressiona mais. É só ler os comentários da Folha de São Paulo em qualquer notícia com um tema mais ‘polêmico’. No entanto, conversar com as pessoas que se comportam como se fossem os autores desses comentários é uma experiência e tanto.

As pessoas se utilizam da psicanálise, da sociologia e até do feminismo para justificar seus próprios pontos de vista extremamente preconceituosos de não aceitar algo que fuja um pouco à normalidade da curva estatística do comportamento. Ouvi argumentos como “pessoas que apresentam um comportamento que muito se desvia do socialmente aceito, acabam tendo outros desvios”, em uma discussão onde além de mim, engenheiro, havia também um sociólogo e uma jornalista. Lembrou um pouco o comentário de um colega meu, engenheiro, que disse algo que possui mais ou menos o mesmo teor, mas com um grau maior de sinceridade: “Quem abre muito a cabeça, um dia acaba abrindo a bunda.” Ouvi também que “o cara está criando um harém e isso invalida as conquistas feministas” Não, não invalida nada. E também, argumentos mais clássicos e mais honestos como “o problema é abrir precedentes” e “o que os filhos dessas pessoas irão sofrer?”

Meu posicionamento é de que as liberdades individuais, desde que não provoquem prejuízos a terceiros, não devem sofrer nenhuma, repito, NENHUMA censura legal. Acho que pessoas que vivem a três, a cinco, a nove, e são felizes assim, não devem nada a ninguém: essas pessoas têm o direito de ser felizes. Existe uma paranoia em regular a vida sexual alheia que não entendo. As pessoas deveriam se preocupar mais com seu próprio cu, em vez de ficarem discutindo se é certo ou errado a vizinha que se casou com um travesti.

Ah, mas se abrir precedente? Bom, esse foi um caso isolado. Pode ser que depois desse, venham cinco, duzentos, três mil. E aí? E aí que isso é a vida, é a sociedade que vai mudando. Se vai evoluindo ou não, ou ainda, até que ponto essas coisas são um avanço, não sabemos. Mas a sociedade caminha em direção ao seu próprio futuro, que, por natureza, é incerto.

Isso invalida as conquistas feministas? Pelo contrário, isso apenas reforça  a sua autonomia. A conquista feminista é tão grande que as mulheres são livres até para viverem do jeito que bem entenderem, inclusive com dois homens, ou duas mulheres, ou um homem e uma mulher, ou apenas com um homem, ou sozinhas, etcétera. São múltiplas as formas de ser-no-mundo.

Certa vez eu vi um argumento, com o qual concordo muito, que é o seguinte: “Para as mulheres negras, liberdade mesmo é poder alisar o cabelo.” Vocês entendem? Houve um tempo em que ter o cabelo alisado era a única forma de ser-no-mundo. Depois, veio o movimento black-power e, com ele, uma estética de que as mulheres tinham que andar com os cabelos armados. O que existe hoje é que manter o cabelo liso, ou solto, ou preso, ou raspado, é cada vez mais uma questão de foro íntimo, pessoal. O nome disso é LIBERDADE.

Não se precisa mais queimar sutiã. Lógico, houve um dia em que isso foi necessário. Mas a liberdade mesmo é que a mulher possa usar o seu sutiã para queimá-lo ou para seduzir o seu marido, esposa, namorada, onze pessoas.

O que os filhos dessas pessoas irão sofrer? Certamente, sofrerão menos do que os filhos de famílias artificiais de comercial de margarina tradição-família-propriedade que têm que arrumar uma namorada, têm que fazer direito / engenharia / medicina, têm que ter filhos, têm que se casar, têm que seguir uma vida exatamente como todos queiram, têm que! São mais felizes as pessoas que podem escolher a vida que querem ter.

Pessoas que apresentam um comportamento que muito se desvia do socialmente aceito acabam tendo outros desvios? Prendam aqueles que têm algum desvio, antes que eles comecem a apresentar o próximo! Prendam os gays, que vão seduzir as nossas criancinhas. Prendam os maconheiros! Prendam os pretos, que vão roubar as nossas coisas. Prendam, prendam, prendam! Pelo amor de deus, estamos no século XXI. Esse tipo de argumento faria Hitler corar de inveja em 1943.

É uma pena que, nessa situação, a revanche conservadora não possa utilizar a Bíblia como sua plataforma principal: existem vários casos de poligamia na Bíblia Sagrada. Portanto, as pessoas usam o que têm: preconceito, intolerância e, principalmente, cientificismo torto.

A um dado momento, quando a discussão se afunilava, a jornalista que participava do debate falou: “Mas o ser humano julga todas as coisas. Essa é a minha capacidade de julgamento. Você está querendo que eu deixe de julgar?” Daí eu disse: “Não mesmo. Você pode julgar e pode até não gostar, se você quiser. Mas o fato de você não gostar não pode servir como argumento para que haja uma lei que impeça o cidadão de viver da forma que ele escolher. Afinal de contas, se a gente começar a julgar todas as coisas que acontecem entre quatro paredes, daqui a pouco vai ter uma lei dizendo qual posição sexual pode e qual não pode ‘por ser promíscua demais’.”

No mais, aproveito para dar os parabéns ao trio que ‘se casou’ que, independentemente de serem mártires de uma grande causa (só o tempo dirá), estão apenas sendo mártires para si mesmos, arcando com o ônus da ousadia, mas bancando correr atrás da felicidade que acreditam. Afinal de contas, a despeito das imposições sociais, estatística é uma coisa que vale para populações, não para indivíduos. Portanto, para aqueles três indivíduos, que não são suspeitos de fazerem mal a outrem e estão apenas querendo legalizar a forma como se organizaram e como distribuíram seu amor, essa é a forma certa de fazer as coisas.

Para tanto ódio do lado de fora, que não falte amor do lado de dentro. Desejo que sejam muito felizes!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Rio +20, Embrapa



Rio +20: Foram seis dias de trabalho intenso. Carregar caixas, resolver problemas de última hora, ajudar no que fosse possível. Tudo isso foi bastante cansativo, mas minha incumbência maior foi ficar no stand explicando o que é a Embrapa (e a Embrapa Solos), o que fazemos, quais as tecnologias que temos, etc... Expliquei um monte de coisa para um monte de gente. No entanto, teve uma senhora de Campina Grande / PB chamada Soraia, que veio ao Rio com seu filho Breno, de nove anos. Fiquei 45 minutos com eles. Expliquei a importância do solo para agricultura e para a bioversidade do planeta, os fertilizantes organominerais, os diferentes tipos de solos, as barragens subterrâneas, os processos de erosão, a utilização de cobertura vegetal no cultivo, etc. Entre uma explicação e outra, fui dando a eles diversos folders e brindes, e também um Calendário de Solos do Brasil, que o Breno disse que queria colocar na escola dele. Ao final, ganhei um abraço tão sincero e agradecido da Soraia e do Breno, que fiquei pensando na importância das coisas que eu faço. Por mais que eu tenha feito muitas coisas e explicado as mesmas coisas para muitas pessoas diferentes, uma das poucas certezas que tenho é a de que EU FIZ DIFERENÇA na vida da Soraia e, especialmente, na do Breno (que é um menino extremamente esperto, inteligente e que quer ser engenheiro quando crescer). Dos meus seis dias de trabalho intenso, a melhor lembrança que tenho é essa. Fazer a diferença na vida de uma pessoa, apenas uma que seja, através da educação, é o tipo de coisa que me realiza: como professor, como profissional, como cidadão e, especialmente, como ser humano.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Em branco" ou "Outros Carnavais"



Carnaval para mim tem sempre um misticismo. É sempre tempo de repensar, de investir, de desistir, de descobrir, enfim, de se reinventar.

Desde 2005, o ano no qual começaram os meus carnavais, por assim dizer, eu me lembro cuidadosamente de cada um dos carnavais que tive.

Em 2005, eu tive um pré-Carnaval. Lembro da inglesa na Lapa e de algumas pessoas que ficaram pelo caminho, mas mal me lembro de quem eu era nessa época. Serviu mais para que eu pudesse compreender como as coisas poderiam ser, e entrar nesse mundo de uma vez.

Em 2006, tive um Carnaval de abertura. Nesse Carnaval eu conheci pessoas que seguiriam comigo até os dias de hoje; às vezes mais próximas, às vezes mais distantes, às vezes abrindo outras portas. Mas foi um descobrir.

Em 2007, eu fiquei muito ocupado terminando o meu Carnaval de 2006.

Em 2008, (e quem éramos nós em 2008?), tive um Carnaval triste, magoado. Mas me lembro da alegria desafiando e vencendo a tristeza, e descíamos as ruas de Santa Teresa genuinamente felizes apesar da vida, cantando Chico Science a plenos pulmões e fazendo de Manguetown uma ode à liberdade, 40 anos depois de 1968.

Em 2009, eu me deixei surpreender pela vida. A amigdalite quis desafinar meu samba, mas eu estava tão disposto e tão disponível que, no terceiro dia de Carnaval, eu já estava na piscina da casa de completos desconhecidos. Dei uma chance a mim mesmo e me permiti começar (e que aurora!).

Em 2010, tive um Carnaval de fuga. Tive uma fuga planejada pra São Paulo. Mas uma fuga calculada, precisa: sem chorumelas, sem frustrações e cheia de vontade.

Em 2011, eu já outro e ainda o mesmo, consolidava um outro início, curtindo e descobrindo os encantos do meu presente de Natal.

Em 2012, meu Carnaval passou em branco. Nem fuga, nem presença; nem começo, nem ruptura; nem descoberta, nem frustração. Em 2012, tive um Carnaval descarnavalizado, gasto no que há de mais cotidiano e sem magia; vi ser transformado esse meu feriado tão caro em algum outro feriado prolongado qualquer, como Tiradentes ou Corpus Christi.

Não obstante, anotem: em 2013, eu coloco uma fantasia e caio na gandaia nos quatro dias de folia, vou tingir de cor a vida. Vou querer ter algo para me lembrar com carinho nos próximos anos, porque de branco e tom pastel já nos bastam os dias úteis que se amotinam uns sobre os outros, nos quais temos que nos manter retos, probos e dignos, sem extravasar e sem deixar transbordar o copo.