segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Inteligência, resistência e bom-humor



Foi por um mero acaso que esbarrei com o livro de Victor Hugo de Souza Barreto, ‘Vamos fazer uma sacanagem gostosa? – uma etnografia da prostituição masculina carioca’, lançado há alguns meses pela Editora Universitária da UFF, a Eduff.

Uma pequena nota de jornal (talvez no Ancelmo Gois, já não me lembro) indicava o lançamento do livro, na Livraria Travessa de Botafogo. Como moro relativamente perto, o horário era conveniente e o tema me chamou a atenção, decidi ir. Victor Hugo ficou um pouco surpreso com a minha presença, uma vez que não nos conhecíamos (e ainda não nos conhecemos). Como já lancei livros, suponho como ele tenha se sentido. Esperamos ver os amigos e os mais chegados, de forma que topar com um anônimo interessado em nosso texto é algo que nos deixa meio surpresos, quase assustados. Ele me escreveu uma dedicatória algo genérica, mas carinhosa, e me indagou quem eu era, o que fazia ali. Não consegui dizer outra coisa além da minha formação em engenharia de produção, mas me coloquei como alguém interessado ‘no assunto’ (de forma que, para ele, eu poderia ser um estudante, um garoto de programa, alguém que pensa em abrir uma sauna, etc)

Cheguei em casa com o livro, fininho. Descobri que o mesmo era fruto de uma dissertação de mestrado defendida na UFF, universidade pela qual tenho imensa gratidão (‘carinho’ ou ‘amor’, além de soar piegas, seria falso). Victor Hugo é mestre em antropologia pela UFF, onde atualmente cursa seu doutorado.

O livro é um bálsamo. Ao folhear as primeiras páginas e verificar o modo como estavam estruturados o texto, as referências, o estilo, fiquei feliz. Victor Hugo escreve bem, e o melhor de tudo, escreve para ser lido, o que deve ser encarado de maneira muito positiva, em especial em textos acadêmicos.

É claro que houve um trabalho adpatativo da dissertação ao livro. Mas mesmo em trabalhos acadêmicos publicados sob a forma de livro, é raro ver uma prosa tão fluida, tão cuidadosa com o leitor. O desafio da escrita técnica (seja uma tese de mestrado ou um livro de ensaios), no meu ponto de vista, é o de escrever de maneira equilibrada, sem cansar o leitor com tautologias e excessos, mas, ao mesmo tempo, sem tutorá-lo, sem infantilizá-lo. Victor Hugo acerta o tom.

O trabalho de Victor Hugo é dividido em cinco capítulos. O primeiro, introdutório, apresenta os eixos teóricos aos quais o trabalho se vincula. Curiosamente, é um capítulo leve, e mostra como a discussão proposta se articula com as problemáticas de gênero e com as questões relativas ao corpo e à subjetividade abordadas na filosofia desconstrutivista francesa dos anos 1970 (Foucault, Deleuze & Guatari [eu senti falta do Derrida]). Os capítulos posteriores se ocupam da sauna, dos boys (garotos de programa) e do programa em si. O último capítulo, interessantíssimo, vai discutir os limites éticos da pesquisa e o papel do pesquisador antropólogo frente aos seus ‘objetos’ de pesquisa (leia-se ‘objetos’ com muitas aspas).

O trabalho é inteligente porque constrói de maneira efetiva um conhecimento novo sobre a prática da prostituição no Rio de Janeiro, em especial as que ocorrem nas saunas. Com a leitura, passei a entender a maleabilidade discursiva na prostituição masculina, a relação estreita das saunas com as delegacias de polícia, as motivações, os desejos e os atravessamentos corpóreos dos garotos de programa, e mais do que tudo, a viscosidade das informações relativas a esse mundo. Victor Hugo se movimenta numa espécie de areia movediça, em que todas as informações são fluidas, se desencontram: viscosas, é como tudo aquilo que pretendesse assimilar como informação, como dado, se lhe escorresse pelos dedos.

Por isso, mais do que apresentar as informações, o autor se dedica a explicitar os limites delas, as contingências, as dificuldades em montar um panorama que se aproxime da verdade, do factual, quando tudo o que parece haver é apenas uma produção discursiva errática.

O aspecto da resistência deve ser enfatizado nesse trabalho. Particularmente, tenho implicado com o termo ‘resistência’. Acho que ele dá uma ideia de passividade, de ir se permitindo uma corrosão lenta, de reduzir o ritmo da sangria. O aspecto que quero enfatizar é outro. No mundo turbulento em que vivemos, em especial no que diz respeito à revanche conservadora que assola o país, o trabalho de Victor Hugo é o que se pode chamar de uma resistência ativa, porque nele está contida a produção de alguma coisa. Mais do que resistir, é preciso produzir, inventar. Esse trabalho, e sua publicação na forma de livro, é uma produção intelectual ativa: incomoda os reacionários, afronta o conservadorismo, se coloca politicamente de maneira marcada.

Nisso, gostaria de ressaltar o papel da Universidade, em especial o da UFF. Se Victor Hugo pôde fazer esse trabalho, é porque a Universidade lhe concedeu alguma liberdade na escolha do tema e na maneira de tratar o assunto. Certamente, seus professores o guiaram de maneira adequada na escolha dos referenciais metodológicos, mas a liberdade apresentada no texto (sem abrir mão do rigor técnico) parece refletir a proposta de uma universidade também livre.

Pode ser apenas um viés, ms tenho a impressão de que a UFF, em particular, se coloca num lugar de vanguarda nas cências humanas. Além deste, outros dois trabalhos sérios como o Museu de Memes e a dissertação de Mariana Gomes, “Minha pussy é o poder”, sobre a Valesca Popozuda, parecem apontar para o fato de que a UFF, talvez mais do que outras, está com suas antenas dirigidas à contemporaneidade. Esses trabalhos (tendo o de Victor Hugo, inclusive, sido publicado pela editora universitária) mostram uma Universidade viva, que entende e produz conhecimento sobre o que está acontecendo hoje, agora, nas diversas articulações do real.

Por último, vale a pena destacar o bom-humor. Entenda-se por bom-humor um certo misto de leveza e irreverência. Podemos começar pelo título. Mais do que seu papel de enunciar o conteúdo das páginas do interior do livro, a abordagem provocativa do título é também uma performance. Não é apenas um enunciado que descreve, mas um enunciado que faz, promove uma mudança no mundo (Jacques Derrida apresenta uma discussão interessante sobre os discursos, no seu livro ‘A farmácia de Platão’. De acordo com ele, os discursos podem descrever [algo, alguma coisa, alguém] ou agir sobre o mundo, performar; a palavra que descreve versus a palavra que faz.) A performance do título se evidencia no desdobramento do convite. Foi por causa dele (do título, do convite) que comprei o livro.

Depois, os inúmeros ‘causos’ que o pesquisador conta tendo observado as saunas vão se mostrando uma ferramenta interessante para montar o panorama pretendido. Anedóticos e muito divertidos, as histórias contadas quebram a monotonia das descrições dos espaços e das pessoas, bem como das necessárias articulações teóricas. Se toda escrita é, em si mesma, algo mortificada (em relação à vida real), as histórias contribuem para dotar o texto de uma vivacidade maior.

Destaco o seguinte trecho: “Durante o tempo de pesquisa ali, por exemplo, acompanhei um fato curioso. Um dos clientes, já octogenário, passou mal durante um programa com um dos boys. Ainda que um outro cliente, que era médico e que estava presente na casa naquele momento, tenha tentado reanimá-lo, ele veio a falecer. Toda a ação seguinte com a polícia foi feita rápida e discretamente, sem maiores prejuízos ou aborrecimento para os negócios da sauna.”

Sem dúvida, essa história contribui muito mais para entender as relações das saunas com as delegacias de polícia do que uma descrição, ainda que detalhada, de como elas ocorrem.

Para finalizar, devo dizer que Victor Hugo apresenta uma prosa inteligente, leve, bem articulada e bem posicionada politicamente. Definitivamente, uma obra cuja leitura vale a pena!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A revolta da camareira


No dia 04/10/2017, o jornal O Globo trazia uma reportagem que se intitulava ‘A revolta da camareira’. A matéria de página inteira era ilustrada por uma moça parda e sorridente que embalava nas mãos seu bebê de cerca de um mês de idade, e trazia o seguinte texto.

"Katielly Verônica da Silva está virando o Rio de Janeiro de pernas para o ar. A moça, nascida na comunidade do Borel, tem 25 anos recém-completos e foi camareira de motel pelos últimos três anos. Tendo começado no Hotel Rosa da Vila, no bairro do Sampaio, logo arrumou emprego no badalado Hotel VIPs, na Av. Niemeyer. Contudo, sua estada no Vidigal não durou muito tempo. “Era muito bom porque eu encontrava os jogadores de futebol e uns atores de novela também. Eu me sentia uma pessoa importante trabalhando lá, mas fiquei muito longe da minha família.” Por esse motivo, Katielly aceitou uma remuneração menor e uma vida mais distante dos famosos, e trabalhou por quase um ano no Hotel Corinto, na Tijuca. “Quem diria que trabalhando lá eu é que iria ficar famosa?”, provoca a morena. Morando com sua mãe, seu pai e seus dois irmãos na Rua São Miguel, na parte baixa da comunidade onde nasceu, Katielly foi alçada à fama nacional logo após sua demissão. “Eles não me quiseram, né? Aí eu tive que dar meu jeito.”, desabafa Katielly. Segundo a moça, sua demissão foi sem motivos. “Por corte de custos”, eles disseram. Foi nesse dia que Katielly teve a ideia que mudaria sua vida para sempre. “Foi uma coisa que veio assim, na hora. Uma ideia súbita mesmo. Se você me perguntar ‘Ah, mas por que você fez isso?’, eu não sei se eu conseguiria te responder. Acho que eu fiquei com raiva e queria fazer alguma coisa para extravasar. Daí, eu me lembrei que tinha uma amiga que era técnica de laboratório na Fiocruz e pensei: por que não?” Katielly, que não revela o nome da amiga, diz que fez tudo muito rápido. Ligou para ela, explicou a situação, e perguntou se ‘dava pra fazer’. A amiga disse que sim, desde que ela saísse de lá imediatamente e a encontrasse no laboratório. Após a resposta afirmativa da amiga, Katielly se preparou para a ação. Escolheu um quarto aleatório do Hotel Corinto e recolheu o sêmen que se depositava em cima da cama. Guardou o material no potinho vazio em que havia trazido sua marmita e, despedindo-se de todos, pegou um uber até a Fiocruz. “Eu não tinha dinheiro, mas fiquei com medo de não dar tempo se eu fosse de ônibus.”, disse a camareira. Chegando lá, dirigiu-se à sala de trabalho da amiga e perguntou sobre as técnicas de congelamento. Porém, como Katielly estava em seu período fértil, a amiga propôs que fizessem o procedimento imediatamente. “Nem precisou congelar. Ela pegou uma seringa descartável que ela tinha no laboratório, e fomos juntas ao banheiro. Foi lá que ela me introduziu o ‘material’”. Ao chegar em casa, Katielly ligou para a amiga e disse que estava nervosa e um pouco arrependida, mas esta lhe tranquilizou dizendo que era muito pouco provável que aquela loucura desse certo. O tempo, porém, provaria o contrário. Evangélica e sem namorado (e, segundo a própria, sem nenhum parceiro ocasional), Katielly viu sua menstruação cessar e sua barriga começar a crescer. “Eu custei muito a acreditar que aquilo tudo estivesse acontecendo. Mas não tive coragem de contar nem para os meus pais, nem para os meus amigos. Inventei uma história qualquer de um cara que eu conheci numa festa.” Ela guardaria esse segredo durante os nove meses de gestação. A verdade só viria à tona após o nascimento do seu filho, João Victor. “Quando ele nasceu, senti que era a hora de contar.”, disse a camareira. Entretanto, em vez de compartilhar sua intimidade apenas para os mais próximos, Katielly procurou uma emissora de televisão e literalmente se abriu durante um programa vespertino. Além da fama meteórica e do sucesso nas redes sociais, Katielly também ganhou um farto enxoval com roupas, fraldas e produtos cosméticos. Sobre a inescapável pergunta a respeito do pai da criança, a camareira revoltada parece ter uma resposta na ponta da língua: “Eu estou à procura de um grande amor, que me aceite do jeito que eu sou e que se dê bem com o João Victor. Pai é quem cria.” Sobre a última frase, essa parece não ser uma opinião compartilhada pelos homens desesperados que ligam para o Hotel Corinto todos os dias, pedindo cópias de recibos do cartão de crédito do mês de janeiro e exigindo filmagens da entrada dos carros no hotel, no fatídico dia. “A gente teve que colocar uma linha de telefone só pra isso.”, resmunga Irineu Valadão, gerente do hotel. Quanto à amiga de Katielly, a direção da Fiocruz emitiu uma nota na qual informou que “embora não tenha sido autuada judicialmente sobre o caso da autoinseminação artificial da camareira, permanece à disposição da sociedade para prestar os devidos esclarecimentos”."

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Mulheres de Gogó



Lúcia tristinha, um pomo-de-adão mal ajambrado que lhe veio na loteria da genética e que se só se mostrou na adolescência, aos treze anos, aquele caroço grande e intumescente como se fosse um peitinho nascido no lugar errado ou um desses casos de caxumba ou hipertireodismo, mas não: era mesmo o dito-cujo.

Tinha sempre de explicar aos outros que não era travesti, transex, quase-mulher. À época, morria de medo de se pensar como alguém que pudesse estar exposta em desgastados panfletos nos orelhões de Copacabana. Só saberia que o nome desse medo era preconceito muito tempo depois, mas não aos treze.

Tanto faz, tanto faz, sua mãe lhe dizia. Era na mãe que tinha de buscar apoio porque o pai era um senhorzinho bem carrancudo e avesso aos diálogos que tivessem algum grau de profundidade. Não se preocupe minha filha, tanto faz ter ou não ter isso aí que você tem na garganta, quem te ama não vai ligar pra isso, filhinha. E a mãe repetia, acolhedora, os mesmos argumentos repletos de clichês àquela menina jovem que só estava preocupada em ser exatamente como todo mundo, sem idiossincrasias.

Lulu Caroço, como passou a ser conhecida na escola, veio, por fim, a se locupletar dos movimentos sociais que faziam a cabeça e o corpo da garotada. Lulu Caroço teve de fazer a transição do luto à luta e, munida de termos como empoderamento, representatividade, combate à opressão, e outros de igual carga semântica, decidiu que seu papel na vida seria o de representar, junto ao movimento feminista, as mulheres com pomo-de-adão.

Era uma causa nobre. Mas era percebida como pouco séria no rolê. O movimento das mulheres de pinto (que é a forma como se colocavam internamente as travestis e transexuais no movimento) já tinha respaldo interno e endosso acadêmico. O das mulheres barbadas era uma corrente minoritária por entre as feministas mas, uma vez unido ao das mulheres que optavam por não se depilar, essa corrente ia conseguindo trilhar o seu próprio caminho.

O das mulheres-de-pomo-de-adão, então, era uma corrente completamente nova. Havia pouquíssimas mulheres nessa situação. Além de si mesma, Lulu Caroço só havia ouvido falar de uma mulher em Sergipe, duas em Alagoas, uma no Paraná e outra no interior de São Paulo na mesma situação. Tratava-se, literalmente, de meia dúzia de casos.

Instada por Lúcia Silva, sua homônima que atuava como uma das coordenadoras das pautas feministas descentralizadas, democráticas e absolutamente horizontais do Estado do Rio de Janeiro, seção Metropolitana IV, a abandonar a luta em defesa dos direitos das mulheres-de-pomo-de-adão e, pior, a unir-se à corrente das mulheres de pinto, Lulu Caroço disse não. Alegou que as pautas eram completamente diferentes daquelas das mulheres de pinto e, pior, acusou sua xará de querer silenciá-la e diminuir o valor da sua luta. Cadê a sororidade nessas horas?

Mas não era só dentro do movimento que as dificuldades apareciam. Lulu Caroço tinha muita dificuldade em explicar a sua luta para aqueles que estavam alijados das discussões que floresciam no seio dos movimentos. O que, afinal, Lulu Caroço reivindicava para si e suas cinco companheiras de infortúnio?

O primeiro ponto era justamente esse: o de que o pomo-de-adão feminino não fosse tratado como um infortúnio. Seria, antes, uma característica sem viés de positividade ou de negatividade. Lulu queria ser percebida como uma mulher normal.

Por outro lado, Lulu entendia que o pomo-de-adão era também um motivo de orgulho, e que não cabia às mulheres-de-pomo-de-adão o sacrifício de escondê-lo ou mascará-lo. Era um símbolo da sua singularidade e da sua feminilidade, e que dele deveriam ser vangloriar as portadoras.

Outra causa que assumiu foi a da mudança de nome: se o pomo ocorria em homens, mas ocorria também em mulheres, era razoável que não fosse chamado “de adão”. Proporia como uso corrente um nome de uso neutro. Inicialmente, pensou na asséptica alcunha de “proeminência laríngea”, nome científico da referida protuberância. Ao perceber a dificuldade de emplacar algo desse naipe, todavia, optou pela conhecida forma popular: “gogó”.

Foi assim que surgiu o “Mulheres de Gogó”. Formado inicialmente por Lulu Caroço e suas cinco companheiras, o movimento foi ganhando a adesão paulatina das mulheres de pinto. Inicialmente rechaçadas, as travestis e transexuais encamparam a luta de Lulu Caroço que, ao mesmo tempo, percebeu que sem elas seria difícil progredir, tanto nas trincheiras internas quanto na guerra de gêneros sangrenta que se travava lá fora.

À medida que o nome “Mulheres de Gogó” emplacava, foram entrando as lésbicas das mais variadas gradações, das menininhas às caminhoneiras, passando pelas sapatões clássicas. Elas acreditavam que o gogó poderia fazer referência ao timbre da voz, e que ter o timbre mais fino ou mais grosso era uma característica de cada mulher, e que devia ser respeitada.

Por fim, as outras mulheres, que não tinham proeminência laríngea, que não eram nem travestis, nem transexuais e nem lésbicas entenderam que o gogó era algo que deveria estar associado àquelas que têm, sim, o direito de falar, e que devem falar sempre para serem ouvidas e respeitadas, e que podem se expressar, e que jamais se calariam novamente. O gogó era uma arma de todas as mulheres.

“Mulheres de Gogó”, hoje um renomado bloco carioca, sai toda segunda-feira de Carnaval. A rua Viúva Lacerda, no Humaitá, já não dá mais vazão ao fluxo das foliãs, e elas estão em acordo com a Prefeitura para desfilar na própria Rua Humaitá. Depois de enredos clássicos como “Tem caroço nesse angu” e “Gogó boys”, o enredo para o ano que vem será “O caroço que a gente não quer”, sobre o câncer de mama.

Lulu Caroço, com cinquenta anos de idade e trinta e sete de militância, aguarda ansiosa pelo momento em que subirá no carro de som e proporá que as mulheres realizem um auto-exame coletivo das mamas, tudo bem coreografado no meio do bloco, no compasso da axé music.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Macunaíma do século XXI se chama Fátima


Para lá das águas turvas, depois das trilhas que saem do povoado em direção às florestas, dizem que há um grande tesouro. Fátima, que não é boba, foi até lá. Encontrou perigosos perigos, animais peçonhentos e bichos de fábula.
Em lá chegando, Fátima viu um pote dourado, e logo imaginou que deveria ser esse o pote que tanto procurava. Não era. Esse era apenas um pote dourado esquecido por um grupo de adolescentes da semana passada.
Depois, Fátima encontrou um pote muito pequeno, verde, com inscrições em uma língua estranha. Dentro do pote não havia nada. Ela olhou com mais calma e viu que logo abaixo das inscrições estava escrito ‘Made In China’.
Tupã apareceu um pouco depois na floresta, aquela cabeleira de altíssima condutividade elétrica. Fátima perguntou, ‘Oh, Tupã, que rege as águas, quedê o meu tesouro?’
E Tupã, que não era bobo, disse assim para Fátima: ‘Fátima, querida, eu sou Tupã, sou responsável aqui por reger os raios e os trovões. Quem cuida das águas aqui é a Ana, pergunte pra ela.’ ‘E onde posso encontrar Ana, oh Tupã, senhor da sabedoria?’ E Tupã lhe deu o endereço da Agência Nacional de Águas, em Brasília.
Lá chegando, Fátima perguntou pela Ana. Foi atendida por uma moça mulata e magra, chamada Estela. Estela, que não era boba, disse que a Ana não podia atender agora, mas que ela podia mandar os seus questionamentos para o Serviço de Atendimento ao Cidadão, através da Lei de Acesso à Informação.
E Fátima tirou do bolso o seu smartphone, e no teclado touchscreen fez um email-cartinha. ‘Oh, Serviço Todo-Poderoso que atende ao cidadão, fui informada de que é aqui que vocês podem me informar sobre o tesouro que tanto procuro’.
Quarenta e quatro dias depois, Fátima recebeu uma resposta do Isaías, técnico administrativo. Isaías, que não era bobo, foi logo logo tirando o seu da reta e disse assim pra Fátima: “Prezada Fátima, não podemos atender a sua solicitação. Seu protocolo é o 09627278. Quaisquer informações sobre o Tesouro Nacional devem ser tratadas pelo órgão competente, beijinho beijinho tchau tchau”
Aí a Fátima ficou fula da vida porque precisava mesmo do seu tesouro e não sabia que raios seria o órgão competente. Mandou pela antena parabolicamará um chamado em wifi para todos os povos da floresta que queriam saber do órgão competente pra achar o tesouro.
Tesouro vai, tesouro vem, plim-plim chega um e-mail da Gisela, que não era boba, dizendo pra ela “Aqui está o que você sempre quis saber, chega de farsas, clique aqui”. Claro que a Fátima clicou.
Aí o smartphone touchscreen wifi 3G da Fátima, que também não era bobo, tentou que tentou se esquivar dos vírus que a Gisela tinha mandado. E tentu fazer isso abrindo páginas e páginas aleatórias.
Só que deu um erro porque travou em uma página estranha. Dizia blablablá feitiço da ilha do pavão azul jacaratingonga joão ubaldo ribeiro michi-michi-michelê pois quem viu não fala nela e quem ouve falar não menciona a ninguém tching-rong-dan-dan encontro marcado em botafogo na terça-feira 24 para falar do tesouro.
Então que a Fátima, que não era boba, chamou todos os povos da floresta e também mandou um email pelo wifi pra Tupã e pra todos os povos da floresta porque ela decidiu ir. E a Fátima sabia que iam falar do tesouro dela, aí ela se ajeitou, colocou um perfume, decorou três versinhos e saiu de casa com pressa, meio sem saber se agora ela ia finalmente encontrar esse tal tesouro.

[texto escrito para o Clube da Leitura em 24 de março de 2015]

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Meio preto, meio árabe – as faces ocultas do preconceito e da opressão



Sou um brasileiro típico. Tenho a cara de todos os lugares e de lugar nenhum. Dessa forma, é muito fácil apontar para mim e dizer que pareço um indiano, um árabe, um boliviano, um egípcio. Sou fruto da mais profunda miscigenação brasileira. Sou tão profundamente brasileiro que tenho uma ancestralidade insondável: meus pais nasceram aqui, meus avós nasceram aqui. Dos meus bisavós, há uma memória remota, onde a memória e a vontade se confundem de forma bastante ardilosa: negros escravizados da África, índios, colonos antigos estabelecidos nas Minas Gerais e na Bahia, pretos forros, alguém remotamente português, mouros: ninguém sabe ao certo. Na minha família, somos todos frutos dessa terra chamada Brasil.

Tenho dois irmãos de mesmo pai e mesma mãe. No entanto, a genética, esse jogo de dados, fez com que nascêssemos todos com a mesma cara, porém com cores diferentes. Sou o mais preto dos três. Minha irmã é um pouco mais clara e meu irmão já bem mais claro, dos olhos cor de mel.

Ocorre que sou um preto de araque. Não fui premiado pela vida com uma cor e uma ancestralidade que me remeta de forma inequívoca aos meus ancestrais de Angola ou de Moçambique. Meu tipo, a minha cara, está sujeita a mudanças e nunca está pronta. A roupa que uso e a barba que escolho para viver meus dias me deixam mais paquistanês, mais iraniano, mais preto do sul da África ou mais marroquino.

Peço desculpas pelas possíveis falhas de ortografia, mas passa de uma da manhã: é tarde, eu vim de um bar, e embora as condições me conduzissem a um sono pesado e tranquilo, achei tão fundamental escrever esse texto que não pude deixar para depois.

Recentemente, tenho deixado a barba crescer de uma forma meio desordenada. Trata-se não mais do que uma vontade, um capricho, uma escolha estética. Desde que tomei essa decisão quanto à barba, tenho ouvido em tom de chacota coisas do tipo “cuidado ao entrar nos Estados Unidos”, “com essa cara você não entra na Europa”, etc. Essas chacotas são escrotas e babacas, de forma geral, e vou explicar mais adiante o porquê.

Sempre tenho um certo orgulho de ‘não ter sofrido preconceito na vida’. Sou preto, mas isso nunca foi muita questão para mim. Por ter passado uma vida inteira não sendo ‘tão preto assim’, fui vivendo à margem desse conflito. Ademais, também sou gay e vivo com meu companheiro, mas como sou muito pouco afeminado, vou levando uma vida em que todo o preconceito lançado contra mim vai sendo jogado para debaixo do tapete tão subrepticiamente que eu nem vejo.

Acabo de voltar de uma maravilhosa de Carnaval em Cuba. Foi um tempo incrível. Cuba é maravilhosa e convive de forma harmônica com seus paradoxos. Tenho para mim que faço post em breve sobre a experiência que tive na ilha, vamos ver se cumpro.

Por puro diletantismo, deixei a barba ir crescendo antes da viagem. Cheguei a uma barba que se podia cofiar, e o ato de cofiar a barba traduz como poucas coisas a expressão que quero transmitir às vezes. Minha ideia, inocente, era a e fazer a barba em Cuba, de preferência em um barbearia tradicional cubana, de forma que eu pudesse passar metade da viagem com uma barba à la Fidel e a outra metade com a barba mais ou menos comportada. Ao fim e ao cabo, foi bem isso o que aconteceu.

Chegamos em quatro no aeroporto de Havana. Eu, meu companheiro, e um casal de amigos (Joana e Pedro). Enquanto esperávamos na fila da imigração, um policial veio e nos abordou. Perguntou nossas intenções e Cuba (turismo) e nossas profissões (três engenheiros de produção e um médico). Pouco depois, quando Joana e Pedro já haviam passado pela imigração, uma outra policial nos abordou. Novamente perguntou as nossas intenções em Cuba (turismo) e se eu tinha nacionalidade turca ou árabe (não), se eu tinha parentes lá (não, não tinha) e que minha fisionomia se parecia com a deles (ao que eu disse que sim, apenas a fisionomia se parecia). Algum dos policiais certamente gravou meu nome e, embora eu não tenha disso parado na imigração, minha mala voltou com o fecho-eclair quebrado. A mala foi levemente revirada, e (evidentemente), não acharam nada demais, nada que não condizesse com um turista que passaria seis dias na ilha.

Até nem ia mencionar quando no voo São Paulo – Havana a aeromoça perguntou se eu comia presunto, ao que eu disse que, sim, que comia. Tenho cara de cidadão de país muçulmano, talvez. É phoda ter a cara de um lugar que não é o seu, passar por cidadão de um lugar que não te representa em absoluto.

O motivo desse post é que acabo de voltar de um bar, onde estava com meu companheiro, um amigo e uma amiga. Contamos essa história. O que ouvi do Gabriel (meu companheiro), após contá-la é que eu deveria ter feito a barba antes de entrar em um outro país, que eu cori um risco muito grande de passar por um interrogatório bizarro na imigração, etc. Esse discurso foi, em certa medida, corroborado pelos meus outros dois amigos que estavam no bar. Seguiu-se a isso um apontamento quanto ao fato de eu correr no Aterro do Flamengo sem documentos. Que eu corro riscos de ser achacado por policiais, de ser torturado, etc.

Existem casos que já vim em blogs de caras que foram interrogados ou presos enquanto corriam só por serem pretos. E de gente com cara de árabe ou com algum adereço muçulmano que foi parado no aeroporto e teve que ‘dar explicações’.

Embora a dimensão do ‘ser preto’ quase não apareça muito na minha vida, eu já fui parado pela polícia duas vezes. E por esse motivo. O post que conta essas histórias pode ser visto aqui. E a dimensão do ‘ser árabe’ aparece quando falam em turco comigo na rua, quando perguntam a minha procedência.

Essas pessoas com as quais eu estava no bar me amam muito. E fizeram esses comentários e me deram essas ‘dicas’ no intuito de me proteger, por não quererem que eu sofra.

Só que proteger também oprime.

É claro que eu não quero ser mártir de porra nenhuma. Eu adoro poucas coisas na vida quanto a condição de estar vivo, acho a vida incrível e mágica.

No entanto, dizer para que eu mantenha a barba feita é (quase) tão opressor quanto me revistarem no aeroporto porque eu deixei de fazê-la.

É pedir para que a filha não ande com uma saia muito curta, porque os lugares são perigosos. É pedir para que o filho não ande de mãos dadas com o namorado na rua porque a homofobia está violentíssima.

Entendo isso como uma forma enorme de amor, mas esse amor reforça as condições de opressão.
Eu não tenho que pedir desculpas a ninguém por ser preto. Eu não tenho que mudar os meus atos por ‘ter cara de árabe’ ou ter uma barba aparada por esse motivo.

De certa forma, é fácil para quem é branco pedir para que eu mude a minha aparência ou a minha conduta para que eu me encaixe num tipo de ordem que acham que eu devo seguir (e que, de fato, existe). Só que eu não posso ser outra coisa. Eu posso raspar a barba, cortar o cabelo de uma outra forma, mas eu continuo tendo ‘cara de árabe’, eu continuo sendo preto. Eu simplesmente não posso ser outra coisa, e portanto, não serei!

É claro que querem que eu sofra menos, que eu cora menos riscos, mas eu não tenho como não corrê-los. Eu corro mais riscos por ser preto. Só que eu não tenho como deixar de ser isso que eu sou. É claro que eu tenho cara de suspeito, mas toda suspeição é, nada mais nada menos, do que um aparato legal, mas ilegítimo, para que a as forças de ordem possam destilar seus preconceitos.

Eu até posso deixar uma barba curta, evitar usar roupas que me remetam ao mundo do crime ou que me façam ter ‘cara de bandido’, andar sempre com dinheiro e um comprovante de renda no bolso para mostrar que sou ‘cidadão honesto e trabalhador’.

Só que eu não quero pagar nenhum preço por ser preto, essa não é uma escolha que eu tenha feito e eu não vou pedir a desculpas a ninguém. Sim, eu corro mais riscos do que vocês brancos, mas a menos que eu me recuse a sair à rua, tenho que aceitar que sim, corro esses riscos.

E também tenho que aceitar e entender que essas coisas só vão parar quando as pessoas pararem de se sujeitar. Só vai ser possível que a mulher não precise alisar o cabelo para ir ao trabalho quando as mulheres, de fato, pararem de alisá-lo para ir ao trabalho. Se todo mundo ficar em casa ouvindo suas mães dizerem que ‘minha filha, se arruma direitinho pra trabalhar, penteia esse cabelo’, ou ‘filha, é feio para uma mulher ficar falada no bairro’, ou então, ‘filho, tudo bem você namorar o fulano, mas não beija em público não porque as pessoas são muito perigosas’, enfim, se todo mundo ficar nessa inércia de merda e nao jogar a realidade na cara das pessoas, vamos continuar achando que somos um país hétero-branco-masculino-cisgênero como as novelas da Globo fazem crer a qualquer pessoas que as assista em qualquer lugar do mundo.

Ser preto ‘não tão preto’, ser gay ‘não afeminado’, ter cara de árabe ‘de barba feita’, embora sejam todas coisas que pareçam naturais em mim, foram todas fruto de uma escolha completamente inconsciente, alimentados por medo e pelas neuroses mais diversas.

Assim como a sociedade não muda com uma canetada, a vida também não muda com um arroubo da vontade durante a madrugada. É claro que as coisas muito provavelmente continuarão sendo do jeito que são, mas conseguir enxergar a coisa e falar/escrever sobre a coisa é quase um atestado de que essa coisa realmente existe, de que ela está lá.

Digo isso porque a minha vontade nesse momento é a de recuperar em mim uma pretitude que se esconde em algum lugar que já não sei bem onde, ao mesmo tempo em que quero ser a bicha mais afeminada que eu conseguir ser. E claro, sair por aí com um turbante na cabeça.

Esse texto foi escrito num átimo, sem revisões. É quase duas e meia e eu preciso dormir. Agradeço a paciência dos que me leram até aqui.


A revolução que Cuba me trouxe, ao chegar no aeroporto de Havana, não foi comunista.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Eu não sou Charlie, eu não sou Ahmed, eu não sou ninguém



Vi em algum lugar e já não me lembro exatamente onde, tamanha a profusão de textos sobre o assunto, de que o Somos Todos Charlie tem uma certa semelhança com o “Somos Todos Macacos”, que surgiu aqui no Brasil no caso Daniel Alves, e que foi rapidamente vilipendiado pelos movimentos sociais. No entanto, à parte o fenômeno da rápida comoção das pessoas, e de eventuais mudanças de postura após esta rápida comoção, existe uma diferença entre os dois casos que talvez nos ajude a elucidar o que está acontecendo hoje, na França e no mundo.

Este elemento é a ausência de maniqueísmo. Enquanto no caso Daniel Alves existia uma clara noção de certo-e-errado, uma clara de noção de quem era o opressor e de quem era o oprimido, já não se pode dizer o mesmo no caso do atentado ao jornal francês.

Uma coisa que se viu naquele exemplo, e que não pode ser visto agora é a existência de um coro. Uma única voz em uníssono a dizer que éramos todos macacos, seguidos de uma outra voz, mais à esquerda, também um coro, a nos dizer que não, que não éramos. No caso de agora, pessoas à direita e à esquerda, ora dizem que são Charlie Hebdo, ora dizem que são Ahmed, o policial islâmico que morreu em decorrência do atentado. Não parece haver um consenso, em última instância, um coro, a guiar a massa de pessoas para um lado ou para o outro. De acordo com o que tenho visto (e cabe lembrar que cada um de nós tem acesso a um espectro da realidade, um percentil ínfimo; no nosso caso, que ainda estamos a um oceano de distância dos fatos, mais ainda), a sensação é de que as cartas na mesa do jogo político estão todas embaralhadas. A religião embaralhou a política.

No caso do Brasil, embora não tenhamos a questão muçulmana aparecendo de forma efetiva nos principais centros urbanos do país, temos também as nossas questões religiosas. Somos um país extremamente católico, temos um conjunto de evangélicos com grande representatividade no congresso (embora não representem todo o conjunto dos evangélicos), e religiões afro-brasileiras, além do crescente movimento ateu. E, por aqui, não, não podemos falar abertamente sobre religiões. Religião no Brasil é um tabu muito maior do que na França.

Nós somos o país que proibiu o desfile do Cristo Redentor no desfile da escola-de-samba Beija-Flor em 1989. Nós somos o país que tem medo dos ‘macumbeiros’ e os demoniza. Nós somos o país em que se declarar ateu é colocar em xeque a própria reputação e a própria dignidade. Ou, como diz o Laerte, o Brasil é o país em que o Hebdo não poderia existir. Nesse sentido, causa bastante estranheza que muitos brasileiros advoguem à favor da liberdade de imprensa quando qualquer piada com jesus cristo seria crucificada em terras tupiniquins (com trocadilho, por favor). É claro que todos condenam o atentado, a violência, etc. Mas em termos de liberdade de imprensa, tem muita gente por aí que é extremamente egoísta e só defende o ponto de vista da liberdade de imprensa porque se trata da religião do outro.

A discussão sobre o respeito às religiões é virtualmente infinito, de forma que não gostaria de me alongar sobre ele, até mesmo porque essa discussão está longe de ser o cerne da argumentação que pretendo desenvolver. O que deixo como minha opinião é de que toda religião é sim, profanável. Que eu não entendo exatamente porque todas as pessoas têm que ter respeito às religiões quando as religiões nem de longe têm respeito por todas as pessoas. Em última instância, acho que a profanação é um DIREITO de todas as religiões. Poder ser criticado significa ser reconhecido, ser percebido, estar no mundo, existir. Mas, enfim, embora eu seja a favor da liberdade da profanação, eu mesmo não as profano e as respeito todas. Sinceramente, mais por uma questão de convivibilidade do que por princípios. É importante ressaltar que ‘profanar’, da maneira que estou usando aqui, não tem a ver com incitação de ódio, tem a ver apenas com dessacralização. (ei, você! você pode não concordar com este parágrafo, mas por favor, continue lendo. :-] )

Mas essa questão religiosa da profanação é, na verdade, uma fatia de uma outra questão, maior: Que coisas podem ser ‘profanadas’? O que pode ser objeto de piada?.

A cultura brasileira assentou suas bases no humor de ódio, intolerância e deboche ao diferente, ao que fugia dos padrões, a tudo que era percebido como menor. Aí estão inclusos os negros, os gays, os índios, as religiões afro-brasileiras. Era o humor do opressor contra o oprimido. De uns dez anos para cá, com a popularização da internet e, especialmente, com a reverberação da voz dos movimentos sociais em decorrência das novas mídias, esse tipo de humor ‘politicamente incorreto’ passou a ser quase proibido, ao passo em que emergiu um novo tipo de humor de matiz oposta: o humor do oprimido contra o opressor. Esse tipo de humor que, no Brasil, sacaneia a Igreja Católica, os políticos, e gente muito rica (tipo o ‘Rei do Camarote’) fez e faz cada vez mais sucesso e muito disso se deve ao grupo ‘Porta dos Fundos’. Então, enquanto construímos nossa vivência histórico-cultural com charges do opressor contra o oprimido, hoje só vale o oposto, do oprimido contra o opressor.

E é nisso que reside a grande questão do problema. Enquanto há grupos, no Brasil, tradicionalmente opressores (Igreja Católica, homens brancos, latifundiários) e outros tradicionalmente oprimidos (negros, gays, quilombolas), o que se vê hoje, tanto no Brasil, quanto no mundo, a construção de um cenário onde esses modelos de ‘oprimido’ e ‘opressor’ podem não mais servir para enquadrar os grupos sociais.

É precisamente essa a questão das charges que retratam Maomé e do atentado ao Charlie Hebdo. O povo islâmico é AO MESMO TEMPO opressor, porque oprime suas mulheres e as relega a uma condição de dependência e subserviência aos homens (além de ser a religião dominante no planeta), e oprimido, porque ocupa um lugar periférico e marginal na composição da atual população europeia.

Ao mesmo tempo, os judeus, historicamente um povo oprimido, em especial se considerarmos a Segunda Guerra Mundial, pode ser visto também como um povo que oprime os palestinos (embora sempre haja outros pontos de vista). Se falarmos de grupos brasileiros, mesmo entre grupos historicamente oprimidos, podemos observar situações semelhantes. Mulatos oprimem pretos, gays oprimem trans. Mas mulatos são oprimidos por brancos, gays são oprimidos por heterossexuais. Onde, exatamente, está a relação de opressão entre ateus e evangélicos?

O fato é que as relações de opressão têm se tornado mais complexas. Isso se deve tanto ao empoderamento de grupos oprimidos quanto à dinâmica de formação e crescimento dos grupos sociais. As relações de opressão também têm a sua classe média, o seu nível gerencial (que recebe ordens do patrão e ordena ao empregado).

O que falar, então, do caso da polícia? A polícia, que no Brasil sempre é citada como um grupo extremamente truculento e opressora dos movimentos sociais, é também um grupo oprimido, de salários baixos. O Somos todos Ahmed é uma resposta interessante da sociedade francesa ao Somos todos Charlie. No entanto, essa polícia oprimida (e neste caso, ainda mais, por ser justamente um muçulmano) é exatamente a mesma polícia que, no dia seguinte, pode lançar bombas de efeito moral para dispersar uma manifestação (embora, na França isso fosse menos provável; mas mesmo assim, possível).

Enfim, esse texto termina de uma maneira inconclusiva, mas acho importante remeter ao título. Nessas horas, mais do que ser Charlie Hebdo, ou de ser Ahmed, é importante não ser essas coisas, mas pensar sobre essas coisas dentro de um mundo que dificilmente comporta respostas maniqueístas para as questões contemporâneas.

Por fim, creio que tal como nas manifestações de junho de 2013, só a história será capaz de entender exatamente o que aconteceu. Enquanto isso, exatamente como nas manifestações de junho de 2013 (que têm muito mais a ver com o atentado do que o Somos todos macacos), mais importante do que ter uma opinião de pronto é questionar, em primeiro lugar, a opinião que querem que você tenha.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Focas, pinguins e o conhecimento científico



Na última semana, a notícia de que focas estavam estuprando pinguins sacudiu a internet. À parte o fato deplorável de que alguns encontraram nesta notícia o subterfúgio que sempre quiseram para fazer piadas sobre o estupro de forma mais 'tranquila' e menos sujeita a julgamentos, e para além da notória bizarria que constitui o cerne da matéria veiculada, existe uma outra coisa que aparece quase nas entrelinhas de tão sutil, mas que vou tentar desenvolver aqui: a falibilidade do conhecimento científico.

O texto desta notícia, em suas várias nuances de acordo com o veículo de mídia, costumava apresentar ou no primeiro ou no último parágrafo um trecho como: "Cientistas estão intrigados com o fenômeno"; ou alternativamente: "Cientistas ainda não sabem explicar porque esse tipo de comportamento ocorre".

Cientistas estarem intrigados com o fenômeno é uma coisa ótima. Isto significa, no mínimo, que estes que foram citados na reportagem são bons cientistas. A segunda frase, entretanto, é aquela que traz o problema que ora abordo.

A raiz deste problema está na palavra "ainda". A existência desta palavra na reportagem traz consigo a seguinte mensagem: "Ora, trata-se de um fenômeno muito recente e que demanda muito estudo. Evidentemente, a ciência conseguirá explicar isto mais cedo ou mais tarde. Nossa impossibilidade de explicar o fenômeno é apenas momentânea."

Acredito que seria muito improvável que a matéria pudesse ser publicada sem que a palavra "ainda" estivesse na sentença. A frase "Cientistas não sabem explicar porque esse tipo de comportamento ocorre.", embora absolutamente verdadeira, frustraria não apenas os leitores mas também a própria comunidade científica, todos eles muito acostumados à ideia de que a ciência tem que dar conta de explicar todas as coisas.

Só que ela não vai.

Particularmente, até acredito que neste caso a ciência conseguirá explicar este fenômeno em breve. Mas pode ser que não consiga. Pode ser que este fenômeno, o estupro dos pinguins pelas focas, não tenha uma explicação científica. Ah, mas como assim? É, pode ser que não tenha. Quando um homem estupra uma mulher, isso não necessariamente tem uma explicação científica. Pode ter uma explicação psicanalítica, que não é ciência. Pode ter uma explicação espiritual/religiosa, que também não é científica. Em alguns casos, isso pode estar associado a um questão hormonal ou a alguma anomalia em uma região cerebral, o que, apenas nessa caso, teria a ver com o conhecimento científico.

A fé cega na ciência, e mais do que isso, achar que a verdade científica é a única verdade possível, é, senão burrice, ao menos ingenuidade. Os fenômenos, todos os fenômenos que acontecem, são dotados de uma tal complexidade, que olhar para eles sempre sob o mesmo prisma do conhecimento científico é nada menos do que reduzi-los a uma fração do que eles, de fato, são.

Essa estratégia de pensamento unilateral não é privilégio da ciência. Muitas religiões acreditam que todas as coisas podem ser explicadas por um livro sagrado (quando, é claro, não podem). Algumas linhas da psicanálise acham que tudo pode ser reduzido às pulsões sexuais (quando, é claro, não pode). Alguns economistas acham que a taxa de crescimento do PIB explica tudo quanto for relevante para a economia dos países, enquanto outros acham que a luta de classes é o grande conceito por trás de todas os fenômenos sociais (quando, na verdade, não são).

Não estou dizendo que não acho importante ter enfoques. Ao longo das nossas vidas, vamos escolhendo algumas formas de ver o mundo, sob alguns prismas, alguns ângulos. Isso é bastante razoável. Mas reduzir todas as coisas que existem a apenas uma única forma de olhar é não perceber que o mundo é mais complexo do que somos capazes de apreender.

Acreditar no método científico como única solução possível é um ranço do positivismo do século dezenove, que acha que os homens vão desenvolver a tecnologia até o ponto de domar a natureza por completo. É com certo espanto que vejo esse tipo de pensamento (que desembocou na eugenia e no conceito de raça superior) ser reproduzido ainda no século XXI. Não cabe mais achar que a natureza está lá parada, pronta para ser dominada e explicada pelos homens doutos e cultos. Não cabe mais achar que todas as coisas podem ser explicadas de uma única forma, seja a religião, a psicanálise, a economia ou a ciência. O mundo é plural, complexo, e nós não damos conta nem de nós mesmos muitas das vezes. É preciso admitir a própria ignorância.

Nessa linha, vou relatar uma experiência que tive. Eu não tenho religião. Não trabalho com o conceito de deuses ou divindades. No entanto, a postura presunçosa do ateísmo combativo que acha que deus não existe PORQUE a ciência é capaz de explicar todas as coisas foi me afastando da alcunha de "ateu" e me aproximando do termo "agnóstico". Hoje em dia, tenho me intitulado como "sem religião", o que evita desgastes e mal-entendidos nas relações quando o assunto vem à tona. Ser "sem religião" me exime de uma necessidade de explicar o mundo de forma unilateral e é por isso que a fé cega ateia na ciência me incomoda tanto.

Mas, retomando, sobre a experiência que tive, foi o seguinte. Certa vez, eu conversava com um colega (que já nem lembro mais quem era), e surgiu esse assunto sobre religião. "Ah, qual a sua religião?", ele perguntou, "Não tenho", respondi, "Sou ateu." Daí, este colega (que na ocasião acabei descobrindo ser bem religioso) me perguntou: "Ah, é, então como é que você explica quando a pessoa recebe um santo e muda completamente a aparência, voz, jeito, tudo? Você realmente não acredita que existem espíritos? Hein, como você explica isso?" Daí, respondi: "Não, eu não explico." "Ué, mas como assim? Você não sabe explicar isso então? Então você acredita ué." "Cara, eu não vim pra explicar nada. Eu não sei explicar isso como não sei explicar um monte de outras coisas. Tem muita coisa que eu não sei. E tudo bem não sabê-las." Ele ficou muito incrédulo e desconfiado com o fato de eu não ter um livro sagrado que desse conta de explicar o mundo, fosse ele a Bíblia, o Alcorão o Capital ou o livro do Stephen Hawking.

As pessoas não estão prontas para se assumirem ignorantes, para assumir que não sabem. E ficam lá esperando a ciência 'evoluir' para que possamos explicar porque existe um cometa que toca música ou porque focas estupram pinguins.

Acreditar que as coisas ainda não foram explicadas é, certamente, muito mais reconfortante do que aceitar que para algumas coisas (talvez para a maioria delas), não existe qualquer tipo de explicação.