sábado, 19 de abril de 2014

Como elaborar um curso de graduação em ciências humanas


1) Escolha termos amplos e genéricos, p. ex: História, Arte, Ciência, Filosofia.

2) Misture os termos entre si, dois a dois (e às vezes, até três a três) de forma aleatória: História da Filosofia; Filosofia da Ciência; Ciência da Arte; Filosofia da História da Arte;

3) Adicione marcadores temporais, como Medieval, Moderno, Contemporâneo; ou locais: Africano, Asiático, Russo, Brasileiro. O resultado será algo como: Filosofia da Ciência Brasileira; História da Arte Russa; História da Ciência Moderna Ocidental;

4) Coloque números, em geral, ordenados de 1 a 4, mas números grandes e fora de propósito como 11, 12 e 13, podem ser interessantes também. Números romanos dão um charme a mais. Teremos coisas como: História da Filosofia Contemporânea no Brasil IV, Arte Russa III, Filosofia da Ciência Sul-Americana I, etc...

5) Agrupe todos os termos gerados, sete a sete, em oito semestres, de forma mais ou menos aleatória. A única restrição é atentar para a ordem dos numerais: quando utilizar o mesmo termo com variações nos números, é conveniente, embora não obrigatório, colocar as disciplinas I antes das que são II, e assim por diante.

6) Voilà!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Encontros, desencontros e neuroses


Tenho uma certa admiração pelas pessoas cuja totalidade dos relacionamentos são formados por pessoas de círculos pessoais previsíveis: escola, trabalho, família, faculdade. Minha vida nunca foi assim. Naturalmente, conheci muita gente bacana e formei alguns amigos nesses lugares. Mas uma parte significativa das pessoas com as quais eu me relaciono ou já me relacionei são oriundas de encontros fortuitos: gente que eu conheci no Carnaval, na night, em rodas literárias. E essas pessoas trazem também os seus amigos ao meu convívio, o que amplia ainda mais as possibilidades de conhecer pessoas novas e legais. Quando percebo, voilà, fiz amizades a partir do nada.

Esse breve preâmbulo é só para externalizar a importância que eu dou aos encontros. Acredito que os encontros são, sim, obra de um mero acaso (como quase tudo nessa vida). Mas somos nós que decidimos o que fazer com esse acaso. (um pouco mais sobre os encontros, e sobre um deles que foi especialmente importante para mim, pode ser visto aqui).

Pois bem, vamos à história. Hoje, ao sair do trabalho após uma liberação antecipada em virtude do feriado da semana santa, decidi aproveitar um pouco desse tempo. Fiz uma massagem ayurvédica, viadagem com a qual muito raramente me presenteio, e depois decidi tomar um café.

Escolhi o Moinho Café, em Botafogo. Este café foi escolhido porque era especialmente perto, e e especialmente acolhedor. No primeiro quarteirão da Rua São Clemente, um letreiro com giz em frente a uma pequena porta de vidro estreita esconde um café de alma europeia: calmo, sóbrio, silencioso, com nível adequado de iluminação e música agradável em volume baixo. Somando-se isso tudo ao bom serviço e à cortesia dos atendentes, tem-se a impressão de que se paga um preço justo por qualquer coisa que se consuma por lá.

Sentei em uma mesa grande, sozinho, e fiz o pedido: um cappuccino e um augusto bolo de tâmaras.

Ao meu lado, estava sentado um casal que parecia não ter chegado muito antes de mim. Ela, branca, alta, os cabelos encaracolados tingidos de um vermelho intenso. Usava calça jeans com lavagem clara e uma camisa branca estampada, dessas que ficam razoavelmente folgadas na parte de baixo logo após o busto. Era bonita e jovem. Estimo 24 anos, mas aceitaria uma idade entre 20 e 27. Ele, baixo, ligeiramente nerd mas não muito, camiseta preta que parecia ser de alguma banda de rock mas não era; enfim, ele, personagem menos importante da história, ali apenas como contraponto à moça, para que ela tivesse com quem dialogar e o enredo pudesse vir à tona. Não eram casados; pareciam, antes, um casal de amigos de há muito.

Falavam sobre escrita. Ela morria de medo de ser rejeitada. Achava que todos os seus textos eram muito ruins. Ele argumentava que não, que ela escrevia muito bem, que era muito talentosa. Ela contra-argumentava dizendo que só os seus amigos (esse rapaz e mais um outro) haviam lido os textos dela, e que eles só achavam os textos bons por causa da amizade.

Pude notar rapidamente que ela tinha a autoestima muito baixa. Era muito pouco autoconfiante. Achava que não seria publicada e que, se fosse, não seria lida. E repetia a todo momento que seus textos eram muito ruins.

"Por que você os acha tão ruins?"
"Eu sei que são ruins."
"Mas qual o motivo que você tem para achar que seus textos são ruins."
"Eu apenas sei. É como perguntar para alguém que não gosta de camarão porque essa pessoa não gosta de camarão. Não existe uma razão, ela apenas sabe."
"Você tem uma falta de autoconiança muito destruidora."
"Pode ser. Na verdade, eu acho que eu escrevo como o Verissimo. São coisas curtas, mas eu acho que eu estou reinventando a roda, escrevendo o que já foi escrito."
"E daí? Nada se cria, tudo se copia. Você acha tudo que você escreve é ruim?"
"Acho que sim, a maior parte."
"Acho que falta para você uma prática do fazer. Você não se dedica a escrever. Você começa a escrever, acha ruim e pára. Só quando você começar a escrever mais, você vai se dar conta de que tem muita coisa boa e de que você vai melhorando aos poucos. Está faltando prática."
"Nem te falei, mas sobre isso aí, teve uma sessão de análise em que o meu analista perguntou assim: 'Se você se considera assim tão desprezível, porque valoriza tanto a própria opinião?'"
"É, eu acho que ele tem alguma razão, sim. 
"Cara, eu vou levar essa nossa conversa pro meu analista hoje."

Esse era o teor da conversa, com pequenas adaptações porque a memória não é de ferro. Mas além do teor da conversa, havia uma outra coisa relevante: a forma da conversa. Eles conversavam alternando entre o inglês e o português. E trocavam de idioma no meio da frase, às vezes. Achei aquilo simplesmente magnífico. Tão magnífico que eu até inventei uma memória de já ter esbarrado com eles uma outra vez (e pode até ter mesmo acontecido).

A minha vontade foi a de desempenhar o papel do estranho que se propõe a ser amigo: dizer que ela deveria, sim, continuar escrevendo; dizer que a escrita requer prática, e que ela não deve se exigir tanto; confortá-la, de alguma forma.

Meu ímpeto foi o de me chegar à mesa dos dois, pedir licença, dizer que ouvi a conversa deles durante todo esse tempo e me oferecer voluntariamente para ler os textos dela; dar a ela o meu e-mail e dizer-lhe para que me escrevesse e que eu tinha, sim, interesse; que se ela queria uma leitura anônima, isenta, de alguém que não a conhecesse, isso era exatamente o que eu tinha a oferecer; que ela poderia frequentar o Clube da Leitura junto comigo e que isso poderia dar a ela a real noção do quão boa ou ruim ela era em termos de escrita.

A partir daí, imagino que ela agradeceria e anotaria o meu e-mail. Talvez me enviasse alguns dos seus textos, talvez não. Certamente, na noite de hoje, ela teria uma sessão de análise com mais elementos para discussão. A longo prazo, pode ser que nos tornássemos grandes amigos, ou que eu me tornasse amigo do irmão dela; pode ser que eu fosse o padrinho do seu casamento daqui a oito anos, com o mesmo rapaz que a ouvia pacientemente ali, naquela hora.

Pedimos a conta simultaneamente. O garçom trouxe a máquina de cartão para ambas as mesas. Pagamos. Levantamo-nos juntos, os três. Chegamos à porta. Saí, primeiro. Imagino que eles tenham vindo logo após, mas não conferi. Muita coisa poderia ter sido após esse encontro, mas como não houve encontro, nada foi.

Travei absolutamente. Na verdade, ensaiei minha abordagem ao casal durante quase todo o tempo em que estive no café. O bolo e o cappuccino foram consumidos, inclusive, com certa ansiedade. Mas fui embora, travestido de anônimo dos ouvidos moucos.

Alguns motivos pesaram para que o desencontro não se transformasse num encontro. A leitura recém-completa de Dias Perfeitos, do amigo Raphael Montes, me deu um certo medo de entrar em contato com anônimos. A personagem principal do livro, Clarice, acaba por se envolver em uma série de enrascadas após dar trela a um desconhecido em um churrasco, que acaba por se revelar um psicopata de marca maior.

Outro motivo, mais concreto, é de que eu não estou com tanta disponibilidade interna, a ponto de abrir espaço na minha vida para uma desconhecida que, de antemão, sei que é neurótica à beça e tem sérios problemas de autoestima.

Mas o terceiro motivo, o mais concreto de todos, é que realmente foi a pá de cal para que eu desistisse de vez de estabelecer qualquer contato. Permiti-me fazer a mim mesmo a seguinte pergunta: "Ora, e se os textos dela fossem realmete ruins?" Era uma possibilidade. Haveria, mesmo, uma possibilidade de que os amigos só estivessem ali para confortá-la e que ela, de fato, fosse uma péssima escritora.

Agora imaginem a situação. Chego para ela e me ofereço como leitor voluntário; constato que os textos são uma merda. Eu a confortaria com mentiras, fazendo coro com a desonestidade do restante dos seus amigos? Ou eu diria a verdade na cara dela? "Olha, de fato, seus textos são mesmo muito ruins. Você já pensou em trabalhar como cantora? De repente, você poderia fazer arquitetura, administração, veterinária, sei lá, vender artesanato na praia; mas como escritora, acho mesmo que você não tem nem técnica nem talento." Nesse caso, a menina que já é problemática poderia ter o destino da sua saúde psíquica alterada por mim, o anônimo. E se ela entrasse em uma crise de depressão profunda? E se ela se matasse? A culpa seria minha, afinal, por ter entrado na vida dela de forma tão pouco clara e tão pouco cuidadosa com seus sentimentos?

A verdade é que fui criando tantos senões, tantas possibilidades nessa rede de tramas confusas a respeito do futuro, que não consegui fazer o que sempre fiz: permitir-me aos encontros. Isso reflete em mim, evidentemente, uma certa maturidade e uma busca de maior solidez nas relações. Isso tudo se mistura a um certo grau de aversão ao risco que começa a surgir, agora que cheguei nos 27 e os vinte-e-poucos vão ficando para trás.

Esse discurso etário e de aversão ao risco, se vocês sacaram, é um disfarce, um eufemismo para dizer que o tamanho da neurose só aumenta com o tempo. Fiquei algumas linhas julgando aqui a menina, coitada, mas a verdade é que não sei dizer se, de fato, sou menos neurótico do que ela.

Torço pela moça, no final das contas. Torço para que se permita, para que escreva mais, para que empenhe mais esforços em resolver as suas questões internas. A conversa dela, completamente alheia às possibilidades do entreouvido, abre caminhos a outras sessões de análise, conversas de bar, julgamentos e identificações. E também a uma crônica, quem diria, mais ou menos como as do Verissimo.



[esse texto foi escrito no dia 17 de abril; a postagem foi feita no dia seguinte, sexta-feira santa, por razões de conveniência ao autor]

segunda-feira, 31 de março de 2014

Do nascimento


- Quando nasci, um anjo esbelto disse: vai, Igor
- ... ser gauche na vida.
- Não, ele não disse isso, não. Isso quem disse foi o anjo do Drummond.
- Ué, o que ele disse então?
- Só disse isso: "vai, Igor"
- Só? Ele não te mandou ser bom, não disse "desce e arrasa", não disse que você deveria carregar bandeira, nada disso?
- Não. Ele só disse "vai, Igor". E dizendo isso, me deu dois tapinhas nas costas, um pontapé, e, sem mais delongas, me expulsou do céu.


[estou lírico. acho que é o meu aniversário de 27 anos que se aproxima. :) ]

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Vergonha Alheia



A contemporaneidade nos presenteia o tempo inteiro com coisas, conceitos e sentimentos novos. É sabido que a cada geração ficamos mais egoístas (mais egóicos mesmo), mais nos achando o último trakinas do pacote, mais superficiais, mais rápidos. Sim, o tempo passa e é evidente que as pessoas, individualmente, e em grupo, vão mudando.

E uma dessas coisas que tem surgido recentemente, e que a cada vez ganha contornos maiores, é isso a que chamamos vergonha alheia.

A vergonha é um sentimento que acompanha a humanidade há muito tempo. A vergonha da própria genitália, que é uma das primeiras vergonhas conhecidas pelo homem, alastrou-se e cresceu muito nas sociedades cristãs. Dessa vergonha primeva, vieram o pudor e o recato, o excesso de roupas, a moral, os ritos da côrte, e uma série de outras coisas (naturalmente, não com uma causalidade tão direta quanto coloco aqui; há muitos outros fatores além da vergonha que contribuíram para essas estruturas). Não dá nem para dizer que esse é um sentimento ruim, já que é algo que nos acompanha há tanto tempo, e está intrinsecamente arraigado a cada um de nós.

No entanto, existe uma mudança rápida em curso, que altera a forma como lidamos com esse sentimento. Sempre sentimos vergonha de nós mesmos: por termos feito ou falado bobagem, por estar com uma roupa inadequada, por ter uma voz esganiçada, enfim, por estar fora dos padrões de alguma forma.

Mas chegou a vez da vergonha alheia. Isto significa que eu sinto vergonha de algo que não diz respeito a mim. Tenho vergonha pelo que os outros estão fazendo. A roupa do outro é que está inadequada, o penteado do outro é que está feio, é o outro que está fora dos padrões, e isso passa a me dizer respeito de alguma forma.

Esse é um sentimento extremamente nocivo e perigoso. Em primeiro lugar, porque ele não existe. Ninguém sente, de fato, vergonha por uma outra pessoa. O que as pessoas fazem, o tempo todo, é julgar as outras pessoas, e transformar, apenas no discurso, seus próprios conceitos e preconceitos em “vergonha alheia”. Trata-se, em última instância, de um grande eufemismo.

A vergonha alheia parece mostrar também que, por mais modernidade que tenhamos, somos essencialmente os mesmos nos últimos dois mil anos: seres que julgam o tempo inteiro, e que se preocupam demais com a vida dos outros. A revolução francesa, a cubana, a chinesa, a feminista, a digital: nada disso foi capaz de mudar a grande força moral que paira sobre a humanidade; é como se o homem não tivesse conseguido se libertar.

Ainda temos medo do ridículo, e por isso nossas próprias vergonhas; ainda somos preconceituosos, por isso a vergonha alheia.

Eu me sinto esquisito todos os dias (todos os dias!) quando vejo pessoas que dizem ter vergonha alheia por causa da Miley Cyrus dançando Wrecking Ball, por causa do rolezeiro que quer colocar aparelho colorido nos dentes, por causa daquele menino que é super afetado e fala com trejeitos femininos.

Juro que não consigo mesmo entender essa necessidade de julgar os outros. A cada dia, tenho mais certeza (se é que se pode tê-las nessa vida) de que devemos deixar as pessoas livres para ser o que elas quiserem, para fazerem o que elas quiserem, da forma delas, do jeito delas, com as roupas e os cabelos delas. SET THEM FREE!

Se eu posso pedir uma coisa, o pedido é: POR FAVOR, PAREM. Em vez de olhar o tempo todo para os outros, talvez seja a hora de olharmos um pouco mais para nós mesmos, na ideia de recuperar aquela vergonha antiga (a própria), e poder sacar o quanto somos ridículos fazendo essas coisas. E se julgar, e se questionar, e se propor a melhorar. De si para si. E os outros, ah, os outros que entendam e questionem a si mesmos.


Aos que tentarem a mudança, vocês verão o quanto é libertador saber que a única vida com a qual você precisa se preocupar é a sua!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais quente – Crítica



Como toda crítica que se preze, esta também funciona como o prefácio de um livro: é melhor que se leia após a deglutição da arte.

Quando começaram a subir os créditos, achei que o filme deveria se chamar apenas “Adèle”. Foi com algum espanto que percebi que o nome original do filme é “La vie d’Adèle”, e que nos venderam em terras tupiniquins como “Azul é a cor mais quente”. Achei uma péssima escolha de nome, naquela hora. Porém, ao chegar em casa e pensar com mais calma, acho que foi uma escolha acertada.

Estou com “Azul é a cor mais quente” até agora remoendo na minha cabeça. Vi esse filme há mais de vinte e quatro horas: já fui a uma festa, já trabalhei, já dormi, e o filme não para de ganhar complexidade, a cada vez que me lembro. Por isso, portanto, a necessidade de escrever sobre ele.

O filme conta a história de uma menina chamada Adèle, de 15 anos, que vive uma experiência homossexual com uma mulher mais velha, que está do meio para o final de um curso de Belas Artes, chamada Emma. Há cenas tórridas de sexo entre elas, e imagino que a maior parte das críticas não tenha conseguido sair muito dessa discussão.

Não vou dizer que a cena de sexo entre as duas protagonistas é um detalhe, porque não é. Mas está longe de ser o ápice do filme, como se tem querido apontar. Aliás, é quase um crime querer apontar alguma cena ou algum momento que possa ser definido como o ápice do filme.

“Azul é a cor mais quente” é um filme que dura três horas, e que não tem uma cena sequer de excesso. Aém disso, o roteiro do filme segue uma estrutura de tempo escrutinadamente linear.

Ora, como pode, portanto, um filme longo, linear, e sem clímax definido ser um filme bom? Pois, então: o somatório desses elementos, que tem de tudo para ser algo extremamente chato, é transformado em algo simplesmente maravilhoso pelo diretor Abdellatif Kechiche.

Aponto dez elementos que contribuem, na minha opinião, para tornar este filme uma obra-prima:

  1. a beleza das atrizes; inegavelmente, a protagonista Adéle (Adèle Exarchopoulos) e seu par, Léa Sydoux, são lindas, com destaque para a primeira.

  2. a capacidade de contar uma boa história; o roteiro é simples: a vida e os conflitos de uma jovem, dos seus 15 aos seus 22 (acredito que seja esta a idade final da personagem), mas contada de uma forma que não nos faz querer desgrudar da tela; isso tem um pouco a ver com próximo item.

  3. o efeito Big Brother; Adèle vai se tornando alguém que a gente conhece de forma íntima. A personagem, que é muito tímida no início, vai tendo sua personalidade desvelada de forma simultânea para os espectadores e para os personagens. Esse processo é extremamente bem construído.

  4. a leveza na passagem do tempo; o tempo corre durante uns sete anos, mais ou menos, na vida de Adèle. E isso é feito sem cortes bruscos de temporalidade. A escola aparece, depois começa a aparecer o trabalho. Os personagens vão entrando e saindo da vida da protagonista, de forma muito rápida, mas também muito natural. Esse processo de mudança dos círculos de amigos é muito comum na vida das pessoas, em especial das mais jovens, o que tem a ver com o próximo item.

  5. a verossimilhança; os eventos no filme são extremamente verossímeis. Exceto algumas vezes, em que acontece algum evento maior (conhecer uma pessoa diferente, conseguir um emprego), a maior parte da vida acontece com alguns acontecimentos cotidianos, mas sem grandes sobressaltos. Na maior parte dos filmes, sempre tem muita coisa acontecendo. Esse é um filme que sustenta bem as três horas de duração, sem o excesso e a condensação de grandes eventos amotinados uns sobre os outros, mas com o ritmo de acontecimento dos eventos narrativos suficientes para manter uma história interessante;

  6. o hiperrealismo e a ausência de uma cinematografia fácil; muitos filmes são verossímeis, mas poucos são tão hiperrealistas como “Azul é a cor mais quente”. Acho que consigo explicar esse tópico através de exemplos. Há uma cena em que Adèle fica confusa com sua sexualidade e vai chorar no quarto. Em um filme de cinematografia fácil, rapidamente entraria alguém no quarto perguntando “O que houve?”, ao que a menina responderia “Não, não é nada.” Ou então, contaria o que estava acontecendo. Nesse filme, como muito provavelmente aconteceria na vida real, a menina fica no quarto sozinha no quarto remoendo suas mágoas, e não vem ninguém sequer procurar por ela ou saber se está tudo bem. Em uma outra cena, mais para o final do filme, quando as duas protagonistas terminam o romance, Emma é extremamente agressiva com Adèle e a chama de puta para baixo, expulsando-a de casa. Em uma cena três anos depois, as duas conseguem ter uma conversa em que são cordiais, (Emma está até levemente doce), mas não reatam o relacionamento. Um filme de cinematografia fácil não resistiria a um happy end ou a um revival, ou, por outro lado, teria feito uma cena carregada no rancor e na raiva, o que embora funcionasse como elemento estético e narrativo, estaria distante da realidade. O grau de rancor, de raiva e de melancolia conrresponde de forma exata aos três anos de separação das protagonistas, e exageros para um lado ou para o outro, poderiam dotar o filme de mais ação e mais ‘clima’, mas haveria uma perda grande de realismo.

  7. a estética; a fotografia do filme é linda. E a luz levemente estourada nas cenas ao ar livre, em oposição à nitidez das cenas de sexo, faz com que o filme seja um deslumbre visual. É um filme magistralmente belo.

  8. a naturalidade das cenas de sexo; sexo é bom, todo mundo faz, mas isso não costuma ser mostrado na tela. O diretor, em sua opção pelo realismo, mostra o sexo de forma natural (ok, ainda que exagerada na estética para ser mais bonito do que realmente é) acontecendo várias vezes (como acontece com a maior parte dos jovens). O grande mérito, na minha opinião, além de mostrar as cenas de sexo em si, é colocar na tela o lugar que a nudez e o sexo realmente devem ocupar, que é o da naturalidade.

  9. a repetição não-repetida; muitos podem discordar neste ponto, mas apesar de haver algumas cenas que se repetem, trata-se de uma repetição não-repetida, que contribui para dar fluidez à história. Por exemplo, há dois jantares de família, uma com os pais de cada uma delas. Poderia ter havido apenas um deles, mas a oposição entre os estilos de jantares e a posição de cada uma frente aos seus pais e aos pais da outra é relevante para entender como elas estruturaram sua personalidade. Esse é um caso em que o possível excesso não fica tão evidente. Mas há um conjunto de cenas, perto do fim, em que se mostram pelo menos quatro vezes o trabalho de Adèle com as crianças do jardim de infância. Em duas delas, ela está fazendo ditado com as crianas, em outra ela está na praia em uma espécie de colônia de férias, em outra ela está colocando as crianças para dormir no berçário. Precisa de tantas cenas assim? Na minha opinião, sim. As cenas do trabalho de Adèle servem para mostrar o quanto essa atividade ocupa o seu tempo real e o seu tempo simbólico de forma cada vez mais marcante, à medida que o filme avança. Essa proporcionalidade entre o tempo dado aos espectadores sobre um assunto e o tempo (real e simbólico) desse mesmo assunto na vida de Adèle é muito interessante. Isso não parece ser fácil de manejar, em especial se considerarmos o esforço para que sejam criadas estas repetições não-repetidas.

  10. o pragmatismo e a decadência dos sonhos; é lindo trabalhar com arte: poético, romântico. No filme, Emma sofre muito para conseguir expor, e ter sucesso, apesar de seu talento. Adèle ignora convites para ser escritora (e escolhe ser professora primária), tem dificuldades para opinar e se posicionar em um discurso chatíssimo sobre a arte, diz que vai a Nova Iorque e acaba não indo. Um dos personagens desiste de ser ator e vai para o ramo imobiliário. Muitos diretores (muitos mesmo) teriam optado pela glamourização da arte (até porque vivem este mundo) e teriam transformado Adèle em uma escritora de sucesso em Nova Iorque. Mas como esse é um filme ‘que nem parece filme’ e o diretor é suficientemente corajoso, o misticismo em torno da arte e dos sonhos da juventude vai se desvanecendo entre projetos não-concluídos e o pragmatismo da vida cotidiana.

  11. o título; esse décimo primeiro item vai de lambuja, porque o título em português, acredito, não foi uma escolha do diretor. Mas quando afirmo que os tradutores fizeram uma boa escolha, estou pensando que o azul da cor do cabelo de Emma mantém o filme mais ‘quente’. Tão logo ela pinta o cabelo de loiro, assume uma identidade mais madura. Esse amadurecimento pode simultaneamente ser visto em Adèle. A partir desse momento, o relacionamento das duas começa a degringolar, e o filme começa a caminhar para o seu final mais maduro, mais melancólico, mais ‘frio’, por assim dizer, em oposição à juventude e à possibilidade de se manter o cabelo pintado de azul, como visto na primeira metade do filme.
Bom, por esses 11 motivos, estou até agora digerindo o filme: seus diálogos, seus sentimentos, suas nuances. Há muito tempo, não me sinto tão tocado por alguma obra artística a ponto de sentir uma necessidade grande de escrevê-la (mais ou menos como fiz aqui). Aliás, há muito tempo que não escrevo, e me sinto um pouco renovado com esse texto aqui. Espero que esse azul também lhes provoque de alguma forma;


Azul é a cor mais inquietante. E a mais maravilhosa!


Feliz 2014 a todos!


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Morta


Estúpido há de ser o teu mel
amargo. Estúpida tua estupidez
estúpida. Tua burra gravidez
amaldiçoo. Leva teu troféu,

teu rei na barriga. Há de vir do céu
a pena pra tamanha mesquinhez
ou da mão dos homens justos. Talvez
te deem o passaporte pro bordel,

prostíbulo. Volta, filha da puta,
escrota, vade retro picareta
que nunca deveria ter saído

do buraco. Tua arma, essa buceta,
vai parir teu rebento desvalido
pra regares alegre a tua cicuta.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carapuças



Esse aí da foto sou eu. Essa é a minha foto de perfil no facebook, na qual estou vestindo minha própria carapuça. O mote desse texto é a chatice na qual esse tal de facebook tem se transformado. Não que eu não goste do facebook: pelo contrário, eu adoro. Mas adoro menos a cada dia que passa.

Uma das grandes vantagens das redes sociais, para quem as conheceu no início, era poder compartilhar as coisas com algum grau de liberdade de pensamento, de sentimento e, sobretudo, de expressão. O orkut, nos idos de 2004, era um grande descampado, não tinha nada nem ninguém: uns gatos pingados aqui, outros acolá. E algumas pessoas anônimas entre si (raramente havia alguém conhecido) que iam compartilhando suas impressões e suas visões de mundo nos scraps e nas comunidades.

Existia uma certa cumplicidade entre os membros daquela proto-rede. Era um sentimento gostoso de poder falar o que se queria sem muitos freios, existia uma tolerância e uma margem muito grande para desabafos, confissões, medos e angústias compartilhadas. Mas o ponto que eu quero chegar é: existia uma margem grande para se falar dos outros. Da vida dos outros, da raiva que se sente dos outros, da inveja que se tem dos outros (e da que os outros têm de você). Podia-se falar numa boa da vida que está lá fora. As redes funcionavam como válvula de escape.

É lógico que não se precisa ter vivido a "Era do Orkut" para entender o que eu estou falando. Essa onda de liberdade existiu no início da migração do orkut para o facebook. Existe até hoje razoavelmente no twitter. Existe com algumas restrições em blogs (que já cruzam a fronteira das redes sociais e se constituem essencialmente como outra coisa). E essa coisa do "poder dizer" existe também de forma muito marcante na vida real. Vou dar um exemplo: você tem um segredo para contar. Coisa séria, da sua vida pessoal, que ninguém pode saber (um intercurso sexual de gosto duvidoso, uma traição, um flerte com gente casada, uma admiração pelo Jota Quest, ser de direita, etc.). Tente responder rapidamente: "Qual é a melhor pessoa com a qual essa informação pode ser compartilhada?" A resposta, ao menos para mim, vem ligeira: "Um completo desconhecido, ué!". A vantagem dos completos desconhecidos da vida virtual em relação aos da vida real são várias. Contar um segredo para alguém numa fila de banco pode ser ótimo. Mas contar um segredo para alguém que more a uns 400 km de distância, e que tem um gosto muito parecido com o seu para livros, filmes e músicas, pode ser melhor ainda. Daí, uma opção razoável era ter um grupo de "amigos anônimos", que viam a sua vida, liam suas coisas, se interessavam, opinavam, discutiam. Cheguei a ter "amigos anônimos" muito próximos.

Mas à medida que o tempo vai passando, sua vida virtual vai ficando cada vez mais difícil de ser descolada da sua vida real. À medida que você opta por manter suas opções reais e verdadeiras de nome e sobrenome nas grandes redes, as pessoas vão te achando. O google vai indexando você a tudo que já foi dito ou visto na web. Sua vida vai se tornando um livro aberto, e tudo bem. Nunca tive problemas em relação ao velho-novo clichê de "a vida ser um livro aberto". Meu facebook tem todas as fotos desbloqueadas (assim como o orkut também tinha). Quem não me conhece pode ver o que eu posto, ler as minhas coisas, está tudo aí. Imagino que se algo não deva ser compartilhado ou não deva ficar atrelado ao meu nome, essa coisa simplesmente não está lá, não existe virtualmente.

O problema é que a gente acaba caindo no paradoxo do livro aberto (aqui sim é, de fato, aonde que queria chegar). Quanto mais aberto é o livro, menos coisas tem nele, e menos interessante ele se torna.

Ficou puto no trabalho? Quer matar o seu professor / orientador? Disse alguma coisa para os seus alunos e se arrependeu? Teve uma crise de ciúmes por causa do melhor amigo dele(a)? Guarde para você. Os seus colegas de trabalho, seu orientador, seus alunos, os amigos do seu (sua) namorado(a), estão todos, TODOS, no facebook.

Blablablá, configure sua privacidade, blablablá... Não vai adiantar. A internet está aparelhada. Você está o tempo todo sendo vigiado e controlado na sua vida virtual pelas pessoas da sua vida real. As últimas coisas legais, no que diz respeito às outras pessoas, que consegui compartilhar, foram sobre um taxista preconceituoso e sobre uma massagista que desmarcou comigo em cima da hora. Histórias boas, ótimas, mas que só puderam ser contadas porque NINGUÉM ali tem o contato daquele taxista nem daquela massagista. Apenas duas das talvez trezentas histórias interessantes que eu poderia contar, mas que vão ricochetear em pessoas que existem também em versão online.

E mesmo assim, a gente tem que aproveitar enquanto pode. Cruzando-se e sincronizando-se os dados de gps, celular, local, horário GMT, etc, em breve vai ser possível que eles, os anônimos da vida real, saibam quando alguém os toma como assunto. O antigo "minha orelha está coçando, sinal de quem tem alguém falando de mim" pode ser substituído em breve por uma notificação no smartphone confirmando que, sim, naquele momento tem mesmo algum completo desconhecido falando sobre você.

Menos sinceridade e menos posicionamento político, menos opinião; mais joguinhos, mais páginas impessoais e divertidinhas de humor: é isso que o facebook está se tornando. É muita gente, cada vez mais gente, e esse excesso de conexão entre as pessoas vai atravancando o que quer que se tenha de relevante para se dizer. Com isso, o que nos resta a fazer é ver o facebook (e, por extensão, toda a vida virtual) se transformando em um molho rosé aguado, cópia meio aquarelada e chata da vida real que é feita de pimenta e mostarda. O lado bom disso tudo é que essa chatice funciona como uma catapulta de volta à vida real, às mesas dos bares com poucos e bons amigos, aos encontros na casa das pessoas, aos arquivos em Word "para consumo próprio" que não serão compartilhados nunca; uma catapulta de volta às boas relações, com os outros e consigo mesmo.

Ah, as carapuças? Pois é, as carapuças, quase que me esqueço delas. Uma das formas de fugir das armadilhas da vida virtual seria contar meio-não-contando, contar omitindo os nomes, ou reduzindo os fatos ao não-identificável. Contar omitindo os nomes é quase um tiro no pé, dependendo do que se queira contar. E contar algo pela metade, ou não-dizer dizendo, sempre dará margem a pessoas que tomam para si algo que não foi dito para elas: e estão gerados os famosos mal-entendidos. Experimente colocar alguma coisa dúbia no facebook. Por exemplo, escreva simplesmente "ódio!". O que você vai ver é um bando de gente que não se contenta com informação pela metade. E vai ter uma outra parte (menor, mas ainda considerável) que vai mostrar de alguma forma que "entendeu o recado", seja através de comentários no post, mensagem privada ou ações na vida real. É muita gente vestindo a carapuça.

Só que na vida real, é muita carapuça para pouca cabeça