segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais quente – Crítica



Como toda crítica que se preze, esta também funciona como o prefácio de um livro: é melhor que se leia após a deglutição da arte.

Quando começaram a subir os créditos, achei que o filme deveria se chamar apenas “Adèle”. Foi com algum espanto que percebi que o nome original do filme é “La vie d’Adèle”, e que nos venderam em terras tupiniquins como “Azul é a cor mais quente”. Achei uma péssima escolha de nome, naquela hora. Porém, ao chegar em casa e pensar com mais calma, acho que foi uma escolha acertada.

Estou com “Azul é a cor mais quente” até agora remoendo na minha cabeça. Vi esse filme há mais de vinte e quatro horas: já fui a uma festa, já trabalhei, já dormi, e o filme não para de ganhar complexidade, a cada vez que me lembro. Por isso, portanto, a necessidade de escrever sobre ele.

O filme conta a história de uma menina chamada Adèle, de 15 anos, que vive uma experiência homossexual com uma mulher mais velha, que está do meio para o final de um curso de Belas Artes, chamada Emma. Há cenas tórridas de sexo entre elas, e imagino que a maior parte das críticas não tenha conseguido sair muito dessa discussão.

Não vou dizer que a cena de sexo entre as duas protagonistas é um detalhe, porque não é. Mas está longe de ser o ápice do filme, como se tem querido apontar. Aliás, é quase um crime querer apontar alguma cena ou algum momento que possa ser definido como o ápice do filme.

“Azul é a cor mais quente” é um filme que dura três horas, e que não tem uma cena sequer de excesso. Aém disso, o roteiro do filme segue uma estrutura de tempo escrutinadamente linear.

Ora, como pode, portanto, um filme longo, linear, e sem clímax definido ser um filme bom? Pois, então: o somatório desses elementos, que tem de tudo para ser algo extremamente chato, é transformado em algo simplesmente maravilhoso pelo diretor Abdellatif Kechiche.

Aponto dez elementos que contribuem, na minha opinião, para tornar este filme uma obra-prima:

  1. a beleza das atrizes; inegavelmente, a protagonista Adéle (Adèle Exarchopoulos) e seu par, Léa Sydoux, são lindas, com destaque para a primeira.

  2. a capacidade de contar uma boa história; o roteiro é simples: a vida e os conflitos de uma jovem, dos seus 15 aos seus 22 (acredito que seja esta a idade final da personagem), mas contada de uma forma que não nos faz querer desgrudar da tela; isso tem um pouco a ver com próximo item.

  3. o efeito Big Brother; Adèle vai se tornando alguém que a gente conhece de forma íntima. A personagem, que é muito tímida no início, vai tendo sua personalidade desvelada de forma simultânea para os espectadores e para os personagens. Esse processo é extremamente bem construído.

  4. a leveza na passagem do tempo; o tempo corre durante uns sete anos, mais ou menos, na vida de Adèle. E isso é feito sem cortes bruscos de temporalidade. A escola aparece, depois começa a aparecer o trabalho. Os personagens vão entrando e saindo da vida da protagonista, de forma muito rápida, mas também muito natural. Esse processo de mudança dos círculos de amigos é muito comum na vida das pessoas, em especial das mais jovens, o que tem a ver com o próximo item.

  5. a verossimilhança; os eventos no filme são extremamente verossímeis. Exceto algumas vezes, em que acontece algum evento maior (conhecer uma pessoa diferente, conseguir um emprego), a maior parte da vida acontece com alguns acontecimentos cotidianos, mas sem grandes sobressaltos. Na maior parte dos filmes, sempre tem muita coisa acontecendo. Esse é um filme que sustenta bem as três horas de duração, sem o excesso e a condensação de grandes eventos amotinados uns sobre os outros, mas com o ritmo de acontecimento dos eventos narrativos suficientes para manter uma história interessante;

  6. o hiperrealismo e a ausência de uma cinematografia fácil; muitos filmes são verossímeis, mas poucos são tão hiperrealistas como “Azul é a cor mais quente”. Acho que consigo explicar esse tópico através de exemplos. Há uma cena em que Adèle fica confusa com sua sexualidade e vai chorar no quarto. Em um filme de cinematografia fácil, rapidamente entraria alguém no quarto perguntando “O que houve?”, ao que a menina responderia “Não, não é nada.” Ou então, contaria o que estava acontecendo. Nesse filme, como muito provavelmente aconteceria na vida real, a menina fica no quarto sozinha no quarto remoendo suas mágoas, e não vem ninguém sequer procurar por ela ou saber se está tudo bem. Em uma outra cena, mais para o final do filme, quando as duas protagonistas terminam o romance, Emma é extremamente agressiva com Adèle e a chama de puta para baixo, expulsando-a de casa. Em uma cena três anos depois, as duas conseguem ter uma conversa em que são cordiais, (Emma está até levemente doce), mas não reatam o relacionamento. Um filme de cinematografia fácil não resistiria a um happy end ou a um revival, ou, por outro lado, teria feito uma cena carregada no rancor e na raiva, o que embora funcionasse como elemento estético e narrativo, estaria distante da realidade. O grau de rancor, de raiva e de melancolia conrresponde de forma exata aos três anos de separação das protagonistas, e exageros para um lado ou para o outro, poderiam dotar o filme de mais ação e mais ‘clima’, mas haveria uma perda grande de realismo.

  7. a estética; a fotografia do filme é linda. E a luz levemente estourada nas cenas ao ar livre, em oposição à nitidez das cenas de sexo, faz com que o filme seja um deslumbre visual. É um filme magistralmente belo.

  8. a naturalidade das cenas de sexo; sexo é bom, todo mundo faz, mas isso não costuma ser mostrado na tela. O diretor, em sua opção pelo realismo, mostra o sexo de forma natural (ok, ainda que exagerada na estética para ser mais bonito do que realmente é) acontecendo várias vezes (como acontece com a maior parte dos jovens). O grande mérito, na minha opinião, além de mostrar as cenas de sexo em si, é colocar na tela o lugar que a nudez e o sexo realmente devem ocupar, que é o da naturalidade.

  9. a repetição não-repetida; muitos podem discordar neste ponto, mas apesar de haver algumas cenas que se repetem, trata-se de uma repetição não-repetida, que contribui para dar fluidez à história. Por exemplo, há dois jantares de família, uma com os pais de cada uma delas. Poderia ter havido apenas um deles, mas a oposição entre os estilos de jantares e a posição de cada uma frente aos seus pais e aos pais da outra é relevante para entender como elas estruturaram sua personalidade. Esse é um caso em que o possível excesso não fica tão evidente. Mas há um conjunto de cenas, perto do fim, em que se mostram pelo menos quatro vezes o trabalho de Adèle com as crianças do jardim de infância. Em duas delas, ela está fazendo ditado com as crianas, em outra ela está na praia em uma espécie de colônia de férias, em outra ela está colocando as crianças para dormir no berçário. Precisa de tantas cenas assim? Na minha opinião, sim. As cenas do trabalho de Adèle servem para mostrar o quanto essa atividade ocupa o seu tempo real e o seu tempo simbólico de forma cada vez mais marcante, à medida que o filme avança. Essa proporcionalidade entre o tempo dado aos espectadores sobre um assunto e o tempo (real e simbólico) desse mesmo assunto na vida de Adèle é muito interessante. Isso não parece ser fácil de manejar, em especial se considerarmos o esforço para que sejam criadas estas repetições não-repetidas.

  10. o pragmatismo e a decadência dos sonhos; é lindo trabalhar com arte: poético, romântico. No filme, Emma sofre muito para conseguir expor, e ter sucesso, apesar de seu talento. Adèle ignora convites para ser escritora (e escolhe ser professora primária), tem dificuldades para opinar e se posicionar em um discurso chatíssimo sobre a arte, diz que vai a Nova Iorque e acaba não indo. Um dos personagens desiste de ser ator e vai para o ramo imobiliário. Muitos diretores (muitos mesmo) teriam optado pela glamourização da arte (até porque vivem este mundo) e teriam transformado Adèle em uma escritora de sucesso em Nova Iorque. Mas como esse é um filme ‘que nem parece filme’ e o diretor é suficientemente corajoso, o misticismo em torno da arte e dos sonhos da juventude vai se desvanecendo entre projetos não-concluídos e o pragmatismo da vida cotidiana.

  11. o título; esse décimo primeiro item vai de lambuja, porque o título em português, acredito, não foi uma escolha do diretor. Mas quando afirmo que os tradutores fizeram uma boa escolha, estou pensando que o azul da cor do cabelo de Emma mantém o filme mais ‘quente’. Tão logo ela pinta o cabelo de loiro, assume uma identidade mais madura. Esse amadurecimento pode simultaneamente ser visto em Adèle. A partir desse momento, o relacionamento das duas começa a degringolar, e o filme começa a caminhar para o seu final mais maduro, mais melancólico, mais ‘frio’, por assim dizer, em oposição à juventude e à possibilidade de se manter o cabelo pintado de azul, como visto na primeira metade do filme.
Bom, por esses 11 motivos, estou até agora digerindo o filme: seus diálogos, seus sentimentos, suas nuances. Há muito tempo, não me sinto tão tocado por alguma obra artística a ponto de sentir uma necessidade grande de escrevê-la (mais ou menos como fiz aqui). Aliás, há muito tempo que não escrevo, e me sinto um pouco renovado com esse texto aqui. Espero que esse azul também lhes provoque de alguma forma;


Azul é a cor mais inquietante. E a mais maravilhosa!


Feliz 2014 a todos!


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Morta


Estúpido há de ser o teu mel
amargo. Estúpida tua estupidez
estúpida. Tua burra gravidez
amaldiçoo. Leva teu troféu,

teu rei na barriga. Há de vir do céu
a pena pra tamanha mesquinhez
ou da mão dos homens justos. Talvez
te deem o passaporte pro bordel,

prostíbulo. Volta, filha da puta,
escrota, vade retro picareta
que nunca deveria ter saído

do buraco. Tua arma, essa buceta,
vai parir teu rebento desvalido
pra regares alegre a tua cicuta.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carapuças



Esse aí da foto sou eu. Essa é a minha foto de perfil no facebook, na qual estou vestindo minha própria carapuça. O mote desse texto é a chatice na qual esse tal de facebook tem se transformado. Não que eu não goste do facebook: pelo contrário, eu adoro. Mas adoro menos a cada dia que passa.

Uma das grandes vantagens das redes sociais, para quem as conheceu no início, era poder compartilhar as coisas com algum grau de liberdade de pensamento, de sentimento e, sobretudo, de expressão. O orkut, nos idos de 2004, era um grande descampado, não tinha nada nem ninguém: uns gatos pingados aqui, outros acolá. E algumas pessoas anônimas entre si (raramente havia alguém conhecido) que iam compartilhando suas impressões e suas visões de mundo nos scraps e nas comunidades.

Existia uma certa cumplicidade entre os membros daquela proto-rede. Era um sentimento gostoso de poder falar o que se queria sem muitos freios, existia uma tolerância e uma margem muito grande para desabafos, confissões, medos e angústias compartilhadas. Mas o ponto que eu quero chegar é: existia uma margem grande para se falar dos outros. Da vida dos outros, da raiva que se sente dos outros, da inveja que se tem dos outros (e da que os outros têm de você). Podia-se falar numa boa da vida que está lá fora. As redes funcionavam como válvula de escape.

É lógico que não se precisa ter vivido a "Era do Orkut" para entender o que eu estou falando. Essa onda de liberdade existiu no início da migração do orkut para o facebook. Existe até hoje razoavelmente no twitter. Existe com algumas restrições em blogs (que já cruzam a fronteira das redes sociais e se constituem essencialmente como outra coisa). E essa coisa do "poder dizer" existe também de forma muito marcante na vida real. Vou dar um exemplo: você tem um segredo para contar. Coisa séria, da sua vida pessoal, que ninguém pode saber (um intercurso sexual de gosto duvidoso, uma traição, um flerte com gente casada, uma admiração pelo Jota Quest, ser de direita, etc.). Tente responder rapidamente: "Qual é a melhor pessoa com a qual essa informação pode ser compartilhada?" A resposta, ao menos para mim, vem ligeira: "Um completo desconhecido, ué!". A vantagem dos completos desconhecidos da vida virtual em relação aos da vida real são várias. Contar um segredo para alguém numa fila de banco pode ser ótimo. Mas contar um segredo para alguém que more a uns 400 km de distância, e que tem um gosto muito parecido com o seu para livros, filmes e músicas, pode ser melhor ainda. Daí, uma opção razoável era ter um grupo de "amigos anônimos", que viam a sua vida, liam suas coisas, se interessavam, opinavam, discutiam. Cheguei a ter "amigos anônimos" muito próximos.

Mas à medida que o tempo vai passando, sua vida virtual vai ficando cada vez mais difícil de ser descolada da sua vida real. À medida que você opta por manter suas opções reais e verdadeiras de nome e sobrenome nas grandes redes, as pessoas vão te achando. O google vai indexando você a tudo que já foi dito ou visto na web. Sua vida vai se tornando um livro aberto, e tudo bem. Nunca tive problemas em relação ao velho-novo clichê de "a vida ser um livro aberto". Meu facebook tem todas as fotos desbloqueadas (assim como o orkut também tinha). Quem não me conhece pode ver o que eu posto, ler as minhas coisas, está tudo aí. Imagino que se algo não deva ser compartilhado ou não deva ficar atrelado ao meu nome, essa coisa simplesmente não está lá, não existe virtualmente.

O problema é que a gente acaba caindo no paradoxo do livro aberto (aqui sim é, de fato, aonde que queria chegar). Quanto mais aberto é o livro, menos coisas tem nele, e menos interessante ele se torna.

Ficou puto no trabalho? Quer matar o seu professor / orientador? Disse alguma coisa para os seus alunos e se arrependeu? Teve uma crise de ciúmes por causa do melhor amigo dele(a)? Guarde para você. Os seus colegas de trabalho, seu orientador, seus alunos, os amigos do seu (sua) namorado(a), estão todos, TODOS, no facebook.

Blablablá, configure sua privacidade, blablablá... Não vai adiantar. A internet está aparelhada. Você está o tempo todo sendo vigiado e controlado na sua vida virtual pelas pessoas da sua vida real. As últimas coisas legais, no que diz respeito às outras pessoas, que consegui compartilhar, foram sobre um taxista preconceituoso e sobre uma massagista que desmarcou comigo em cima da hora. Histórias boas, ótimas, mas que só puderam ser contadas porque NINGUÉM ali tem o contato daquele taxista nem daquela massagista. Apenas duas das talvez trezentas histórias interessantes que eu poderia contar, mas que vão ricochetear em pessoas que existem também em versão online.

E mesmo assim, a gente tem que aproveitar enquanto pode. Cruzando-se e sincronizando-se os dados de gps, celular, local, horário GMT, etc, em breve vai ser possível que eles, os anônimos da vida real, saibam quando alguém os toma como assunto. O antigo "minha orelha está coçando, sinal de quem tem alguém falando de mim" pode ser substituído em breve por uma notificação no smartphone confirmando que, sim, naquele momento tem mesmo algum completo desconhecido falando sobre você.

Menos sinceridade e menos posicionamento político, menos opinião; mais joguinhos, mais páginas impessoais e divertidinhas de humor: é isso que o facebook está se tornando. É muita gente, cada vez mais gente, e esse excesso de conexão entre as pessoas vai atravancando o que quer que se tenha de relevante para se dizer. Com isso, o que nos resta a fazer é ver o facebook (e, por extensão, toda a vida virtual) se transformando em um molho rosé aguado, cópia meio aquarelada e chata da vida real que é feita de pimenta e mostarda. O lado bom disso tudo é que essa chatice funciona como uma catapulta de volta à vida real, às mesas dos bares com poucos e bons amigos, aos encontros na casa das pessoas, aos arquivos em Word "para consumo próprio" que não serão compartilhados nunca; uma catapulta de volta às boas relações, com os outros e consigo mesmo.

Ah, as carapuças? Pois é, as carapuças, quase que me esqueço delas. Uma das formas de fugir das armadilhas da vida virtual seria contar meio-não-contando, contar omitindo os nomes, ou reduzindo os fatos ao não-identificável. Contar omitindo os nomes é quase um tiro no pé, dependendo do que se queira contar. E contar algo pela metade, ou não-dizer dizendo, sempre dará margem a pessoas que tomam para si algo que não foi dito para elas: e estão gerados os famosos mal-entendidos. Experimente colocar alguma coisa dúbia no facebook. Por exemplo, escreva simplesmente "ódio!". O que você vai ver é um bando de gente que não se contenta com informação pela metade. E vai ter uma outra parte (menor, mas ainda considerável) que vai mostrar de alguma forma que "entendeu o recado", seja através de comentários no post, mensagem privada ou ações na vida real. É muita gente vestindo a carapuça.

Só que na vida real, é muita carapuça para pouca cabeça

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Bicicletas



As pessoas na TV e nos jornais ficam propalando a bicicleta como o supra-sumo (ou já seria o suprassumo?) da modernidade. Para ser moderno, antenado, descolado e formador de opinião, você tem que ter uma bicicleta. E de preferência ir ao trabalho com ela. E de preferência morando e trabalhando na Zona Sul. Esse tipo de gente sai na Revista O Globo de domingo.

À parte o fato de não ser branco o suficiente para sair na revista (nem suficientemente preto para entrar na ‘cota negão’ desse hebdomadário), confesso que tem vezes em que me esforço para ser esse cara moderno, antenado, descolado e formador de opinião. Embora a cada dia também menos jovem, o que se configura como um requisito extra, nos outros aspectos satisfaço os requisitos: tenho uma bike, moro e trabalho na zona sul, fui ao trabalho duas vezes de bicicleta. Faltou também uma profissão moderninha como designer, roteirista ou estilista, mas eu não estou aqui para falar das idiossincrasias desse jornal nosso de cada dia (cuja política eu analiso aqui). Vim para falar das bicicletas.

Existe uma coisa que pouca gente fala: o banho. O banho é um tabu. As pessoas de bike suam. E como elas fazem? Não é todo lugar que tem vestiário. E mesmo que tivesse... Tomar banho fora de casa é sempre bastante desconfortável. Você tem que levar seu aparato-higiene (sabonete, xampu, toalha, desodorante, etc). E também uma roupa nova. Ou seja, você tem que levar um peso a mais do que você levaria. E ainda tem aquele clima de ‘vestiário de academia’ que é sempre detestável.

Sempre existe a opção de não tomar banho também. Inclusive, há locais para os quais se vai que não dispõem de vestiário. Se não tiver, ok. Mas se tiver e você optar por não tomar banho, prepare-se para coçar os ouvidos: todos te chamarão de porquinho pelas costas. Mas tendo ou não tendo vestiário, o ônus do ciclista que opta por não tomar banho é: ter que lidar com o próprio suor.

Ambientalmente correto? Sei. No dia em que pensei em vir de bike, mas optei pelo ônibus, pensei (novamente) no banho. Se eu chegar lá e tiver que tomar um banho, será que minha pegada hídrica compensa?

A verdade é que não somos Amsterdam. E não seremos nunca. Vivemos em um país tropical. Essa lógica de ‘bicicleta por todo lado’ funciona bem para quem sai de casa no Leblon e vai pra PUC ou quem sai da Tonelero para ir à praia. Para grandes distâncias, isso tem que ser melhor pensado.

É lógico que bicicleta é legal para um ou outro, eu mesmo adoro! Mas achar que a bicicleta vai ser a solução para o problema viário das cidades é o mesmo que acreditar que a agricultura orgânica e agroecológica vai ser a solução para a produção e o consumo de alimentos no mundo.

Temos poucas ciclovias. Andar na rua é ainda perigoso. Eu moro no Catete e trabalho na Gávea: é longe. Ter que carregar tralhas como capacetes e equipamentos de segurança, além de novas roupas, quando convier, é outro problema.

Outra coisa que me deixa MUITO PUTO são essas MOTOCICLETAS que andam nas ciclovias. São veículos motorizados que deveriam ser proibidos de andar na ciclovia. A tal da bicicleta elétrica e suas variações: lambretas, patinetes e não-sei-mais-o-quê. Sinto-me aviltado quando esses monstros andam em uma faixa que explicitamente é para veículos não-motorizados. Sem contar que também ainda estou pra ver qual é a vantagem: você não pedala (e portanto, não sua). Ok, chega limpinho no trabalho, mas o benefício da bike não é justamente o de se exercitar enquanto se locomove? E essas porcarias NÃO SÃO AMBIENTALMENTE CORRETAS. As baterias carregáveis dessas bicicletas contém metais muito pesados, cuja produção, manutenção e descarte são extremamente nocivos ao ambiente.

Além disso, nossos bicicletários também não são seguros. Sei lá. Deixei minha bike dormir na rua de ontem pra hoje, no bicicletário da FGV, na rua Barão de Itambi. Cara, levaram meu banco e ainda tem uma estaca de madeira presa na minha tranca, sinal de que tentaram tirar minha bike da tranca e levar minha bicicleta. A gente perde a fé na humanidade, sabe. Eu acredito tanto nos homens. Sério, mais do que raiva, eu sinto um profundo desgosto às vezes de acreditar que tem uma galera que faz isso na maior.

Sem falar nas faixas compartilhadas, que poderiam ser uma coisa ótima se as pessoas fossem menos ignorantes. Transformaram esse pedaço da Pacheco Leão até o Baixo Gávea (o paredão do Jardim Botânico) em uma ‘faixa compartilhada’. Como tem muito poucos pedestres nessa calçada (dentre os quais, me incluo), as pessoas passam de bicicleta achando que isso é uma pista expressa. E são grossas, rudes, acham que o erro seu de estar andando na calçada.

Sei lá. Talvez eu repensasse uma série de coisas que estou dizendo aqui. Mas a verdade é que esse lance de roubarem meu selim me deixou meio azedo. E acabei fazendo esse post na contramão.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Por que o CEFET/RJ não vira UNIRIO?




Em primeiro lugar, quero deixar claro que este é meu blog pessoal, portanto, dentro do que se pode esperar em termos de indissociabilidade, essas opiniões não são do Igor professor do CEFET/RJ, e sim do Igor ex-estudante e que tem um carinho grande pela instituição. Essa é uma visão pessoal, portanto; jamais institucional.

Pois bem: para quem não acompanha essa novela há muito tempo, a história é a seguinte: o CEFET/RJ pleiteia há pelos menos dez anos a sua transformação em UTFRJ, Universidade Tecnológica Federal do Rio de Janeiro. No governo Lula, o modelo CEFET foi deixado de lado em detrimento do modelo IFET, Institutos Federais de Educação Tecnológica, que prioriza cursos técnicos e licenciaturas. Todos os CEFETs do Brasil viraram IFETs, exceto três: os do Rio de Janeiro, do Paraná e de Minas Gerais. O CEFET do Paraná virou UTFPR, modelo hoje perseguido pelos CEFETs do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, que continuam sendo CEFETs, os únicos do Brasil.

Nesses CEFETs, a graduação é destaque, de forma que se torna inviável adotar um modelo que priorize licenciaturas e cursos técnicos. Em especial no caso do Rio de Janeiro, a graduação se fortaleceu muito nos últimos quinze anos, com a criação de vários cursos de engenharia, além de programas de pós-graduação. Vale lembrar que os egressos desses cursos de engenharia no Rio não têm dificuldade de se estabelecerem no mercado e a qualidade dos mesmos é facilmente percebida por quem os contrata.

Mas por que o CEFET quer tanto virar Universidade Tecnológica? Em primeiro lugar, o impacto psicológico: quem é do CEFET/RJ sabe que tem um peso enorme estudar em um lugar que comece com U. É sério. Em segundo lugar, a questão da autonomia universitária, da contratação de professores, da criação de novos cursos e da ampliação geográfica da atuação universitária, tudo isso fica cada vez mais difícil à medida que o CEFET/RJ continua operando em um modelo antigo, no qual não se recebem nem os benefícios relativos ás Universidades, tampouco aqueles relativos aos IFETs. Vive-se um estrangulamento político que faz com que se torne muito difícil que os CEFETs do Rio de Janeiro e de Minas Gerais continuem sua trajetória de excelência em ensino, pesquisa e extensão, e isso não é segredo para ninguém.

A solução, óbvia, é transformar o CEFET/RJ em UTFRJ. Simples, não? Não! O MEC tem deixado claro que não quer esse caminho para o CEFET/RJ nem para o CEFET/MG. É lógico que a luta tem que continuar e tem que haver pressão em cima desta alternativa, por parte dos alunos e dos professores.

Mas é preciso olhar a questão com um pouco mais de calma, de forma a tentar entendê-la e pensar em soluções alternativas (é isso que nós, engenheiros, estamos acostumados a fazer). Em primeiro lugar: por que, afinal, o MEC não quer transformar os CEFETs em Universidades? Vamos olhar para os estados. Minas Gerais e Rio de Janeiro  são os estados com a maior quantidade de universidades federais do Brasil. O estado de Minas Gerais tem, acreditem, 11 universidades federais. Além das mais conhecidas como UFMG e UFJF, existem também algumas menos conhecidas como a UNIFAL (Alfenas), UFLA (Lavras), UFU (Uberlândia), etc... No Rio de Janeiro, somos um estado de proporções mínimas e temos 4 universidades federais,. dentre as quais a maior do país: UFRJ, UFF, UFRRJ, UNIRIO. Imagino que a pergunta que o MEC deve estar se fazendo ao recusar a proposta de transformação dos CEFETs em UTFs é: “Será que cabe mais uma universidade federal nesses estados?”.

Pensando nisso, foi que tive a ideia: Por que o CEFET/RJ não vira UNIRIO em vez de UTFRJ? Esta pergunta provocativa do título do post é uma opção que até agora, não vi ninguém considerar.

Se olharmos para as quatro federais do Rio, vamos ver que a UNIRIO é praticamente o complemento do CEFET/RJ: são fortes em humanidades, artes e sociais aplicadas, mas têm pouquíssimos cursos de caráter tecnológico. A única engenharia que eles têm é a engenharia de produção com foco em inovação e criatividade, que não formou nem a primeira turma ainda.

Se o CEFET/RJ fosse absorvido pela UNIRIO, não seria preciso criar mais uma universidade federal no estado, o que aumenta as chances de aprovação pelo MEC. Além disso, cria-se uma UNIRIO mais forte, com direcionamento também para a parte tecnológica.

Os únicos cursos que há em comum entre as duas universidades é o de administração (mas na UNIRIO é Administração Pública e no CEFET/RJ é Administração Industrial) e o de Engenharia de Produção (no CEFET/RJ, sem ênfase; na UNIRIO, com ênfase em criatividade). O curso da UNIRIO poderia ser transformado em Engenharia da Inovação e serem mantidos os corpos docentes de ambas. O mesmo valeria para os cursos de Administração.

Passaríamos a ser o Campus Maracanã da UNIRIO. O Campus Maria da Graça poderia ser a Escola UNIRIO, na qual poderia haver algum modelo de integração entre a formação de licenciados da atual UNIRIO e as aulas dadas na Escola.

Algumas disicplinas optativas da graduação poderiam ser de livre escolha (existentes em outros cursos) tal como é hoje na UFRJ. Dessa forma, o estudante da engenharia poderia fazer uma matéria interessante na Biblioteconomia, ou fazer aulas de canto e violão.

Para quem não sabe, a UNIRIO é uma faculdade relativamente recente e foi formada pela união das Faculdades Isoladas do Rio de Janeiro. Então, a Faculdade de Medicina do Rio (a primeira do Rio), uma Faculdade de Direito e algumas outras se juntaram, e criou-se a universidade. Portanto, para a UNIRIO, a ideia de acoplamento e fusão não é nada nova: é a essência da criação da própria universidade.

Naturalmente, é um processo que burocraticamente não é fácil e tem um custo, inclusive político (condensação de estrutura conduz a um enxugamento de cargos, o que pode fazer com que aqueles que têm cargos hoje no CEFET fiquem meio receosos de perdê-los...). Mas acho que esse custo de mudar ainda é menor do que o custo de permanecermos exatamente como estamos.

O mesmo acontece com o CEFET/MG e acredito que deve haver uma solução parecida de acoplamento, considerando alguma das onze universidades federais de que o estado dispõe.

Algumas pessoas podem argumentar que o CEFET/RJ é uma instituição centenária, de reconhecida excelência, e que é importante ser reconhecido como UTF, etc, etc, etc... Sei que nossa excelência não está no nome (já fomos ETN, ETF, CEFET...), e sinto que esse é o momento de uma mudança radical na estrutura do CEFET.

Eu também quero UTFRJ, caso seja possível. Mas parece não ser. E olhando para o problema de uma outra forma, pensei nessa solução alternativa. Pode ser que isso tudo não passe de um enorme devaneio, mas a cada vez que olho para o problema, mais fico convencido de que essa é uma solução viável e muito boa.

Decidi compartilhar isso, em primeiro lugar, porque acho que as ideias devem ser compartilhadas. Além disso, ainda não falei disso com quase ninguém, e estou querendo sondar a repercussão dela, e principalmente ouvir uma contra-argumentação ou algo que demonstre o quanto isso pode ser absurdo e não-factível. Porque, na boa, já estou começando a achar que virarmos UNIRIO seria até melhor do que virarmos UTFRJ...

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nordeste do Brasil - via Embrapa


Estive durante dez dias no Nordeste, a trabalho. Para quem não sabe, ou não se lembra, trabalho na Embrapa (unidade Embrapa Solos, localizada no Rio de Janeiro), e uma das minhas atribuições é realizar a avaliação das tecnologias que a Embrapa Solos desenvolve. Essas tecnologias são utilizadas em todo o Brasil mas, no presente momento, a região Nordeste tem sido contemplada como um importante público-alvo das nossas ações. Dessa forma, lá fui eu para o Nordeste, conversar com alguns produtores rurais e verificar, de perto, como as tecnologias que a Embrapa desenvolve são importantes para aqueles indivíduos. As avaliações são feitas considerando os aspectos sociais, econômicos e ambientais. Nunca tinha ido ao Nordeste na vida e, minha experiência estava programada para ser bastante intensa. Pernoites em cidades grandes ou capitais, acordar cedo, pé na estrada e pequenas cidades e vilarejos no percurso acordado. Pensei em fazer um ‘diário de bordo’ ou algo do tipo, mas não tive condições físicas e psicológicas para me dedicar a isso. Portanto, como um resumo desses dez dias, o que faço é um relato a posteriori, à medida que vou me lembrando de cada uma das coisas e de seus momentos importantes.

Pois bem. Saí do Rio rumo ao Recife no dia 25 de novembro. Fiquei no Hotel Aconchego, a duas quadras da UEP Recife, unidade de execução de pesquisas da Embrapa Solos no Nordeste. Passei o domingo fazendo um reconhecimento no bairro da Boa Viagem e tentando me localizar espacialmente. Instalei-me confortavelmente e dormi cedo, pois o combinado era que partíssemos no dia seguinte às 05:00h.

Às 5:00h da manhã de uma segunda-feira encontrei-me com a pesquisadora Maria Sonia, da UEP e o João Cordeiro, também da UEP, que nos dirigia. Um carro bonito da Embrapa, uma ‘ranger’, que se mostrou absolutamente necessária pelos caminhos que iríamos passar. Ficaria três dias com eles, analisando o impacto da tecnologia das barragens subterrâneas, que servem como forma de armazenamento de água da chuva no subsolo nos períodos de seca no Nordeste. Tomamos café da manhã na estrada. O primeiro choque: macaxeira, batata-doce, cuscuz, carne de sol, queijo coalho, pedaços de frango. O café-da-manhã por ali tinha cara de almoço. Depois de umas cinco horas de viagem, chegamos a Santana do Ipanema / AL, encontramos o primeiro agricultor, S. S., e o pegamos em um posto de gasolina em direção a São José da Tapera / AL, para a casa do agricultor S. D. Em lá chegando, S. D. tinha preparado um farto almoço para todos nós. Galinha capoeira (que conhecemos como galinha caipira por aqui), farofa, feijão, uma salada vinagrete que nunca vi igual. Uma delícia. Conversei em primeiro lugar com um técnico agrícola, que ajuda S. D. no seu cultivo. Depois, conversei com S. S. e, depois com S. D. Munido unicamente de um kit contendo prancheta, caneta e alguns questionários que funcionam como fios condutores do discurso, além da minha própria voz, fui conhecendo o ‘mundo de vivência’ deles (estou até agora arrependido de não ter utilizado um gravador, mas haverá outras oportunidades). Ambos são pessoas extremamente simples. S. S. gosta de falar com garbo, arrojar o discurso. Não fala como ‘homem da cidade’, mas percebe-se nitidamente que, para ele, a forma de falar é um indicador social. Tem muito orgulho de ser agricultor familiar e já esteve na Argentina falando de sua experiência. S. D. tem uma fala mais suave, mais tranquila. É mais despreocupado na fala, no traquejo. Tem um jeito manso de encarar a vida que é, de fato, encantador. Sequestrei uma de suas frases para a minha vida: “O mundo é composto.” É uma das coisas mais bonitas que já ouvi. Após o momento conversa-e-questionário, fomos conhecer a barragem de S. D. na área que ainda se mantém úmida apesar da pior seca dos últimos 40 anos enfrentada pela Região Nordeste, S. D. ainda tem áreas de solo úmido por conta da barragem e planta coentro, milho, feijão e frutas. S. D. ficou particularmente feliz ao descobrir um pé de cedro no seu terreno, que não foi ele que plantou (“deve ter vindo com o vento ou pelos pássaros”). As condições de declividade do terreno e pedoclimáticas de S. D. são bastante privilegiadas, de forma que o sucesso de seu cultivo não deve ser tomado como o modelo de produtividade de todas as propriedades que contam com barragens subterrâneas. Achei interessante a adaptação de linguagem que tem que ser feita quando se conversa com os produtores. Eles não contam seus animais como aves, bovinos, ovinos e caprinos. Eles têm rês e criação. Rês é gado bovino. Criação é todo o resto. Alguns também não utilizam hectares para medir seus terrenos. Eles medem suas terras por ‘tarefas’. Felizmente, S. S., me deu a valiosíssima informação de que 1 há pode ser convertido para 3,17 tarefas... Ambos os produtores aparentam ser pessoas muito felizes. As barragens contribuem para a manutenção da segurança alimentar de ambos. Uma coisa bastante interessante é que sempre pensamos no modelo de avaliação econômica como a chance ou a possibilidade de se obter lucros com esta tecnologia. S. D. vende uma parte de seu cultivo a atravessadores, mas doa parte de sua produção e de sua água a vizinhos e outras pessoas que passam pela sua propriedade. Os economistas poderiam chamar a isto de ‘falha de mercado’, mas é bastante razoável compreendermos que a verdadeira ‘falha de mercado’ ocorre quando pessoas morrem de fome e de sede enquanto há comida e água do outro lado da cerca. Uma coisa que a gente aqui do centro-sul não entende é isso: alguns podem ter comida, outros podem ter água, mas a seca é para todos. E a solidariedade é a ‘falha de mercado’ de um capitalismo que não foi projetado para o semi-árido. Depois dessa majestosa estreia em campo e de ter começado com o pé-direito com dois agricultores dispostos a conversar, jantamos em Garanhuns / PE, onde o clima é mais ameno, e por lá pernoitamos, no imbatível hotel Tavares Correa, no qual tivemos uma noite de reis.


Dia seguinte, terça-feira. Após um ótimo café-da-manhã, no qual comi mugunzá pela primeira vez (uma delícia!), fomos  conhecer a barragem de D. S., em Buíque / PE. As condições do terreno de D. S. não são nem de longe aquela que vimos com S. D. A seca em Pernambuco foi muito pior do que em Alagoas. A área da barragem estava muito seca e D. S. perdeu boa parte de seu gado. Pelo seu porte, pudemos perceber que não havia fome (“graças à barragem, a gente tem feijão e milho estocado desde o ano passado”). Havia muita disponibilidade em colaborar com os questionários, mas a seca assume proporções alarmantes na sua voz (“se não chover, vai morrer todo mundo”). Complementa-se a renda com artesanato de panos de prato. Comprei um para mamãe, mas achei os preços caros (será que nosso preço foi diferenciado por sermos ‘da cidade’?). Levei uma pedra que vi no terreno, uma pedra vermelha, árida. Gosto de pedras. Saímos pouco antes de meio-dia e optamos por não almoçar, pois não daria tempo. Tínhamos um sortimento (de minha parte) de muitas barras de cereais e alguns outros víveres (batatas fritas, água, etc...) que fomos comendo no carro a caminho de Queimadas / PB. Pela estrada, havia muitos mandacarus e facheiros (um tipo de cacto mais aberto, em forma de coroa). A seca se via da paisagem.

Chegando em Queimadas / PB, precisaríamos ir à propriedade de D. D. Não tínhamos o endereço certo, e o celular de quem poderia nos fornecer também não pegava. Fomos pedir informação na rua e conhecemos um policial reformado, de cujo nome não recordo nem as iniciais. Ele nos levou até a casa de D. D., na cidade, mas era a pessoa errada. Finalmente conseguimos o telefone da pessoa que conhecia a localização de D. D., em uma localidade conhecida como Catolé Dois. O tal policial reformado (gente boa!) disse que nos levaria até lá. Na verdade, nos levou até a casa de um outro senhor, que, este sim, sabia o caminho. Ranger cheia, lá fomos nós pela estrada de terra, infinita. Chegamos em uma encruzilhada onde havia um senhor parado com uma espingarda na mão. Logo me vieram à mente cenas de coronéis ou traficantes, “donos do local”, que como nas favelas do Rio, liberam quem entra e quem sai. Nada disso, me disseram que era só um caçador de passarinhos. Mas eu fiquei mor-ren-do de medo.  Chegando enfim, a casa de D. D., a original, encontramos uma pessoa especialmente simpática e mais simples do que a média. Ficamos conversando numa prosa boa, e descobrimos que D. D. não possui mais a barragem. Segundo a própria, a mesma (que consiste numa estrutura de plástico enterrada sob uma vala em uma região declivosa, que barra a vazão de água no subsolo) foi instalada perto de uma craibeira, uma árvore lindíssima que lembra um ipê (vimos alguns exemplares pela estrada) e que tem raízes muito profundas. Vendo que a barragem não funcionava mais, D. D. descobriu que as raízes da craibeira furaram a barragem. Ela ficou com pena de derrubar uma árvore tão pujante e, entre a barragem a craibeira, ela optou pela árvore. Sem arrependimentos. Ela disse, no entanto, que foi muito feliz enquanto teve a barragem, e que possibilitou a ela muito bons cultivos e muita experiência de vida, que ela conheceu muitos outros lugares, que fez intercâmbio com muitos outros agricultores, e que gostou muito. D. D. disse que perguntaram se ela queria fazer uma outra barragem em sua propriedade, em outra parte do terreno, mas ela disse que não tem mais energia para fazer as manutenções necessárias. D. D. é dessas que tem o timing das coisas, está em outra: aposentada, curtindo seus netos. De uma sensatez impressionante.


Em seguida, na mesma localidade, descobrimos que havia um outro produtor que possuía uma barragem subterrânea, S. V. Fomos conversar um pouco com S. V. Fiquei meio sem graça pois diferente dos outros locais, em que a própria Sonia e o João me davam uma privacidade com o produtor, dessa vez eu tive que entrevistar S. V. sob os olhos da Maria Sonia, do João (nenhum problema nisso), do policial reformado e do outro senhorzinho. Encabulamentos à parte e lidando com as coisas da forma como era possivel, a entrevista fluiu relativamente bem. S. V. parecia bastante pouco empolgado com a barragem e com a vida, de uma forma geral. O produtor tinha uma mágoa muito grande com alguma coisa na sua vida recente (diz que ele era muito bonito antigamente) e, apesar de ter respondido ao que lhe era perguntado, parecia distante, e ferido de alguma forma. Claramente, nada a ver com a barragem. (“de uns anos pra cá, minha vida deu uma viravolta”), mas não entramos nesse meandros. primeiro, porque não nos interessava (a dor do outro deve sempre permanecer como um território inviolável, como sua própria casa, à qual só se se entra com a expressa permissão do dono) e, em segundo lugar, porque estávamos com outras pessoas que eram da localidade, o que tornava o “falar da própria vida” uma coisa ainda mais complicada. S. V. utilizava sua barragem, basicamente, para plantio de capim para o gado, o que achei digno de nota. Deixamos o senhorzinho em sua casa e, depois, o policial reformado. O policial quis que entrássemos em sua casa, o que fizemos por cortesia e gratidão. Ele descortinou sua triste história de vida, da falta de atenção por parte dos filhos e dos netos. Falou da ex-mulher e da piscina que mantém em casa para seus netos, que nunca vão à sua casa. O casamento acabou porque a mulher teve depressão e toma remédios controlados (nunca sei se essas coisas são de fato depressão, ou se ela teve um problema “de pressão”; o lance dos remédios controlados também não ajuda). Não sei a culpa que o policial tem nisso tudo nem das merdas que ele fez na vida pra merecer isso ou aquilo (“a gente não sabe a história”). Mas fiquei com pena, confesso. Tão prestativo... Levamos umas goiabas de seu pomar, que estavam ótimas, e seguimos para Campina Grande / PB.

Em lá chegando, fomos para o Hotel Village, bem localizado e de cujo quarto não gostei muito. Tomamos banho e fomos jantar fora. Fomos para o Bar do Cuscuz, onde encontramos outros embrapianos, amigos da Maria Sonia. Achei Campina Grande uma cidade simpática, pelo pouco que circulamos. Fomo pedir informação na rua a um bêbado, que quase entrou no carro, e a uma muda, que grunhia uma negação que não entendíamos (provavelmente querendo dizer “não! ele está bêbado!”). O Santo dos Perdidos & Achados, assim nominado pela Maria Sonia, não falhava, de forma que com ajuda de bêbados, mudas, ou policiais, sempre chegávamos aonde precisávamos... Tivemos um jantar muito agradável, onde comi pela primeira vez carne de bode. Achei ótimo. Feijão de corda (“feijão verde”, no linguajar local), farofa e carne de cordeiro completavam o cardápio. Dormimos.

Depois de um dia longo e sem almoço, tomamos café da manhã com calma e decidimos visitar uma barragem em Soledade / PB. Contamos com o apoio de uma ONG local para chegar lá e podermos conversar com o produtor rural, S. I. O produtor ficou uns quinze minutos falando de política local, de que a ONG vinha, ajudava e depois ia embora,e que eram necessárias ações mais afirmativas e constantes ao longo do tempo, de amplitude mais coletiva. S. I. tinha um forte perfil sindical. Cheguei a cogitar que nossa entrevista não fosse à frente, dada a quantidade de fala política que entremeava seu discurso. A um dado momento, porém, conseguimos alinhar o discurso e focalizar nos aspectos que precisávamos. O agricultor utilizada sua área úmida de dolo para plantio de capim, o que parece ser uma tendência na Paraíba. Por alguma razão que não se sabe bem qual é, os agricultores paraibanos fazem a opção de alimentar o gado e manejar o dinheiro da venda do gado do que utilizar as áreas para plantio de hortaliças e leguminosas para consumo próprio. S. I. é bastante articulado. Além da barragem subterrânea, o mesmo tem um barreiro (buraco no chão, uma espécie de açude artificial para captação de água), dois poços, um cata-vento (mini-gerador de energia eólica) e um poço artesiano de inacreditáveis quatorze metros). Apesar de seu terreno não ter as melhores condições naturais, o arsenal tecnológico utilizado pelo produtor permite que o mesmo consiga viver bem mesmo nestes períodos de seca intensa (“as pessoas falam da seca. eu não sei o que é seca por aqui.”). Seu gado estava com uma pele brilhosa e, gordo. Um gado muito garboso, em contraste com a seca que se via na paisagem.

Saímos de lá diretamente para o aeroporto de Recife, pois eu deveria embarcara para Natal, para acompanhar outro projeto. Comemos um milho assado na estrada (ótimo! nunca tinha experimentado) e pouco depois almoçamos, também na estrada, por volta de umas 16:00h. Cheguei no Recife a tempo do voo para Natal e agradeci muito a Maria Sonia e ao João. São, de fato, pessoas incríveis, muito competentes e companheiras. nesses três dias de estrada hardcore, adquirimos uma intimidade e uma solidariedade comum que no modo normal da vida demora-se muito tempo para conseguir. Esses três foram os mais intensos da viagem: onde mais aprendi, e onde mais entrei em contato com essa realidade distante que eu sempre achei que não me dissesse respeito.

Cheguei em Natal exausto após um voo Trip. Cheguei s 22:00h no meu hotel de frente para a praia. Fui jantar forever alone em um restaurante-bangalô turistão. “Mesa pra quantos, senhor?” “Ah, só eu mesmo”. Comi uma salada, saí do restaurante, olhei a orla da Ponta Negra e, quando olhei para o horizonte, pensei que eu estava mais perto da África do que quando olhava o horizonte do meu Rio de Janeiro.

Acordei cedíssimo, tomei café no hotel e após alguns atrasos e quase-desencontros, encontrei Silvio e José Ronaldo (que são da Embrapa Solos do Rio) no hotel e pegamos a estrada rumo a Jandaíra / RN. A tecnologia a aser avaliada dessa vez seria o Tomatec, um sistema de produção de tomate ecologicamente cultivado, desenvolvido pela Embrapa. Encontramos o produtor R. no seu sítio. R., diferente do perfil de produtores que eu tinha visto até então, era engenheiro agrônomo, fazendeiro de médio porte, (tinha cerca de 12 empregados no seu sítio) e utilizava a agricultura não como subsistência, mas como atividade produtiva capaz de gerar valor. Apesar de estar se recuperando de uma doença séria, R. nos recebeu com um ótimo almoço e se mostrou bastante entusiasmado com a tecnologia e com a presença da Embrapa na sua propriedade. A entrevista, da qual muitas informações foram extraídas, foi feita com sucesso.Por se tratar de um perfil diferente de produtor, as perguntas puderam ser feitas de forma mais straight-forward, ou seja, de forma mais simples e direta, de engenheiro para engenheiro. Houve um Dia de Campo em sua propriedade, evento que tinha por objetivo prospectar novos agricultores para o Tomatec e ensinar as técnicas do sistema de produção a alguns estudantes de cursos técnicos em agronomia locais. Visitamos a parte onde estava sendo cultivado o Tomatec, experimentamos alguns (são gostosos!) e vimos as técnicas de ensacamento de pencas, manejo com fitilho, fertirrigação por gotejamento, manejo integrado de pragas, etc... Entrevistei também um outro produtor, L., que não teve tanto sucesso como R. no seu cultivo do Tomatec, por questões de mão-de-obra, e também, um técnico agrícola (extensionista rural) que trabalha com eles. Saímos de lá e passamos em Ipanguaçu, onde um dos pesquisadores da Embrapa, o Silvio, está construindo uma fábrica de ‘lenha ecológica’, os chamados briquetes. A fábrica está saindo muito legal, está quase pronta. De lá para Natal, cerca de três horas de viagem, passamos por uma estrada escura e quase se carros (bastante medonha) e fui conversando com o Silvio sobre as coisas da vida, num debate saudável com alguém que tem opiniões diametralmente opostas às suas em muitas das esferas da política e do direito. esse tipo de debate é sempre interessante (com quem consegue respeitar as ideias do outro, apesar de diferentes). Só foi chato para o José Ronaldo, que ficou no meio de um ‘fogo cruzado’ verbal, que deve lhe geral alguns pesadelos no qual o grande monstro seja este tipo de discussão. Chegamos em Natal, encontramos a esposa do Silvio e jantamos. Fui para o hotel às 23:00h. Arrumei minhas coisas e para lá de meia-noite, exaustíssimo, dormi, para acordar no dia seguinte e, sem aproveitar um pedaço sequer da praia, acordar ás 5:00h, não tomar café da manhã e se mandar para o aeroporto para embarcar de volta para o Recife.

Cheguei no Recife pela manhã e fui de malas pra Embrapa (UEP) porque ainda era muito cedo pra fazer o check-in no hotel,. Conheci toda a unidade, cada um dos seus pesquisadores, analistas e assistentes. Maria Sonia me apresentou toda a equipe, do chefe-geral às secretárias. Almocei com Maria Sonia e o chefe-geral, José Carlos. Foi muito importante, tanto em termos de conhecimento, quanto politicamente. Passei a tarde organizando meus papéis no hotel, arrumando todo o conhecimento e informações que eu tinha coletado até o momento. Fui ao Shopping Recife à tarde pra almoçar e achei ruim. Decidi sair durante a noite e conhecer uma amiga virtual de literatura, a Raquel, que já conheço virtualmente há pelo menos uns cinco anos, através de uma comunidade no Orkut. No meu primeiro momento de lazer efetivo, marquei com ela no Recife Antigo, um bairro que é a Lapa de lá. Estava ela e o Alfredo, vulgo Pajé, que eu chamei de Rogério, porque ouvi desa forma. Ficou Rogério. A Raquel é uma pessoa encantadora. Fã de Cortázar e de uma semelhança político-ideológica e cultural que dá gosto de conversar. Rogério também é gente finíssima. É do Sul, foi pro Nordeste, é dessas pessoas que cruzam o mundo e que nunca precisou do eixo Rio-São Paulo pra ser feliz. Foi uma noite deliciosa, a cerveja que faltava num fim de semana depois de tanto cansaço. No final, meia-noite e meia, ainda vi um maracatu rolando no Recife Antigo, um ensaio, na verdade. Fiquei eufórico e emocionado. Não é maracatu produzido, como o daqui do Rio. É gente dali mesmo, gente simples, sem produção de vestimenta, que toca porque curte. A coisa é roots mesmo, não tem proselitismo. E de uma qualidade impressionante, de graça e na rua.


Dormi, acordei e tive um sábado ótimo. Fazia um sol bonito e eu fiquei na piscina do hotel pela manhã. À tarde, decidi ir a Olinda. Adorei. É extremamente parecida com Santa Teresa. ladeiras, casas bonitas e coloridas, lojinhas de souvenirs e artesanato, gente muito rica e gente muito pobre, desigualdade: Santa Teresa, ipsis litteris. Almocei num restaurante trendy, comprei presentes para a família. Esse clima de ter muita coisa á venda dá um ar de shopping a céu aberto e dota a coisa toda de uma artificialidade muito desnecessária. O carnaval ali deve ser um inferno, que nem Santa Teresa. Descobri que tinha um jazz em Olinda, ás 21:00h, e cogitei ir. Liguei pra Raquel e não consegui falar com ela, e falei com Rogério que disse que iria estar por lá. Cheguei ao hotel e dormi sem ter muita consciência disso, ás 18:00h. Acordei ás 21:00h sem saber se era dia ou se era noite. Acho que nesse cochilo eu consegui, enfim, descansar de tudo aquilo que eu tinha vivido nos dias anteriores. Fiquei nessa de vou-não-vou, mas era sábado à noite e decidi ir pra Olinda. Peguei trânsito, quando eu cheguei em Olinda às 23:00h, o mundo desabou em água sob a minha cabeça enquanto eu subia as ladeiras. Cheguei ao local do Olinda Jazz e descobri que o show tinha acabado de acabar. Comi um churrasquinho de frango na esquina, na chuva, estava morrendo de fome. Decidi ir embora o quanto antes, com medo de que meu ônibus pro Recife não passasse mais. Peguei o 910, Piedade –Rio Doce, e cheguei ao meu hotel. Mais um pouco e eu teria que esperar o bacurau, nome dado ao único espécime da linha de ônibus que roda pela madrugada. Achei bacurau um nome muito divertido. Acho legal saber que no Rio, as linhas circulam apenas em frota reduzida, mas não temos que ficar na dependência do bacurau... Enfim, um sábado à noite pra se fuder.

Veio o domingo. O tempo fechou, nublou mesmo, choveu. Fui ao Recife Antigo pra conhecer o Recife. Ninguém na rua: chuva, frio. Forever alone. Passei na Rua do Carmo, espécie de Saara ou 25 de Março de lá. Passei pelas pontes, fui ao Paço Alfândega. Mas, caraca, tudo muito triste mesmo. Voltei pro hotel e me deu uma puta saudade de tudo e de todos: das minhas coisas, das minhas pessoas, do meu lugar. À noite, fui a uma social na casa da Maria Sonia, onde vi outras pessoas da Embrapa (de outras unidades, pessoas que eu não conhecia). Mas tê-la visto e ter conversado um pouco com outras pessoas me fez me sentir um pouco melhor...

Segunda-feira o dia foi de trabalho. Acordei cedo para encontrar o João (novamente) e a Selma, rumo a São Vicente Férrer, município da Zona de Mata de Pernambuco, onde a Embrapa tem um projeto de otimização do cultivo da videira. Nosso encontro foi na sede da cooperativa que os agricultores possuem. A cidade passa por um momento muito bacana, onde a Embrapa, de fato, tem atuado como elemento criador de valor para os produtores. Paulatinamente, o cultivo da banana vem sendo substituído pelo cultivo da uva: mais interessante e mais rentável para o município. Em vez de aplicar os questionários individualmente, fizemos um esquema de oficina com dois grupos de 4 e 6 agricultores, respectivamente. O trabalho foi ótimo e conseguimos captar a percepção de dez agricultores sobre o benefício tecnológico proporcionado pela Embrapa. Os agricultores, cooperativados, têm visivelmente um brilho nos olhos quando falam da Embrapa e da melhoria na qualidade de vida que passaram a ter com o cultivo da uva. Aliás, fui ao campo experimental da Embrapa e comi algumas uvas do pé: deliciosas. E quem me conhece sabe que eu nem sou fã de uvas-de-mesa, com caroço. Mas, nossa, são deliciosas mesmo!

De lá, voltamos para o Recife. Descobri que a designação de gênero do Recife é masculina, e não neutra. “Prefeitura do Recife”. Portanto, você está no Recife e não em Recife. Isso parece bobo, mas é a diferença entre ser local e não ser... E dormi, e acordei cedo, tomei café-da-manhã e vim para o Rio de Janeiro. E cheguei em casa, exausto, às 15:00h, e ás 16:00h, já estava de saída porque eu precisava dar aulas, e a vida continuava.

E foi assim que eu voltei de lá uma outra pessoa e ainda o mesmo, com novos amigos, novas formas de ver o mundo, e uma percepção de que o Brasil é muito maior do que o que a gente supõe. Agora, que conheço mais, tenho clareza de que conheço ainda menos. E pro Norte? E pro Pantanal? E pro Sul? Quantas cidades e quantas terras, quantos agricultores, quanta vida, quanto sonho e quanto chão: quantos Brasis ainda temos a descobrir?

sábado, 8 de setembro de 2012

ABC do Josué



Tenho lido muito neste ano. Já li Rubem Fonseca, Thomas Mann, Martin Page. E li também o Josué. Para quem não sabe, o Josué é um menino de dez anos, que lançou este ano o livro "ABC do Josué", pela editora Dantes. A premissa do livro é bastante simples. Durante algum tempo da infância do Josué, a cada vez que ele não sabia uma palavra e perguntava o significado aos seus pais, os pais devolviam a pergunt,a e perguntavam ao filho o que ele achava que essa palavra significava. Assim, surgiu o "ABC do Josué", um livro muito pequeninho, mas extremamente denso e recheado de uma poesia diferente e genuína. E é divertidíssimo! :) Nós (que já somos 'gente grande'), conseguimos perceber o quanto de psicanálise se esconde nessas definições oriundas de conexões ainda muito superficiais e o quanto de beleza existe nisso! Só para se ter uma ideia, vou colocar aqui algumas definições dadas pelo Josué.

Contemporâneo: é alguém que não tem coração
Capitalismo: alguém que não tem barba
Verosímil: uma bicicleta de cinco rodas

Existe coisa mais genial do verossímil sendo definido por uma bicicleta de cinco rodas? Sério, eu me apaixonei pela definição de verossímil do Josué. E o contemporâneo que perdeu seu escrúpulos? E os capitalistas que, diferentemente de Marx e Lênin, não têm mais barbas?

Eu li muitas coisa legais esse ano, mas o "ABC do Josué" é, sem dúvida, a coisa mais interessante que li nos últimos tempos. É inovador, divertido, e é de um lirismo tão honesto que faz inveja a muito poeta 'gente grande' por aí que faz um esforço enorme pra tentar relaxar as sinapses em busca dessas conexões divertidas.

Fui fisgado, confesso. Pena que, segundo o livro, o Josué cresceu e já não quer mais brincar desse jogo. Acho que ele deve entrar, muito em breve, naquela fase onde o mundo fica mais sério.

Mas, depois de ler o "ABC do Josué", fiquei com a certeza de que o mundo só pode ser levado a sério de verdade se os dicionários forem escritos pelas crianças!



Obs: Para quem se interessar, comprei o livro na Tracks, que fica localizada na Praça Santos Dumont, Gávea, Rio de Janeiro. A Dantes parece ser uma editora pequena, e acho que vale a pena entrar em contato com eles para se informar onde se pode comprar o livro virtualmente. O site pode ser acessado clicando aqui.