quarta-feira, 20 de maio de 2026

Yannick – uma experiência em desconexão

 


Assisti ontem ao perturbador Yannick, um média metragem de uma hora de duração, e me sinto impelido a escrever sobre ele.

Essa é uma resenha que conterá spoilers. Então, se não tiver visto, sugiro que o assista e depois volte aqui para retomar esse texto.

O filme começa apresentando uma peça sendo encenada em um pequeno teatro de Paris. Vê se a peça, que se chama “O corno”, e pouco a pouco, começamos a ver também o público, e a consequente reação da plateia ao espetáculo. Eis que um espectador se levanta e interrompe os atores, dizendo que não está se divertindo. Diz ser vigia noturno, e que pagou para assistir a uma peça que deveria ser divertida, mas que, na prática, não o diverte.

Esse espectador é Yannick. No início do filme, somos quase levados a uma simpatia pelo protagonista. Ele é ingênuo, e tudo na sua fala parece apontar para um certo desvelar da atividade artística como uma prática elitista e burguesa, que se retroalimenta pelos seus próprios circuitos de produção, circulação, consumo e validação, mas que não traz nenhum aporte, nenhum substrato alegre / íntimo / reflexivo que possa ser aproveitado pelas camadas mais pobres da população.

Yannick então é expulso do teatro, e os atores fazem troça de sua presença e de suas intervenções. É a pobreza, cuja voz subserviente e demandante é sumariamente relegada ao esquecimento. É como se o filme nos perguntasse, à Spivak, “Pode o vigia noturno falar?”

O espetáculo então fica numa espécie de limbo entre o retorno e a interrupção, quando, Yannick, após a expulsão que o fez pegar seu casaco na chapelaria, retorna à cena. Mas dessa vez ele vem com uma arma.

A partir daí, o filme entra numa segunda fase. Todo o público e os atores são feitos de reféns. O que entra em cena é a mesma pobreza, mas dessa vez ela exige que se lhe diga o nome, é a pobreza cuja presença não pode ser mais ignorada e se faz sentir a partir da força.

É nesse momento que perdemos a conexão que vínhamos construindo com o protagonista. Yannick passa a encarnar o “bandido”, que chantageia, demanda e sequestra. A “pobreza que precisa de ajuda”, tão cara à filantropia burguesa, é substituída por uma pobreza revolucionária, raivosa, com sangue nos olhos e arma na mão, que quer fazer valer os seus direitos na marra, atropelando os códigos e as convenções sociais que delimitam o seu lugar.

Aqui, começamos a perceber que Yannick é caprichoso, e que, apesar de sua aparente sensatez, suas demandas começam a ser lidas por nós como pouco razoáveis. Como podemos deixar que eles nos digam a nós, burgueses, como é que eles querem se divertir? Vamos permitir que eles escrevam suas próprias histórias? Vamos aceitar no meio artístico essa inversão de papéis em que a burguesia apenas consome o que a pobreza produz?

Começa a nos irritar a presença de Yannick. Passamos a ler sua ingenuidade como falsidade, seu trejeito como embriaguez e sua presença como perturbação. Como não nos sentir intimidados por alguém que consegue a proeza de fazer uma impressora funcionar em cena?

Yannick (tanto o filme quanto o personagem) é perturbador do início ao fim. Mas esse miolo do filme, em que todos são feitos de reféns, é especialmente difícil. Tentamos, então, nos conectar com os atores – esses entes burgueses que só querem fazer o seu trabalho. Mas a cena vai mostrando que com eles também é difícil se conectar: são mesquinhos, autoritários, debochados e, sobretudo, violentos. É essa violência burguesa, com a qual não queremos de nenhum modo nos associar, que nos empurra para uma posição de rechaçarmos também esse vínculo.

Essa burguesia, quando se vê novamente com o poder nas mãos (fisicamente simbolizado pela arma de fogo), quer exercer o seu revanchismo. Humilha, achincalha e debocha fragorosamente do protagonista. Se achávamos até aqui que toda a violência dos conflitos sociais recaía sobre a pobreza, é com espanto que nos damos conta de que o único tiro da arma que está em cena sai das mãos dos representantes da burguesia.

Se não nos conectamos com o protagonista, nem com os atores, resta o público. É o terceiro elemento com o qual tentaremos nos conectar, e novamente nos veremos frustrados. O público feito refém é anódino. Ora parece esboçar alguma reação, ora parece ficar levemente contrariado, mas nenhum dos seus movimentos é preciso ou marcante. Construído a partir do medo e da distância do protagonista, o público vai mostrando a nós uma cara comum e esvaziada, com a qual também temos dificuldade em nos enxergar. Não queremos nos ver como um empregado corporativo com brincadeiras sexuais de mau gosto, nem como uma dupla de amigas egoístas, muito menos como um casal que apenas explora um negócio sem dele tomar parte no trabalho. Toda a construção do público é feita para evidenciar a sua mesquinhez, e é dessa representação que fazemos esforço para nos afastar.

Sem conexão possível com nenhum dos elementos apresentados, assistimos a Yannick, então, escrever um novo texto, uma nova peça, que deverá ser encenada pelos atores já no palco. Após muita resistência dos que contracenam, e sob o jugo da mesma arma de fogo, a peça se inicia

Importa aqui dizer que o expurgo das frustrações do ator principal da peça, reconhecendo seu próprio fracasso e sua incapacidade de divertir ao público, que enxerga como entediado e lasso, é a força motriz que faz com que ele se dedique de verdade ao texto escrito por Yannick. Essa transformação social operada pelo conflito incide no ator, mas não na atriz, ficando patente o modo como cada um é capaz de se afetar pelo mundo que o cerca. Importa também dizer que Yannick reconhece esse esforço e essa transformação (talvez seja nisso que resida, em certa medida, o papel da arte?)

A peça é encenada. O texto é substancialmente melhor do que aquele que abre o filme. Algo de mágico parece que vai acontecer, mas não acontece. Yannick se emociona – ri, chora, vê sua arte ganhar o mundo, mesmo que para isso tenha que colocar uma arma na cabeça de todos. No curso da peça, um dos espectadores mais críticos abandona o teatro, chamando-os todos de cretinos. Ele não é interrompido por Yannick, que permite sua saída. Fica evidente então, a partir desse momento, que o público permanece assistindo não porque é obrigado, mas porque quer.

É como se esse conflito entre a burguesia e a pobreza fosse algo cuja construção a sociedade (o público) não quer apenas tomar conhecimento – ela está envolvida nisso, é algo que a ela diz respeito, e ela quer preencher esse espaço do conflito com a sua presença. O público, portanto, não é mais refém de Yannick, mas sim do seu próprio desejo, esse desejo de consumir todo conflito social como quem assiste a um espetáculo.

E então, chega a cena final. Um dos espectadores sai sorrateiramente, pé ante pé. Ele aciona a polícia, que chega com seus profissionais mais preparados, com homens prontos a entrar numa guerra. Todo um aparato bélico é mobilizado, uma grande operação tática toma forma enquanto dentro do teatro o que se faz é encenar/assistir uma peça sobre o amor, que é aquilo que Yannick demanda, e que será solapado na ação policial.

É nessa ação sorrateira de chamar a polícia e na própria presença policial que, enfim, mesmo a contragosto, nos identificamos. O filme é perturbador a ponto de que a todo momento querermos que ele acabe. Não suportamos o conflito, não sabemos para que lado torcer, e vermos a todo instante que o papel de mocinho e bandido é trocado nos confunde.

Então, o que fazemos é isso. Adotamos a solução fascista e eficaz, de “acabar com essa confusão”. A solução totalitária não vê a nuance, não quer que o conflito se resolva. A polícia entrar em cena e nós sairmos do filme, na tela preta que justifica toda chacina e toda barbárie, é exatamente o mesmo ato: acabar com tudo.

Esse alívio, à custa das vidas de outrem, parece que não nos pesará. Mas o filme perdura em cada um dos seus diálogos precisos, em todos os seus questionamentos éticos, em seu cenário inteiramente dentro de um teatro.

Quando vemos a tela preta e não sabemos quem morreu ou deixou de morrer, quando passamos a ignorar conscientemente o que aconteceu com aquelas pessoas, quando queremos apenas virar a página e curtir enfim nosso alívio prazenteiro de que tudo isso tenha acabado, então, nessa hora precisa, em que tudo parece em paz, nos assoma a única tomada externa de todo o filme – o letreiro com o nome da peça originalmente em cartaz, “O corno”.

Quem é que nos trairá?

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