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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

é preciso falar um pouco sobre a morte.






é preciso falar um pouco sobre a morte. não sobre essa morte desencarnada que deixa os restos do corpo (osso, unha e cabelos) na fria decomposição dos cemitérios, mas sobre a morte que se vive todos os dias e que nos invade de forma intempestiva. existe uma morte muito grande que nos rouba um pouco de colágeno e de memória todos os dias. esse morrer pouco a pouco é um misto de falta de viço e castração. é uma pressão por ser-se e construir-se nalgo que não é capaz de se sustentar: os trabalhos de toda sorte, as contas para pagar, a vida. é preciso falar um pouco sobre essa morte que é excesso de vida, sobre essa morte que é excesso de pulsação e falta de pulso. essa morte a cuja construção nos permitimos todos os dias sem nos questionarmos muito, e lhe cortamos a arte, a vontade, o deleite e o delito. é preciso falar um pouco sobre essa morte que é violência silenciosa todos os dias, transporte, dor de cabeça, café expresso, camisa social. é uma morte que se nos tolhe também o esporte, a cultura e a crítica. vai ficando só, ao fim dos dias sem fim, uma vida de pouco azul e de muito chá verde. há quem diga que a morte é o que nos iguala a todos e contra ela devemos todos ter uma espécie de resignação silenciosa, como se fosse preciso aceitá-la sem muita indagação. mas a morte são muitas mortes. há uma parte, e sempre há uma parte em tudo que é inteiro, que precisa ser aceita. mas há outra parte contra a qual se pode lutar. é preciso matar a morte que nos mata. é possível e é preciso gritar ‘parem as máquinas’, girar a engrenagem ao contrário. é preciso não morrer porque é preciso navegar. está mais do que na hora de falarmos sobre a morte que não desencarna, sobre essa morte regular de sala de espera, de saguão de aeroporto, de oito horas por dia no escritório, enquanto as sinapses belíssimas da abstração se vão perdendo nas sendas agudas do cerebelo. é preciso falar um pouco também sobre a morte que é também desencarnar, mas já tanto é dito sobre essa morte, que quase não se é concedido espaço algum para a novidade. e é sobre essa morte que é preciso falar. a morte da novidade, do encanto, da beleza, é preciso falar sobre muitas mortes. é preciso falar sobre todas as mortes. a morte dos poços nos quais se cai, a morte dos livros que são lidos e dos que não o são, a morte dos amores, a morte do desejos, a mortificada morte da morte. é preciso falar sobre a morte permeada de bondias, boastardes e boasnoites, que é miséria e comiseração travestida de formalidade. é preciso falar sobre a morte dos poços em que se cai. quando é morto o poço onde se cai, há que se pensar que a queda morre no rastro do poço, mas ela fica nonada. Nonada. a queda sem poço é a infinita queda no nada, onde se lhe extirpam o que há de mais sensível: a arte e todo o resto. é preciso, contudo, evitar a morte. a morte da morte. a morte da morte da morte da morte da morte da morte. é preciso evitar esse excesso de morte. não só a morte que nos chega de fora para dentro, mas também aquela de que somos feitos, porque somos feitos de morte. existe uma morte dentro de cada um, mas que é de todos. é uma morte que tem muito pouco a ver com essa morte desencarnada que deixa os restos do corpo (osso, unha e cabelos) na fria decomposição dos cemitérios. é uma morte do mundo, que é feito de pessoas, que são feitas de morte e de vida. mas só se pode querer deixar de morrer, ou não morrer, ou desmorrer, ou morrer menos, quando se sabe o que é a morte, quando se sabe que existe uma morte em todas as coisas. talvez por isso seja necessário colocar a morte na vida, propagar a palavra da morte, dizer cada vez mais a palavra ‘morte’. por isso é que é preciso falar um pouco sobre a morte.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Vergonha Alheia



A contemporaneidade nos presenteia o tempo inteiro com coisas, conceitos e sentimentos novos. É sabido que a cada geração ficamos mais egoístas (mais egóicos mesmo), mais nos achando o último trakinas do pacote, mais superficiais, mais rápidos. Sim, o tempo passa e é evidente que as pessoas, individualmente, e em grupo, vão mudando.

E uma dessas coisas que tem surgido recentemente, e que a cada vez ganha contornos maiores, é isso a que chamamos vergonha alheia.

A vergonha é um sentimento que acompanha a humanidade há muito tempo. A vergonha da própria genitália, que é uma das primeiras vergonhas conhecidas pelo homem, alastrou-se e cresceu muito nas sociedades cristãs. Dessa vergonha primeva, vieram o pudor e o recato, o excesso de roupas, a moral, os ritos da côrte, e uma série de outras coisas (naturalmente, não com uma causalidade tão direta quanto coloco aqui; há muitos outros fatores além da vergonha que contribuíram para essas estruturas). Não dá nem para dizer que esse é um sentimento ruim, já que é algo que nos acompanha há tanto tempo, e está intrinsecamente arraigado a cada um de nós.

No entanto, existe uma mudança rápida em curso, que altera a forma como lidamos com esse sentimento. Sempre sentimos vergonha de nós mesmos: por termos feito ou falado bobagem, por estar com uma roupa inadequada, por ter uma voz esganiçada, enfim, por estar fora dos padrões de alguma forma.

Mas chegou a vez da vergonha alheia. Isto significa que eu sinto vergonha de algo que não diz respeito a mim. Tenho vergonha pelo que os outros estão fazendo. A roupa do outro é que está inadequada, o penteado do outro é que está feio, é o outro que está fora dos padrões, e isso passa a me dizer respeito de alguma forma.

Esse é um sentimento extremamente nocivo e perigoso. Em primeiro lugar, porque ele não existe. Ninguém sente, de fato, vergonha por uma outra pessoa. O que as pessoas fazem, o tempo todo, é julgar as outras pessoas, e transformar, apenas no discurso, seus próprios conceitos e preconceitos em “vergonha alheia”. Trata-se, em última instância, de um grande eufemismo.

A vergonha alheia parece mostrar também que, por mais modernidade que tenhamos, somos essencialmente os mesmos nos últimos dois mil anos: seres que julgam o tempo inteiro, e que se preocupam demais com a vida dos outros. A revolução francesa, a cubana, a chinesa, a feminista, a digital: nada disso foi capaz de mudar a grande força moral que paira sobre a humanidade; é como se o homem não tivesse conseguido se libertar.

Ainda temos medo do ridículo, e por isso nossas próprias vergonhas; ainda somos preconceituosos, por isso a vergonha alheia.

Eu me sinto esquisito todos os dias (todos os dias!) quando vejo pessoas que dizem ter vergonha alheia por causa da Miley Cyrus dançando Wrecking Ball, por causa do rolezeiro que quer colocar aparelho colorido nos dentes, por causa daquele menino que é super afetado e fala com trejeitos femininos.

Juro que não consigo mesmo entender essa necessidade de julgar os outros. A cada dia, tenho mais certeza (se é que se pode tê-las nessa vida) de que devemos deixar as pessoas livres para ser o que elas quiserem, para fazerem o que elas quiserem, da forma delas, do jeito delas, com as roupas e os cabelos delas. SET THEM FREE!

Se eu posso pedir uma coisa, o pedido é: POR FAVOR, PAREM. Em vez de olhar o tempo todo para os outros, talvez seja a hora de olharmos um pouco mais para nós mesmos, na ideia de recuperar aquela vergonha antiga (a própria), e poder sacar o quanto somos ridículos fazendo essas coisas. E se julgar, e se questionar, e se propor a melhorar. De si para si. E os outros, ah, os outros que entendam e questionem a si mesmos.


Aos que tentarem a mudança, vocês verão o quanto é libertador saber que a única vida com a qual você precisa se preocupar é a sua!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carapuças



Esse aí da foto sou eu. Essa é a minha foto de perfil no facebook, na qual estou vestindo minha própria carapuça. O mote desse texto é a chatice na qual esse tal de facebook tem se transformado. Não que eu não goste do facebook: pelo contrário, eu adoro. Mas adoro menos a cada dia que passa.

Uma das grandes vantagens das redes sociais, para quem as conheceu no início, era poder compartilhar as coisas com algum grau de liberdade de pensamento, de sentimento e, sobretudo, de expressão. O orkut, nos idos de 2004, era um grande descampado, não tinha nada nem ninguém: uns gatos pingados aqui, outros acolá. E algumas pessoas anônimas entre si (raramente havia alguém conhecido) que iam compartilhando suas impressões e suas visões de mundo nos scraps e nas comunidades.

Existia uma certa cumplicidade entre os membros daquela proto-rede. Era um sentimento gostoso de poder falar o que se queria sem muitos freios, existia uma tolerância e uma margem muito grande para desabafos, confissões, medos e angústias compartilhadas. Mas o ponto que eu quero chegar é: existia uma margem grande para se falar dos outros. Da vida dos outros, da raiva que se sente dos outros, da inveja que se tem dos outros (e da que os outros têm de você). Podia-se falar numa boa da vida que está lá fora. As redes funcionavam como válvula de escape.

É lógico que não se precisa ter vivido a "Era do Orkut" para entender o que eu estou falando. Essa onda de liberdade existiu no início da migração do orkut para o facebook. Existe até hoje razoavelmente no twitter. Existe com algumas restrições em blogs (que já cruzam a fronteira das redes sociais e se constituem essencialmente como outra coisa). E essa coisa do "poder dizer" existe também de forma muito marcante na vida real. Vou dar um exemplo: você tem um segredo para contar. Coisa séria, da sua vida pessoal, que ninguém pode saber (um intercurso sexual de gosto duvidoso, uma traição, um flerte com gente casada, uma admiração pelo Jota Quest, ser de direita, etc.). Tente responder rapidamente: "Qual é a melhor pessoa com a qual essa informação pode ser compartilhada?" A resposta, ao menos para mim, vem ligeira: "Um completo desconhecido, ué!". A vantagem dos completos desconhecidos da vida virtual em relação aos da vida real são várias. Contar um segredo para alguém numa fila de banco pode ser ótimo. Mas contar um segredo para alguém que more a uns 400 km de distância, e que tem um gosto muito parecido com o seu para livros, filmes e músicas, pode ser melhor ainda. Daí, uma opção razoável era ter um grupo de "amigos anônimos", que viam a sua vida, liam suas coisas, se interessavam, opinavam, discutiam. Cheguei a ter "amigos anônimos" muito próximos.

Mas à medida que o tempo vai passando, sua vida virtual vai ficando cada vez mais difícil de ser descolada da sua vida real. À medida que você opta por manter suas opções reais e verdadeiras de nome e sobrenome nas grandes redes, as pessoas vão te achando. O google vai indexando você a tudo que já foi dito ou visto na web. Sua vida vai se tornando um livro aberto, e tudo bem. Nunca tive problemas em relação ao velho-novo clichê de "a vida ser um livro aberto". Meu facebook tem todas as fotos desbloqueadas (assim como o orkut também tinha). Quem não me conhece pode ver o que eu posto, ler as minhas coisas, está tudo aí. Imagino que se algo não deva ser compartilhado ou não deva ficar atrelado ao meu nome, essa coisa simplesmente não está lá, não existe virtualmente.

O problema é que a gente acaba caindo no paradoxo do livro aberto (aqui sim é, de fato, aonde que queria chegar). Quanto mais aberto é o livro, menos coisas tem nele, e menos interessante ele se torna.

Ficou puto no trabalho? Quer matar o seu professor / orientador? Disse alguma coisa para os seus alunos e se arrependeu? Teve uma crise de ciúmes por causa do melhor amigo dele(a)? Guarde para você. Os seus colegas de trabalho, seu orientador, seus alunos, os amigos do seu (sua) namorado(a), estão todos, TODOS, no facebook.

Blablablá, configure sua privacidade, blablablá... Não vai adiantar. A internet está aparelhada. Você está o tempo todo sendo vigiado e controlado na sua vida virtual pelas pessoas da sua vida real. As últimas coisas legais, no que diz respeito às outras pessoas, que consegui compartilhar, foram sobre um taxista preconceituoso e sobre uma massagista que desmarcou comigo em cima da hora. Histórias boas, ótimas, mas que só puderam ser contadas porque NINGUÉM ali tem o contato daquele taxista nem daquela massagista. Apenas duas das talvez trezentas histórias interessantes que eu poderia contar, mas que vão ricochetear em pessoas que existem também em versão online.

E mesmo assim, a gente tem que aproveitar enquanto pode. Cruzando-se e sincronizando-se os dados de gps, celular, local, horário GMT, etc, em breve vai ser possível que eles, os anônimos da vida real, saibam quando alguém os toma como assunto. O antigo "minha orelha está coçando, sinal de quem tem alguém falando de mim" pode ser substituído em breve por uma notificação no smartphone confirmando que, sim, naquele momento tem mesmo algum completo desconhecido falando sobre você.

Menos sinceridade e menos posicionamento político, menos opinião; mais joguinhos, mais páginas impessoais e divertidinhas de humor: é isso que o facebook está se tornando. É muita gente, cada vez mais gente, e esse excesso de conexão entre as pessoas vai atravancando o que quer que se tenha de relevante para se dizer. Com isso, o que nos resta a fazer é ver o facebook (e, por extensão, toda a vida virtual) se transformando em um molho rosé aguado, cópia meio aquarelada e chata da vida real que é feita de pimenta e mostarda. O lado bom disso tudo é que essa chatice funciona como uma catapulta de volta à vida real, às mesas dos bares com poucos e bons amigos, aos encontros na casa das pessoas, aos arquivos em Word "para consumo próprio" que não serão compartilhados nunca; uma catapulta de volta às boas relações, com os outros e consigo mesmo.

Ah, as carapuças? Pois é, as carapuças, quase que me esqueço delas. Uma das formas de fugir das armadilhas da vida virtual seria contar meio-não-contando, contar omitindo os nomes, ou reduzindo os fatos ao não-identificável. Contar omitindo os nomes é quase um tiro no pé, dependendo do que se queira contar. E contar algo pela metade, ou não-dizer dizendo, sempre dará margem a pessoas que tomam para si algo que não foi dito para elas: e estão gerados os famosos mal-entendidos. Experimente colocar alguma coisa dúbia no facebook. Por exemplo, escreva simplesmente "ódio!". O que você vai ver é um bando de gente que não se contenta com informação pela metade. E vai ter uma outra parte (menor, mas ainda considerável) que vai mostrar de alguma forma que "entendeu o recado", seja através de comentários no post, mensagem privada ou ações na vida real. É muita gente vestindo a carapuça.

Só que na vida real, é muita carapuça para pouca cabeça

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Bicicletas



As pessoas na TV e nos jornais ficam propalando a bicicleta como o supra-sumo (ou já seria o suprassumo?) da modernidade. Para ser moderno, antenado, descolado e formador de opinião, você tem que ter uma bicicleta. E de preferência ir ao trabalho com ela. E de preferência morando e trabalhando na Zona Sul. Esse tipo de gente sai na Revista O Globo de domingo.

À parte o fato de não ser branco o suficiente para sair na revista (nem suficientemente preto para entrar na ‘cota negão’ desse hebdomadário), confesso que tem vezes em que me esforço para ser esse cara moderno, antenado, descolado e formador de opinião. Embora a cada dia também menos jovem, o que se configura como um requisito extra, nos outros aspectos satisfaço os requisitos: tenho uma bike, moro e trabalho na zona sul, fui ao trabalho duas vezes de bicicleta. Faltou também uma profissão moderninha como designer, roteirista ou estilista, mas eu não estou aqui para falar das idiossincrasias desse jornal nosso de cada dia (cuja política eu analiso aqui). Vim para falar das bicicletas.

Existe uma coisa que pouca gente fala: o banho. O banho é um tabu. As pessoas de bike suam. E como elas fazem? Não é todo lugar que tem vestiário. E mesmo que tivesse... Tomar banho fora de casa é sempre bastante desconfortável. Você tem que levar seu aparato-higiene (sabonete, xampu, toalha, desodorante, etc). E também uma roupa nova. Ou seja, você tem que levar um peso a mais do que você levaria. E ainda tem aquele clima de ‘vestiário de academia’ que é sempre detestável.

Sempre existe a opção de não tomar banho também. Inclusive, há locais para os quais se vai que não dispõem de vestiário. Se não tiver, ok. Mas se tiver e você optar por não tomar banho, prepare-se para coçar os ouvidos: todos te chamarão de porquinho pelas costas. Mas tendo ou não tendo vestiário, o ônus do ciclista que opta por não tomar banho é: ter que lidar com o próprio suor.

Ambientalmente correto? Sei. No dia em que pensei em vir de bike, mas optei pelo ônibus, pensei (novamente) no banho. Se eu chegar lá e tiver que tomar um banho, será que minha pegada hídrica compensa?

A verdade é que não somos Amsterdam. E não seremos nunca. Vivemos em um país tropical. Essa lógica de ‘bicicleta por todo lado’ funciona bem para quem sai de casa no Leblon e vai pra PUC ou quem sai da Tonelero para ir à praia. Para grandes distâncias, isso tem que ser melhor pensado.

É lógico que bicicleta é legal para um ou outro, eu mesmo adoro! Mas achar que a bicicleta vai ser a solução para o problema viário das cidades é o mesmo que acreditar que a agricultura orgânica e agroecológica vai ser a solução para a produção e o consumo de alimentos no mundo.

Temos poucas ciclovias. Andar na rua é ainda perigoso. Eu moro no Catete e trabalho na Gávea: é longe. Ter que carregar tralhas como capacetes e equipamentos de segurança, além de novas roupas, quando convier, é outro problema.

Outra coisa que me deixa MUITO PUTO são essas MOTOCICLETAS que andam nas ciclovias. São veículos motorizados que deveriam ser proibidos de andar na ciclovia. A tal da bicicleta elétrica e suas variações: lambretas, patinetes e não-sei-mais-o-quê. Sinto-me aviltado quando esses monstros andam em uma faixa que explicitamente é para veículos não-motorizados. Sem contar que também ainda estou pra ver qual é a vantagem: você não pedala (e portanto, não sua). Ok, chega limpinho no trabalho, mas o benefício da bike não é justamente o de se exercitar enquanto se locomove? E essas porcarias NÃO SÃO AMBIENTALMENTE CORRETAS. As baterias carregáveis dessas bicicletas contém metais muito pesados, cuja produção, manutenção e descarte são extremamente nocivos ao ambiente.

Além disso, nossos bicicletários também não são seguros. Sei lá. Deixei minha bike dormir na rua de ontem pra hoje, no bicicletário da FGV, na rua Barão de Itambi. Cara, levaram meu banco e ainda tem uma estaca de madeira presa na minha tranca, sinal de que tentaram tirar minha bike da tranca e levar minha bicicleta. A gente perde a fé na humanidade, sabe. Eu acredito tanto nos homens. Sério, mais do que raiva, eu sinto um profundo desgosto às vezes de acreditar que tem uma galera que faz isso na maior.

Sem falar nas faixas compartilhadas, que poderiam ser uma coisa ótima se as pessoas fossem menos ignorantes. Transformaram esse pedaço da Pacheco Leão até o Baixo Gávea (o paredão do Jardim Botânico) em uma ‘faixa compartilhada’. Como tem muito poucos pedestres nessa calçada (dentre os quais, me incluo), as pessoas passam de bicicleta achando que isso é uma pista expressa. E são grossas, rudes, acham que o erro seu de estar andando na calçada.

Sei lá. Talvez eu repensasse uma série de coisas que estou dizendo aqui. Mas a verdade é que esse lance de roubarem meu selim me deixou meio azedo. E acabei fazendo esse post na contramão.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Diálogo



Hoje eu fui a Angra dos Reis. Fui com o pessoal do meu novo trabalho, para conhecer o porto de lá. Éramos por volta de 70 pessoas e todas almoçaram no mesmo restaurante. Por motivos que não vêm ao caso [ok, eu estava sem dinheiro vivo e o restaurante não aceitava cartão], acabei indo comer em outro lugar, um salgado e um açaí. Volto para o restaurante onde estão todos e me recosto na parede do lado de fora, enquanto tomo o açaí. Nesse momento, pára ao meu lado um rapaz negro, alto, magro e visivelmente homossexual [e feio também, registre-se]. E então, dá-se esse curioso diálogo, que tentarei reproduzir de forma fidedigna aqui. Cabe ressaltar, que menti, e que menti deslavadamente. Sendo franco, menti e obliterei verdades com um talento que eu não sabia possuir [quem me conhece sabe que eu não minto e não sei mentir, e quem me conhece também vai perceber durante o diálogo quais são as mentiras e quais são as verdades].  O fato é que a forma excessivamente interrogativa do diálogo me incomodou, e portanto, as mentiras [por que eu abriria informações pessoais a um desconhecido, estando sozinho e em um lugar estranho?]. Enfim, eis aí:

- Você sabe se esse restaurante é bom?
- Não sei, eu nunca fui.
- Ué, como assim, nunca foi?!
- É que eu não sou daqui...
- Ah, é? E você é de onde?
- Eu sou do Rio.
- Ah, que legal... Como é seu nome?
- O meu nome é João.
-Prazer, o meu nome é Marcelino.
Ele estende as mãos na minha direção e nos cumprimentamos, ao que prossegue:
- Mas o que você está fazendo aqui? É alguma entrega?
- Não, eu estou em um treinamento pela minha empresa.
- Ah, mas você está dando treinamento ou está recebendo treinamento?
- Estou recebendo treinamento.
- Desculpa perguntar, mas qual é a sue empresa?
- Uma empresa de consultoria...
- Ah... legal. Qual é o seu signo?
- Eu sou Áries.
- De que dia?
- 3 de abril.
-Ah, eu sou do dia primeiro.
Pausa dramática, ao que ele prossegue:
-Você é bonito. Você é gay?
- Não. Por quê?
- Ah, por nada... Bom, deixa eu ir lá, que eu tenho que dar uma passada no shopping. Tchau.
- Tchau.

sábado, 17 de julho de 2010

das amizades perdidas

Nessa semana, perdi uma amizade. Quiçá duas. Ah, foi o orkut que me contou. Foi assim: um dia, eu mandei um recado dizendo que estava com saudades. Depois de um tempo sem resposta, fui na página de recados e vi que meu recado não estava lá, que tinha sido apagado. Fiquei meio surpreso, na verdade, tão surpreso, que até supus que eu não tivesse mandado recado nenhum, que tinha havido algum erro no envio ou outro problema. Daí, mandei outro recado. Um recado mais doce, até. Reiterei que estava com saudades, fiz perguntas sobre a faculdade e sobre a vida. Não obtive respostas. Quando fui procurar, vi que não éramos mais amigos. Fui buscar o perfil através de amigos em comum. E lá estava, na frase de status, uma frase meio seca: alguma coisa sobre se deletar quem é descartável. Eu soube que era pra mim. Uma outra amizade nossa em comum também me deletou, mas sem frases de efeito. Sei lá. Fiquei triste. Fui sumariamente deletado do orkut e avisado de que nossa amizade tinha acabado. Confesso que tenho uma certa dificuldade ainda em lidar com isso. Primeiro, porque são pessoas que eu gosto, ainda gosto. E segundo, porque eu sempre fui acostumado a um senso de justiça, onde por mais que haja decisões unilaterais, sempre é dado direito de resposta, sempre se pode buscar um outro ângulo pros fatos, uma contraargumentação. É isso. O orkut me ensinou que sou descartável. Assim, fácil, sem conflitos. No mais, não vou pegar o telefone e ligar pra esclarecer essas coisas porque eu tenho algum orgulho. Mas não tenho raiva e nem ódio de ninguém. Nem rancor, ainda que algumas mágoas a gente acabe inevitavelmente guardando. Mas essas coisas fazem mal, sabe. Pra pele, pro cabelo. Vão deixando a gente feio, feio. No fundo, não acho que esse seja o caminho, não acho que valham a pena as coisas feitas dessa forma. Mas é bom a gente saber como funcionam as pessoas; no mais, eu cresço. Com sorte, até aprendo. Enfim, é isso. Foi desse jeito que eu perdi uma amizade. Quiçá duas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Polícia para quem precisa



Na sexta-feira santa, eu fui a um churrasco no Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro: um lugar bem bacana, mas naquela parte da cidade onde a chapa esquenta. Saímos às 4:00h, e tomamos um táxi em direção à Zona Sul, onde eu e uns amigos moramos, e onde a chapa esquenta menos, por assim dizer. Veio uma blitz e parou nosso táxi. O policial nos mandou descer do táxi. Nos revistou. Perguntou se tínhamos algum baseado conosco. Até aí, ok. É desconfortável, mas é o trabalho dele. Mas ele cheirou nossas mãos para verificar se nós tínhamos fumado maconha. Ele perguntou de onde a gente estava vindo, ao passo em que eu respondi que estávamos vindo de um churrasco de um amigo nosso no Méier. Ele perguntou se não estávamos no baile da Mangueira, ao que respondi que não. Perguntou de novo, ao que reiterei a negativa. Ele nos liberou dizendo “Salvos pelo taxímetro.”

Depois eu fiquei pensando. Cara, isso está errado. isso está MUITO errado. O policial tem o direito de parar nosso carro e nos revistar. Mas ELE NÃO PEDIU NOSSOS DOCUMENTOS! Ele cheirou a minha mão (nem a minha mãe cheira a minha mão!). E qual o sentido de ele dizer que fomos “salvos pelo taxímetro?” Por que, qual o problema haveria de estarmos curtindo o baile funk na Mangueira? É proibido? E se eu tivesse fumado e minha mão tivesse com cheiro de maconha e eu não tivesse nada comigo? Se eu tivesse fumado no Méier, o quê que ia acontecer? A sensação que passou foi a de que os policiais queriam que nós tivéssemos qualquer erro (qualquer!) pra conseguirem um dinheiro de propina e garantir os ovos de páscoa dos seus filhos no domingo. Com o perdão da expressão chula: se fuderam.

Teve uma outra vez, em que eu estava andando sozinho na Lapa, e quando passou a viatura, eu acabei, coincidentemente, dando meia-volta. Eu tinha percebido que a rua em que eu acabara de passar me levaria mais depressa ao meu destino. Mas daí, veio a viatura e me tomou como suspeito. Perguntaram da onde eu vinha, e eu estava bem nervoso por outras razões. Me revistaram, eu fiquei nu, dessa vez eu me senti bastante humilhado. Viram que eu não tinha nada (eu não sou usuário de drogas), mas me disseram um “Olha só, fica esperto.”

Eu fico pensando que essas coisas ocorreram comigo, que sou um cara estudado, de classe média. Nessas horas, você vê como é complicado negociar com um policial, com alguém que tem uma arma na mão e um poder instituído. Talvez seja mais difícil do que negociar com um bandido, porque eles se sentem poderosos mesmo. Afinal de contas, o que eu poderei fazer, chamar a polícia?

Eu confesso que eu sou um ferrenho defensor das UPPs, as tais Unidades de Polícia Pacificadora. Acredito neles não como um modelo de enfrentamento puro e simples (como é o caso do Bope e seus “caveirões”, que eu abomino), mas sim, como uma política pública de longo prazo. Mas algumas reflexões posteriores me levaram a um tipo de medo. Eu confesso que eu tenho medo do aumento súbito do efetivo e do poder da polícia. Porque são pessoas que, verdade seja dita, não são treinadas para lidar com seres humanos. São treinados para não negociar, e para tratar as pessoas como animais.

Fico pensando no que acontece por aí afora, na Baixada Fluminense, onde a chapa esquenta mais ainda. Eu tenho a sensação de que a truculência policial não tem limites. Porque, no fundo, não há NADA que me garanta que se eu tentar entrar numa discussão de negociação com um policial e entrar na viatura, ele não vai me matar e jogar meu corpo no caminho em vez de me levar pra delegacia. Às vezes, eu tenho medo da polícia, e eu não sei se é certo. Eu não sou culpado de nada e eles, em tese, estão ali pra me proteger dos outros. Mas e deles, quem me protege? Confesso, tenho medo.

E a verdade nua e crua é que a questão da truculência policial e da falta de critério para a abordagem policial não entram em discussão porque a classe média não está nem aí; porque uma blitz como essa, na qual TODOS os carros eram parados, sem distinção, não vai nunca ocorrer nas ruas tranqüilas e pacatas do Leblon, por onde circulam os bacanas e seus filhos. Esse tipo de coisa não entra em discussão nunca e nem vai entrar porque a classe média (e o Jornal O Globo, que monopoliza a mídia impressa no Estado do Rio e faz reverberar o pensamento da elite do Leblon por todo o Rio de Janeiro), porque estão todos eles encantados com a valorização dos seus imóveis, encantados com a polícia e seu poder de fogo legalmente instituído.

Eu pensei em escrever pro jornal, contar o que aconteceu, dizer pra polícia que não dou a NINGUÉM o direito de cheirar a minha mão. Mas eu não anotei a placa das viaturas. Na delegacia, iriam fazer chacota, dizer que é assim mesmo. O jornal talvez nem publicasse. A gente vai acreditando mesmo que tudo isso é muito normal.

Mas lá fora, longe das UPPs, d’O Globo, e da Zona Sul, lá onde a chapa esquenta, a polícia age e vai continuar agindo como se não houvesse lei que a regulasse, mais ou menos da mesma forma que os bandidos.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Feliz é você

Infelizes os que não sabem que a vida tem uma gravidade própria
que não é newtoniana.

Aqueles que estão nos mais altos platôs
das mais altas montanhas
estão à beira do precipício.

Às vezes, a queda livre é liberdade,
às vezes impacto.

A vida é mesmo pouco cartesiana,
pouco ortodoxa,

é perfeitamente normal
subir pra baixo,
descer pra cima.

Infelizes mesmo são os que não sabem
que existe um mundo de ponta-cabeça
ao contrário
pelo avesso

onde perde muito mais
quem só ganha
quem não dá dois passos atrás

pra dar três à frente
pra pegar a moeda caída do bolso
pra fazer o moonwalk.

Felizes aqueles que têm as suas conquistas
porque podem prescindir delas
a qualquer momento.

A cada um o seu tempo
a cada pecado a sua cruz
e a cada cruz o seu calvário,

feliz é você que quebra o brinquedo novo sem culpa
que abdica de continuar o filme
que põe as roupas num brechó

feliz é você
que prescinde do que não precisa
que abdica do que não faz falta
que joga fora o que seria o sonho dos outros
que não vão saber nunca
que os sonhos são
na verdade
muito maiores.

Só você é você mesmo
só você sabe quando é dor
e quando é alívio
só você sabe que a felicidade
não está à venda
que
bom salário
internet o dia inteiro
pouco trabalho
vale alimentação
plano de saúde
plano de celular
estabilidade
o escambau
não vão manter você aí
inerte
sentado nesta cadeira enquanto o mundo explode,

porque você sabe
e só você sabe

o quanto do paraíso é cela
o quanto da cela é glória
o quanto da glória é poço
e o quanto do poço é redenção.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Breve ensaio sobre o lado de dentro e o lado de fora

Não é difícil vislumbrar o que não se vê. O que está por trás, está e sempre esteve, de forma que não é difícil imaginar a presença e os mecanismos que personificam o que vem de dentro, ainda que não se veja. É engraçado reparar como cada um de nós sempre se vê no eterno dilema entre a cabeça e o coração, entre o racional e o emocional. Sempre dividimos o mundo e as coisas nesse embate imaginário entre o que pensamos e o que sentimos, e temos dúvida. No entanto, esse embate, é falso. Ou ainda que admitamos a sua existência, não podemos desconsiderar que a razão e a emoção são as duas faces de uma mesma moeda. Explico: a razão e a emoção são coisas que estão do lado de dentro. Elas precisam de um motor, quer seja o raciocínio ou o sentimento, para se externalizarem. Mas é tudo muito interno, ainda; é uma coisa que não se atinge e não se vê. O sentimento é uma espécie de racionalidade travestida, é um pseudo-automatismo da ação. Mas o sentimento, inúmeras vezes, permanece onde está sem se converter em ação, sem se converter em nada, plástico em si mesmo. Alguns podem atribuir a essa inércia do sentimento uma espécie de freio advindo da razão, mas muitas vezes, é a força do sentimento que, tal qual a da razão, não é capaz de lutar contra um outro elemento, mais forte que ambos e, geralmente desconsiderado: o corpo. O corpo é a parte externa, é o que se vê, é o movimento. A razão e a emoção interferem no corpo, no comportamento do corpo, mas é como se tudo dependesse de uma expressa autorização advinda dele e só dele. O corpo tem vida própria, ainda que façamos um esforço enorme para negar isto o tempo inteiro. A razão e o sentimento, cada qual à sua maneira, são elementos que tentam frear o corpo, na ânsia exasperante de ir à frente por si mesmo. Entender o corpo, conhecer o corpo, é tão difícil quanto necessário. É preciso que se saiba que o corpo é mais do que instrumento, ferramenta. Ele é dotado, não de vontade, mas de uma autonomia sobre si e sobre o que há do lado de dentro, que insistimos em desconsiderar. É do corpo a voz e a vez; ele, só o corpo, para além da razão e da emoção, par a par com o sublime, o etéreo. O corpo vai por si mesmo, na sua sagrada missão de ser, e seguir sendo. Boca, nuca, mão; pêlos, boca e cabelos; dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Saúde

É engraçado. Às vezes, a gente não se dá conta de como é importante ser/estar saudável. A saúde é o tipo de coisa que a gente raramente presta atenção, exceto quando falha. Funciona mais ou menos como um elevador ou um ar-condicionado. Um belo dia se está bem, e no outro, cataploft; eis aí o acidente, a doença ou a tragédia. Como quase tudo nessa vida, passa. Uns remedinhos aqui, outros ali e, voilà, a saúde vem junto com o oxigênio e o corpo retoma o viço e o vigor. Mas, e nessas duas semanas? O que passa pela cabeça quando não se sabe o que se tem? O que passa pela cabeça quando o diretor da emergência do hospital te encaminha prum especialista porque não sabe resolver? O que passa pela cabeça quando nada se cura e a quantidade e a intensidade de remédios só faz aumentar a dor e o estrago? Nada, nada passava pela cabeça, nem pela garganta; E o corpo ia ficando magro, e o coração ia ficando triste, e era um desespero esquisito. E quanto à dor, vale saber que a dor física é horrível. A dor intermitente não acostuma, faz questão de se mostrar sempre ali.

Não lembro de ter ficado tão doente assim antes, de ter que parar a vida por três semanas. Fui mais vezes ao médico nesse período do que em toda a minha vida. Relatórios, artigos, projetos; tudo que era pra ontem virou supérfluo. O que era fundamental virou acessório. Ficar doente, por pior que seja, serviu pra mostrar o valor real das coisas. Conseguir falar e conseguir comer são mais importantes do que apresentar aquele artigo no mestrado. Agora eu vejo que o gozo da saúde, por si só, já é motivo pra festa. E eu to fazendo a festa! =D

Nos meus primeiros dias de recuperação, quando eu estava há uns cinco dias sem comer, eu só conseguia tomar coisas líquidas, de canudo. Quando, pela primeira vez em muito tempo, eu consegui sentir o sabor, mastigar e engolir um pedaço de peixe, eu chorei.