Assisti ontem ao perturbador Yannick, um média metragem de uma hora de duração, e me sinto impelido a escrever sobre ele.
Essa é uma resenha que conterá spoilers. Então, se não tiver
visto, sugiro que o assista e depois volte aqui para retomar esse texto.
O filme começa apresentando uma
peça sendo encenada em um pequeno teatro de Paris. Vê se a peça, que se chama
“O corno”, e pouco a pouco, começamos a ver também o público, e a consequente
reação da plateia ao espetáculo. Eis que um espectador se levanta e interrompe
os atores, dizendo que não está se divertindo. Diz ser vigia noturno, e que
pagou para assistir a uma peça que deveria ser divertida, mas que, na prática,
não o diverte.
Esse espectador é Yannick. No início
do filme, somos quase levados a uma simpatia pelo protagonista. Ele é ingênuo,
e tudo na sua fala parece apontar para um certo desvelar da atividade artística
como uma prática elitista e burguesa, que se retroalimenta pelos seus próprios
circuitos de produção, circulação, consumo e validação, mas que não traz nenhum
aporte, nenhum substrato alegre / íntimo / reflexivo que possa ser aproveitado
pelas camadas mais pobres da população.
Yannick então é expulso do
teatro, e os atores fazem troça de sua presença e de suas intervenções. É a
pobreza, cuja voz subserviente e demandante é sumariamente relegada ao
esquecimento. É como se o filme nos perguntasse, à Spivak, “Pode o vigia
noturno falar?”
O espetáculo então fica numa
espécie de limbo entre o retorno e a interrupção, quando, Yannick, após a
expulsão que o fez pegar seu casaco na chapelaria, retorna à cena. Mas dessa
vez ele vem com uma arma.
A partir daí, o filme entra numa
segunda fase. Todo o público e os atores são feitos de reféns. O que entra em cena
é a mesma pobreza, mas dessa vez ela exige que se lhe diga o nome, é a pobreza
cuja presença não pode ser mais ignorada e se faz sentir a partir da força.
É nesse momento que perdemos a
conexão que vínhamos construindo com o protagonista. Yannick passa a encarnar o
“bandido”, que chantageia, demanda e sequestra. A “pobreza que precisa de
ajuda”, tão cara à filantropia burguesa, é substituída por uma pobreza
revolucionária, raivosa, com sangue nos olhos e arma na mão, que quer fazer
valer os seus direitos na marra, atropelando os códigos e as convenções sociais
que delimitam o seu lugar.
Aqui, começamos a perceber que
Yannick é caprichoso, e que, apesar de sua aparente sensatez, suas demandas
começam a ser lidas por nós como pouco razoáveis. Como podemos deixar que eles
nos digam a nós, burgueses, como é que eles querem se divertir? Vamos permitir
que eles escrevam suas próprias histórias? Vamos aceitar no meio artístico essa
inversão de papéis em que a burguesia apenas consome o que a pobreza produz?
Começa a nos irritar a presença
de Yannick. Passamos a ler sua ingenuidade como falsidade, seu trejeito como
embriaguez e sua presença como perturbação. Como não nos sentir intimidados por
alguém que consegue a proeza de fazer uma impressora funcionar em cena?
Yannick (tanto o filme quanto o
personagem) é perturbador do início ao fim. Mas esse miolo do filme, em que
todos são feitos de reféns, é especialmente difícil. Tentamos, então, nos
conectar com os atores – esses entes burgueses que só querem fazer o seu
trabalho. Mas a cena vai mostrando que com eles também é difícil se conectar:
são mesquinhos, autoritários, debochados e, sobretudo, violentos. É essa
violência burguesa, com a qual não queremos de nenhum modo nos associar, que
nos empurra para uma posição de rechaçarmos também esse vínculo.
Essa burguesia, quando se vê
novamente com o poder nas mãos (fisicamente simbolizado pela arma de fogo),
quer exercer o seu revanchismo. Humilha, achincalha e debocha fragorosamente do
protagonista. Se achávamos até aqui que toda a violência dos conflitos sociais
recaía sobre a pobreza, é com espanto que nos damos conta de que o único tiro
da arma que está em cena sai das mãos dos representantes da burguesia.
Se não nos conectamos com o
protagonista, nem com os atores, resta o público. É o terceiro elemento com o
qual tentaremos nos conectar, e novamente nos veremos frustrados. O público
feito refém é anódino. Ora parece esboçar alguma reação, ora parece ficar
levemente contrariado, mas nenhum dos seus movimentos é preciso ou marcante.
Construído a partir do medo e da distância do protagonista, o público vai
mostrando a nós uma cara comum e esvaziada, com a qual também temos dificuldade
em nos enxergar. Não queremos nos ver como um empregado corporativo com
brincadeiras sexuais de mau gosto, nem como uma dupla de amigas egoístas, muito
menos como um casal que apenas explora um negócio sem dele tomar parte no
trabalho. Toda a construção do público é feita para evidenciar a sua
mesquinhez, e é dessa representação que fazemos esforço para nos afastar.
Sem conexão possível com nenhum
dos elementos apresentados, assistimos a Yannick, então, escrever um novo
texto, uma nova peça, que deverá ser encenada pelos atores já no palco. Após
muita resistência dos que contracenam, e sob o jugo da mesma arma de fogo, a
peça se inicia
Importa aqui dizer que o expurgo
das frustrações do ator principal da peça, reconhecendo seu próprio fracasso e
sua incapacidade de divertir ao público, que enxerga como entediado e lasso, é
a força motriz que faz com que ele se dedique de verdade ao texto escrito por
Yannick. Essa transformação social operada pelo conflito incide no ator, mas
não na atriz, ficando patente o modo como cada um é capaz de se afetar pelo
mundo que o cerca. Importa também dizer que Yannick reconhece esse esforço e essa
transformação (talvez seja nisso que resida, em certa medida, o papel da arte?)
A peça é encenada. O texto é
substancialmente melhor do que aquele que abre o filme. Algo de mágico parece
que vai acontecer, mas não acontece. Yannick se emociona – ri, chora, vê sua
arte ganhar o mundo, mesmo que para isso tenha que colocar uma arma na cabeça
de todos. No curso da peça, um dos espectadores mais críticos abandona o
teatro, chamando-os todos de cretinos. Ele não é interrompido por Yannick, que
permite sua saída. Fica evidente então, a partir desse momento, que o público
permanece assistindo não porque é obrigado, mas porque quer.
É como se esse conflito entre a
burguesia e a pobreza fosse algo cuja construção a sociedade (o público) não
quer apenas tomar conhecimento – ela está envolvida nisso, é algo que a ela diz
respeito, e ela quer preencher esse espaço do conflito com a sua presença. O
público, portanto, não é mais refém de Yannick, mas sim do seu próprio desejo,
esse desejo de consumir todo conflito social como quem assiste a um espetáculo.
E então, chega a cena final. Um
dos espectadores sai sorrateiramente, pé ante pé. Ele aciona a polícia, que
chega com seus profissionais mais preparados, com homens prontos a entrar numa
guerra. Todo um aparato bélico é mobilizado, uma grande operação tática toma
forma enquanto dentro do teatro o que se faz é encenar/assistir uma peça sobre
o amor, que é aquilo que Yannick demanda, e que será solapado na ação policial.
É nessa ação sorrateira de chamar
a polícia e na própria presença policial que, enfim, mesmo a contragosto, nos
identificamos. O filme é perturbador a ponto de que a todo momento querermos
que ele acabe. Não suportamos o conflito, não sabemos para que lado torcer, e
vermos a todo instante que o papel de mocinho e bandido é trocado nos confunde.
Então, o que fazemos é isso.
Adotamos a solução fascista e eficaz, de “acabar com essa confusão”. A solução
totalitária não vê a nuance, não quer que o conflito se resolva. A polícia
entrar em cena e nós sairmos do filme, na tela preta que justifica toda chacina
e toda barbárie, é exatamente o mesmo ato: acabar com tudo.
Esse alívio, à custa das vidas de
outrem, parece que não nos pesará. Mas o filme perdura em cada um dos seus
diálogos precisos, em todos os seus questionamentos éticos, em seu cenário
inteiramente dentro de um teatro.
Quando vemos a tela preta e não sabemos
quem morreu ou deixou de morrer, quando passamos a ignorar conscientemente o
que aconteceu com aquelas pessoas, quando queremos apenas virar a página e
curtir enfim nosso alívio prazenteiro de que tudo isso tenha acabado, então,
nessa hora precisa, em que tudo parece em paz, nos assoma a única tomada
externa de todo o filme – o letreiro com o nome da peça originalmente em
cartaz, “O corno”.
Quem é que nos trairá?






