terça-feira, 26 de junho de 2012

Rio +20, Embrapa



Rio +20: Foram seis dias de trabalho intenso. Carregar caixas, resolver problemas de última hora, ajudar no que fosse possível. Tudo isso foi bastante cansativo, mas minha incumbência maior foi ficar no stand explicando o que é a Embrapa (e a Embrapa Solos), o que fazemos, quais as tecnologias que temos, etc... Expliquei um monte de coisa para um monte de gente. No entanto, teve uma senhora de Campina Grande / PB chamada Soraia, que veio ao Rio com seu filho Breno, de nove anos. Fiquei 45 minutos com eles. Expliquei a importância do solo para agricultura e para a bioversidade do planeta, os fertilizantes organominerais, os diferentes tipos de solos, as barragens subterrâneas, os processos de erosão, a utilização de cobertura vegetal no cultivo, etc. Entre uma explicação e outra, fui dando a eles diversos folders e brindes, e também um Calendário de Solos do Brasil, que o Breno disse que queria colocar na escola dele. Ao final, ganhei um abraço tão sincero e agradecido da Soraia e do Breno, que fiquei pensando na importância das coisas que eu faço. Por mais que eu tenha feito muitas coisas e explicado as mesmas coisas para muitas pessoas diferentes, uma das poucas certezas que tenho é a de que EU FIZ DIFERENÇA na vida da Soraia e, especialmente, na do Breno (que é um menino extremamente esperto, inteligente e que quer ser engenheiro quando crescer). Dos meus seis dias de trabalho intenso, a melhor lembrança que tenho é essa. Fazer a diferença na vida de uma pessoa, apenas uma que seja, através da educação, é o tipo de coisa que me realiza: como professor, como profissional, como cidadão e, especialmente, como ser humano.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Em branco" ou "Outros Carnavais"



Carnaval para mim tem sempre um misticismo. É sempre tempo de repensar, de investir, de desistir, de descobrir, enfim, de se reinventar.

Desde 2005, o ano no qual começaram os meus carnavais, por assim dizer, eu me lembro cuidadosamente de cada um dos carnavais que tive.

Em 2005, eu tive um pré-Carnaval. Lembro da inglesa na Lapa e de algumas pessoas que ficaram pelo caminho, mas mal me lembro de quem eu era nessa época. Serviu mais para que eu pudesse compreender como as coisas poderiam ser, e entrar nesse mundo de uma vez.

Em 2006, tive um Carnaval de abertura. Nesse Carnaval eu conheci pessoas que seguiriam comigo até os dias de hoje; às vezes mais próximas, às vezes mais distantes, às vezes abrindo outras portas. Mas foi um descobrir.

Em 2007, eu fiquei muito ocupado terminando o meu Carnaval de 2006.

Em 2008, (e quem éramos nós em 2008?), tive um Carnaval triste, magoado. Mas me lembro da alegria desafiando e vencendo a tristeza, e descíamos as ruas de Santa Teresa genuinamente felizes apesar da vida, cantando Chico Science a plenos pulmões e fazendo de Manguetown uma ode à liberdade, 40 anos depois de 1968.

Em 2009, eu me deixei surpreender pela vida. A amigdalite quis desafinar meu samba, mas eu estava tão disposto e tão disponível que, no terceiro dia de Carnaval, eu já estava na piscina da casa de completos desconhecidos. Dei uma chance a mim mesmo e me permiti começar (e que aurora!).

Em 2010, tive um Carnaval de fuga. Tive uma fuga planejada pra São Paulo. Mas uma fuga calculada, precisa: sem chorumelas, sem frustrações e cheia de vontade.

Em 2011, eu já outro e ainda o mesmo, consolidava um outro início, curtindo e descobrindo os encantos do meu presente de Natal.

Em 2012, meu Carnaval passou em branco. Nem fuga, nem presença; nem começo, nem ruptura; nem descoberta, nem frustração. Em 2012, tive um Carnaval descarnavalizado, gasto no que há de mais cotidiano e sem magia; vi ser transformado esse meu feriado tão caro em algum outro feriado prolongado qualquer, como Tiradentes ou Corpus Christi.

Não obstante, anotem: em 2013, eu coloco uma fantasia e caio na gandaia nos quatro dias de folia, vou tingir de cor a vida. Vou querer ter algo para me lembrar com carinho nos próximos anos, porque de branco e tom pastel já nos bastam os dias úteis que se amotinam uns sobre os outros, nos quais temos que nos manter retos, probos e dignos, sem extravasar e sem deixar transbordar o copo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Jornal O Globo da Zona Sul - até quando?



Esse é um post que eu já estou para escrever faz tempo. Certamente, há pelo menos um ano, mas acho que até há mais tempo do que isso. Na correria dos dias, sempre adio, mas acho que mais do que nunca é a hora, até porque a situação só se agrava com o tempo.

A questão é a seguinte: O Jornal O Globo se tornou um jornal de bairro. Todas as notícias, todos os lançamentos de produtos, todas as coisas da moda, enfim, todo o jornal o Globo, se propõe a retratar um universo espacial limitadíssimo, que é restrito à Zona Sul, em especial aos bairros de Ipanema e Leblon.

Darei exemplos. A revista Rio Show, que sai todas às sextas-feiras no jornal, é um caderno de entretenimento sobre o que está acontecendo na cidade: cultura, gastronomia, música, etc. A reportagem de capa do dia 23 de dezembro (que traz o irônico título de “S.O.S”) se propõe a apresentar “um roteiro de restaurantes, docerias e delicatessens para socorrer quem deixou a ceia de Natal para a última hora”. Listando todos os restaurantes citados na reportagem, com seus respectivos bairros, temos:

Adega do Cesare – Copacabana
Andréa Tinoco – Entregas por encomenda
Barsa – Benfica
Chico & Alaíde – Leblon
Couve-Flor – Jardim Botânico
Da Silva – Botafogo
Farinha Pura – Humaitá
Gula Gula – Ipanema
Minimok – Leblon
The Bakers – Copacabana
Cafeína – Leblon
Casa do Alemão – Leblon
De Rose Bolos e Tortas – Entregas por encomenda
Deli 43 / Pavelka - Leblon
Kaebisch Schokoladen – Gávea
Kurt – Leblon
La Fourni – Jardim Botânico
Mil Frutas – São Conrado
Petite Sucrerie – Barra da Tijuca
Schatzi – Leblon
Sorvete Itália – Ipanema
Bistrô du Leme – Leme
Caesar Park – Ipanema
D’Amici – Leme
Eñe – São Conrado
Forneria São Sebastião – Ipanema
Gero – Ipanema
Porcão – Ipanema
Terzetto – Ipanema
Windsor Barra – Barra da Tijuca

A reportagem cita 30 restaurantes, veja bem, 30! Desses 30 restaurantes, temos 1 restaurante na Zona Norte, em Benfica (que parece ter sido colocado aí como “cota” por algum editor com medo das críticas, mas elas virão de qualquer jeito!) e 2 restaurantes na Zona Oeste (considerando a Barra como Zona Oeste, coisa que as pessoas desse bairro detestam: preferem achar que estão na Zona Sul ou que são uma zona à parte da cidade). E temos também 2 restaurantes que entregam por encomendas. Se fizermos as contas, veremos que 25 dos 30 restaurantes citados estão na Zona Sul da cidade, ou seja, 83%. Ruim? Pode piorar! Se considerarmos ainda uma distribuição dos classificados imobiliários do próprio Jornal O Globo, que considera a Zona Sul 1, como os bairros do Centro até Botafogo (incluindo a Urca) e a Zona Sul 2 como os bairros de Copacabana até São Conrado (incluindo o Leme), temos que desses 25 restaurantes na Zona Sul, apenas 1 está na chamada “Zona Sul 1”, o Da Silva, em Botafogo. Então, 24 restaurantes estão  na “Zona Sul mais Zona Sul” da cidade. Pior do que isso, é ver ainda que 14, sim, 14 dos 30 restaurantes citados estão nos bairros de Ipanema e Leblon. Ou seja, metade dos restaurantes com endereço da reportagem estão concentrados em dois bairros! Metade! Será mesmo que essa reportagem está ajudando os seus leitores do Méier e da Tijuca, por exemplo, a encomendar a sua ceia de Natal?

Na mesma revista, na página seguinte, coluna Novos Sabores, de gastronomia:

Bottega del Vino – Leblon
Viva o México – Leblon
Yumê – Jardim Botânico
Papa Gui – Ipanema
Málaga – Centro [ufa!]
Prima Bruschetteria – Leblon
Brigitte – Leblon

Na mesma revista, duas páginas depois, a reportagem “Verão à prova d’água” cita alguns restaurantes:

Astor – Ipanema
Cavist – Ipanema
Gero – barra da Tijuca
Via Sete – Ipanema
Zozô – Urca

Duas semanas depois, temos a RioShow do dia 06 de janeiro, que apresenta uma reportagem intitulada “Frente única”, cuja chamada é: “O feito é inédito: nunca tantos restaurantes bacanas abriram ao mesmo tempo na cidade. O verão promete ser quente, pelo menos na gastronomia.” Vamos aos “restaurantes bacanas” que abriram “na cidade”:

Balada Mix – Ipanema
Bottega del Vino – Leblon
Brigite’s – Leblon
Bretagne Boulangerie et Bistrot – Leblon
Papa Gui – Ipanema
Vieira Souto – Ipanema

Viram como piora? Agora é só Ipanema e Leblon mesmo! Não existe mais a preocupação de colocar cotas, de citar outros lugares da cidade, NADA! A cidade é Ipanema-Leblon. É só nessa cidade que existem restaurantes bacanas!

Citei só exemplos de gastronomia, e poderia citar outros, mas o texto ficaria longo demais. A Revista O Globo, que sai aos domingos, também está cheio desses exemplos, em especial na seção “Achados Imperdíveis”. E também não só os suplementos, não! O próprio jornal, nas notícias da cidade (geralmente aos domingos), traz notícias superinteressantes para a população carioca como “Invasão de morcegos preocupa os moradores do Alto Leblon”, “Instalação de ponto de bicicleta em rua do Leblon gera polêmica entre os moradores”, “Fechamento de uma rua no Leblon causa transtornos aos moradores, ad infinitum.

O Jornal O Globo possui um suplemento semanal chamado “Jornal de Bairro”, mas essa é uma das maiores hipocrisias que existem. O Jornal O Globo já é um jornal de bairro, e espero que as pessoas percebam isso. Acho uma pena que para o Jornal O Globo, as pessoas que moram no Centro, Méier, Tijuca, Jacarepaguá, Glória, Penha, Grajaú, Santa Teresa, Santa Cruz, Ilha do Governador, Madureira, etc, simplesmente não existam. Essas pessoas não apenas não existem como esses bairros também não possuam um restaurante sequer, “restaurantes bacanas” então, nem pensar!

“Ah, Igor, você fala isso, você sempre reclama do Jornal O Globo, mas você assina e sempre lê.” É, vocês têm razão. Mas em minha defesa alego que desde o Jornal do Brasil acabou, ficamos órfãos de informação aqui no Rio de Janeiro. Ou, para usar uma metáfora melhor, ficamos reféns do Jornal O Globo. Leio esse jornal porque não tem outro. 

Mas sustento a esperança paulatina de que algum amigo jornalista irá criar um jornal justo, democrático e de amplo espectro geográfico que possa bater de frente com esse monstro cada vez maior que tem se tornado o Jornal O Globo, o PMDB da informação no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2011: um ano do qual é difícil se despedir!



Não sei pra vocês, mas para mim, 2011 é um ano do qual não quero me despedir. No post restrospectivo do ano passado, eu disse que 2010 tinha sido um ano estranho, mas que 2011 era o ano de correr atrás do que a gente queria pra sempre! Pois foi exatamente isso. 

Sim, houve mudanças. Colhi muitos frutos que nesse ano que está acabando e plantei sementes de árvores gigantescas. De tudo, de tudo, o melhor é o amor! Ah, o amor! Minha vida afetiva é tão boa, meu namoro é tão gostoso; é tudo tão lindo! 2011 foi um ano inundado de amor. Viajei para Campos do Jordão, para Buenos Aires e algumas vezes para São Paulo. Viagens de amor.

Tive um bom ano de trabalho. Fiquei numa empresa estranha, Docas: boa, no fim das contas. mas fico feliz de sair dela. Fiz amigos de verdade lá, pessoas que eu quero levar para a minha vida inteira. Mas termino o ano indo para uma outra empresa, uma empresa que aparenta ser mais séria, e onde as perspectivas de trabalho parecem ser melhores.

Outra coisa ótima foi começar a dar aulas. Primeiro, virtualmente. Depois, presencialmente.  Dar aulas é das experiências mais gratificantes que um indivíduo pode ter, ao menos do meu ponto de vista. É uma experiência ótima, enriquecedora e que, a partir de agora, não me vejo mais sem ser professor. Tenho a estranha sensação de que serei professor para sempre, de um  jeito ou de outro. No fim das contas, acho que vou conciliar a vida de professor com as tantas outras vidas que já concilio.

O Doutorado, meu mérito, que começou no meio desse ano, me deixou mais atribulado do que eu achei que fosse possível, mas as coisas se ajustam de uma forma ou de outra. Estou adorando estar de volta à UFF e à acolhedora cidade de Niterói. Sei que é um investimento importante que faço na minha vida, não só na acadêmica, mas também na profissional, especialmente na perspectiva que tenho de que essas coisas se fundam.

Meus amigos continuam poucos, mas bons. Uns mais perto, outros mais distantes. Alguns que estão chegando agora e que ficarão, ao que tudo indica. As amizades vão e vêm, mas já estou acostumado a fazer amigos das maneiras mais improváveis.

Minha vida literária frutificou muito! Apesar de ter sido um ano de pouca escrita, foi um ano de colher frutos nessa seara. Ganhei muitos prêmios (de contos e de poesias, incluindo um concurso de poesias internacional),e, finalmente, assinei contrato para publicação de um livro de poesias no ano que vem. Além disso, vi um conto meu ser publicado em uma coletânea, e há outros no forno, saindo na coletânea do Clube da Leitura.

O Clube da Leitura é algo de que gosto muito, mas sinto que fica cada vez mais distante. Está difícil conciliar minhas aulas (que acontecem no horário do Clube) com as atividades literárias. Mas pra tudo dá-se um jeito.

Por falar em “dar um jeito”, acho que esse vai ser o norte da minha vida em 2012. “Dar um jeito”. Não no que está errado, porque os erros são poucos e se corrigem no caminho por si sós. Mas dar um jeito no sentido de dar um jeito de fazer tanta coisa, de não me perder no meio das minhas atividades: meu trabalho, minhas aulas, meu doutorado e minha vida de amor, amizade e literatura que corre em paralelo a essas coisas todas.

Mas acho que é possível, sempre é possível.  E 2012 vai ser um ano de encaixes e brechas. O medo maior não é o de não dar certo. O medo maior é o de não caber. Mas cabe, sempre cabe. É só eu parar com essa mania que eu tenho de que ficar inventando coisa pra fazer: vou ter que me equilibrar em 2012, até porque de todas essas coisas, não há nada de que eu possa (ou melhor, de que eu queira) me desfazer. É que se despedir de 2011 é muito difícil, mas 2012, pode vir: tô pronto! =DD

Beijos e abraços a todos!

domingo, 27 de novembro de 2011

UFF, Niterói.



Amar conscientemente alguma coisa, creio, não é muito difícil. Descobrir o amor em coisas, pessoas, lugares, e se deixar levar (às vezes, até demais) é uma coisa que acontece com todo mundo, o tempo todo. Todo mundo tem alguns bons exemplos e eu tenho os meus: UNIRIO, CPII, Botafogo. Falo de lugares (e não de pessoas) porque eu não sou besta: abertura de vida tem um limite. =P

O amor explícito é algo que se vê e se mostra, não se esconde e não deixa dúvidas. Sim, é amor. Mas é claro que é amor. Como eu poderia dizer que não amo a UNIRIO? Todos sabem. Além do fato de eu dizer isso o tempo todo, as pessoas veem, sentem. Como esconder meu sorriso quando ando pelas ruas de Botafogo, sem uma razão específica, só pelo fato de estar em Botafogo?

Mas existe um outro tipo de amor. Esse é um amor inconsciente. E esse amor inconsciente pode se travestir de ódio, raiva, e até de obrigação. É assim com a UFF. E com a cidade de Niterói como um todo.

Houve um tempo (que não acabou tanto assim) em que Niterói era um bode expiatório para todos os meus problemas. Tudo era culpa de Niterói. Era de lá que vinham todos os males do mundo: amaldiçoei a barca, a ponte e tudo que houvesse do lado de lá. Um belo dia, fiz as pazes com a cidade. Mas aí, logo comecei a blasfemar contra a UFF. A UFF virou o bode expiatório da vez. Tudo era culpa da UFF. A UFF me sacaneava, ninguém queria deixar eu me formar, etc... E a UFF fica em Niterói... Por conseguinte, confundir as coisas todas, de novo, foi facílimo. E tome-lhe blasfemar contra a cidade e criar ódio, raiva, etc...

Depois de fazer as pazes mais uma vez, e ficar quase um ano longe de Niterói, eis que me pego de volta aos bancos escolares da UFF. E as reclamações não tardam. Agora é culpa de Niterói e da UFF todo o meu cansaço, toda a minha indisposição pra fazer qualquer coisa. Tem vezes em que eu me arrasto até às barcas, e blasfemo, e reclamo, e digo que não quero. Mas vou.

No fim das contas, um dia me caiu a ficha de que EU NÃO SOU OBRIGADO a ir pra Niterói, e de que estar na UFF é UMA ESCOLHA minha.

Depois desse click de obviedade (porque as coisas óbvias são as mais difíceis de enxergar), consegui perceber que eu estou conseguindo desenvolver um amor genuíno pela UFF. E por Niterói, um amor ainda mais genuíno, porque mais complexo.

Sim, amo tanto Niterói que brigo com a cidade todos os dias, mas sempre me reconcilio. Blasfemo, mas sou feliz quando tomo meu sorvete na Crema & Cioccolato, ou meu iogurte na Cahu do Ingá. Sou feliz à beça. Sou feliz quando pego a barca velha e vou admirando a paisagem da cidade que deixo pra trás ou daquela que meus olhos veem se aproximar ao longe. Eu amo Niterói ainda mais porque não é fácil, e também porque nesse amor eu consigo e posso ser tanta coisa, eu consigo e posso sentir tanta coisa diferente e misturada!

Quando eu digo Niterói, eu falo de 1/5 da cidade, que deve ser mais ou menos o que eu conheço. Mas é suficiente. Vou deixar para que as outras partes me tomem o sentimento aos poucos, os mais diversos.

Agora eu sei que amo Niterói, e digo mais, preciso que Niterói exista. Já me perguntaram se eu moraria lá e a resposta é: provavelmente não. Se eu passar a morar em Niterói, haveria de haver um outro lugar como o Rio de Janeiro ou Petrópolis ou Paquetá que pudesse, de fato, ocupar o espaço simbólico de “um outro lugar”. Minha história de amor com Niterói é construída na porrada, todos os dias, mas tem que ser assim.

Preciso de Niterói pra ser minha tequila, porque licor de chocolate eu já sei onde encontrar.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

por quê?

não é morte
não é doença
nem mesmo coisas do coração

mas cada um tem os seus motivos
pra chorar

domingo, 17 de julho de 2011

Impressões sobre uma tela de Liliana Porter

Liliana Porter - The Resemblance (1979)

A genialidade não é óbvia, nem é um consenso. É impressionante a forma como algumas obras de arte nos tocam de maneira peculiar. E perceber isso é simples: basta ir com um ou dois amigos a uma exposição. Cada um vai dedicar mais tempo a algumas obras, terá mais interesse em algum tipo de estética, ficará mais ligado no posicionamento da luz, no uso das cores, na forma como o artista trabalha com o real e o abstrato, etcétera (adoro escrever etcétera por extenso! :D). Andar com alguém em uma exposição é sempre um descompasso. Pois bem, essa breve introdução é apenas para falar sobre essa obra aí em cima.

The Resemblance (1979), de Liliana Porter. Conheci essa obra no Museo de Bellas Artes, em uma recente viagem que fiz a Buenos Aires no feriado de Corpus Christi. Fiquei quase dez minutos detido nela, andei pela exposição e depois voltei à obra. Fiquei contemplando um tempo mais, e peguei o nome da artista pra ver mais coisas sobre ela depois na internet.

Ela tem um site bacana, mas confesso que não fiquei vendo muito bem as outras obras. Aliás, admito que esta própria obra não me parece tão genial e tão magnânima quando a olhamos na tela de um computador. Mas dentro do museu, vendo a obra em tamanho grande, foi que pude realmente capturar toda a genialidade da obra (ao menos para mim).

A obra é genial, fantástica. É incrível como ela consegue, com uma ideia simples, brincar com o conceito de multidimensionalidade. Na obra, quatro elementos geométricos ( um bastão, uma esfera, um cubo e uma pirâmide) são representados de três diferentes formas. A primeira delas é um esboço a lápis. O esboço está representado em duas dimensões. No esboço, não há noção de profundidade, é apenas uma desenho “chapado” na tela, apesar de conter em si mesmo a ideia de ser um projeto para a terceira dimensão. Logo acima, vemos os quatro objetos retratados em três dimensões. Existem noções de profundidade, luminosidade, e todo o traço da artista nos leva a vislumbrar a tridimensionalidade da obra. Até o momento, podemos fazer a interpretação simples de que o esboço em duas dimensões se transforma no objeto tridimensional. É o projeto que se transforma em objeto, a ideia que se materializa. Mas eis que surge a grande sacada da obra, na minha opinião, que é a terceira representação dos objetos. Nessa última, os objetos estão desenhados sobre uma folha de papel, que “salta para fora”, dando a ideia de uma ortogonalidade em relação ao plano da tela. Nessa última representação, as dimensões presumidas são reinventadas. As formas, que aparecem anteriormente em um projeto de duas dimensões, depois em três dimensões propriamente ditas, aparecem agora novamente em duas dimensões. E a folha de papel, que é naturalmente percebida como um objeto bidimensional (figura), ergue-se e apresenta a sua tridimensionalidade (forma), quase sempre ignorada. Então, o que se tem nessa última configuração são os sólidos subdimensionalizados (são originalmente em 3D, mas apresentam-se como 2D) e o suporte superdimensionalizado (é naturalmente em 2D, mas apresenta-se como 3D). Daí, que temos formas, que agora são figuras, sendo representados sobre uma figura, que agora é forma. E essa representação por si só, não é nem bidimensional, nem tridimensional. É como se ela possuísse duas dimensões e meia. Dessa forma, ela funciona como se fosse o produto derivado de uma fusão das duas obras abaixo (em 3D e em 2D), criando alguma coisa que não é figura e não é forma, não é projeto e não é sólido, não é ideia e não é materialização. É algo que se situa a meio caminho de todas essas coisas, num ponto equidistante de tudo, que só pode ser observado e compreendido em confrontação com as representações anteriores dos quatro objetos. Ah, sim, o mais legal de tudo isso é que a obra foi toda feita com óleo sobre tela, de forma que qualquer percepção sobre a dimensão das figuras e das formas é apenas sugerida pela artista (naturalmente, construída com sensibilidade e apuro técnico), já que a representação na tela possui apenas duas dimensões.

Então foi isso. Foram essas coisas todas que me intrigaram tanto nessa obra e foi essa a genialidade que eu percebi, (da minha maneira, naturalmente) e estou compartilhando com vocês. Não sou crítico de arte, estou longe disso, mas as impressões que certas obras nos causam e os nexos que criamos e damos a essas impressões são fascinantes. E creio ser esse o papel da arte.

Abraços a todos,

Igor