a rede é pra deitar
webcama
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
A máscara, ainda que me esconda, tem o formato do meu rosto
Escrever um livro policial deve ser muito chato. Escrever um livro deve ser chato. Ok, chega de tergiversar: escrever é chato. Honestamente, poucas pessoas são tão chatas como os escritores. Veja só, um escritor que começa uma frase com “honestamente” talvez não deva mesmo ser levado a sério. Honestamente, acho meu trabalho um porre. Honestamente, caro chefe, vai se fuder. Honestamente, eu só queria te comer. Honestamente, honestamente, a palavra “honestamente”... Eis aí, um outro problema que é o do compromisso com a verdade. Honestamente, eu estou cagando. Mas de forma não tão honesta, como havemos de convir que é o modo como funcionam as relações humanas, podemos chegar em algum tipo de consenso sobre isso. Pois então, outro problema é o consenso. O escritor quando escreve talvez parte de uma premissa própria e lá vai ele querer que o leitor concorde com ele. Agora aconteceu uma coisa engraçada: meu eu-escritor e meu eu-leitor se encontraram aqui, tomaram um chopp e chegaram a um consenso sobre o consenso: ambos concordam que eles querem mais é que tudo se foda. Eu comecei dizendo que escrever é chato. Veja só, é chato mesmo. Eu já problematizei uns três lances aqui, em poucas linhas. Tá vendo só? Escrever é um problema, vai tudo virando problema. Se os problemas fossem solúveis, talvez tudo fosse mais fácil... Mas o problema da escrita é que vai tudo meio que caindo pro psicológico e pro filosófico, onde é tudo infinitamente mais chato, mais insolúvel. É tudo mais problemático mesmo, o buraco é sempre muito mais embaixo. Por falar em buraco mais embaixo, o buraco lá embaixo é sempre um tabu pra quem escreve. Na verdade, todos os buracos lá embaixo. Na verdade mesmo, qualquer buraco. O escritor pode ser meio pudico ou meio depravado. Essa questão às vezes se apresenta como um molecote indo pela primeira vez a um puteiro. O que pode e o que não pode? As palavras “babaca” e “cacete” são quase um consenso. A merda é uma questão de contexto e algumas outras palavras ficam restritas a uma classe liberalizada, que não vê problemas em “ir se fuder”, “ir tomar no cú”, essas coisas todas. Mas essas questões são mesmo complicadas. Às vezes, o problema é menos o nome e mais a coisa propriamente dita. Prestem atenção nessas frases e vejam a que causa mais constrangimento: Frase 1: “Ela deixou que ele visse os pelinhos da sua buceta”. Ou a frase 2: “Ela deixou que ele enfiasse os dedos pela sua vagina molhada, um por um, até que colocasse a mão completa e aí, sim, se sentisse seguro, para enfiar nela o seu enorme pênis”. Essa é a questão. Ni nguém está muito preocupado se a vagina é uma buceta. Todo mundo está preocupado mesmo é com os desígnios, com as ações em cima da coisa. Ou embaixo da coisa. Ou dentro da coisa. Ou dentro até da outra coisa. A coisa. É, a coisa do escritor é ótima. Se o escritor souber usar a coisa, a gente nunca vai saber do que ele está falando e, às vezes, deixar as coisas meio veladas pode ser interessante. Até mesmo porque pode ser que o leitor goste da coisa. Porque, sei lá, acredito mesmo que gosto é que nem cu, cada um tem o seu. Aliás, tem gente que tem dois cus. Honestamente (e a palavra honestamente reitera a minha honestidade, olha só, você quase acredita nela), não tem, não tem gente que tenha dois cus. Talvez a literatura médica registre alguns casos. Mas a literatura de verdade me dá os cus de forma muito livre, de forma que, olha só, dar vida a alguém que tenha dois cus é um problema só meu. Eis aí. Posso inventar alguém que tenha dois cus. Pronto. Posso inventar. Posso mentir também, não tenho compromisso com a verdade. Posso dizer que VOCÊ tem dois cus. E agora? Agora é você aí, lendo esse texto. Se você estiver lendo este texto em voz alta, vai ficar todo mundo sabendo que você tem dois cus. Posso dizer que um dos seus cus você usa pras suas necessidades fisiológicas e o outro... tchã-rã. Tchã-rã. Eu não disse o que você faz com o outro cu. Mas olha aí, todo mundo já sabe. Não que eu tenha dito. Mas essa é a vantagem dos escritores também. Às vezes, mas só às vezes, é possível presumir a inteligência dos seus leitores, é possível forçá-los a interpretar alguns fatos exatamente da forma que você queira, ou ainda, porque não, da forma que os fatos seja mesmo. Eu agora estou presumindo que meus leitores presumem o que você faz com o seu outro cu. E a verdade é que isto é um fato. Não apenas pelo fato de estar escrito, mas olha aí, olha a sua cara de quem não sabe o que fazer com o outro cu que lhe foi dado. Você pode até não saber bem o que fazer com esse cu, mas todo mundo sabe o que você faz. Obstinação. Mais da metade do texto até agora foi falando sobre o cu, especificamente sobre o seu. O escritor pode parecer um obsessivo compulsivo às vezes, e talvez ele até mesmo seja. Na dúvida, ou na falta de presunção de culpa, a gente atribuiu esse comportamento ao eu-lírico. O eu-lírico é ótimo. O eu-lírico é a minha máscara. A máscara, ainda que me esconda, tem o formato do meu rosto. O meu eu-lírico é parte do meu ego e parte do meu alter-ego, é algo que sou e não sou. Se eu continuar por essa linha, vou acabar entrando de novo nessa discussão do chato e do não-chato. E isso seria muito chato. Eu, por autor, talvez não tenha direitos, nem você, por leitor, deveres. Quando eu voltar pro que acabei de escrever, eu vou ler de novo aquela frase: “A máscara, ainda que me esconda, tem o formato do meu rosto.” É uma frase de efeito, muito bonita, olha só. Vê? Agora escuta: “A máscara, ainda que me esconda, tem o formato do meu rosto.”. De novo: “A máscara, ainda que me esconda, tem o formato do meu rosto.” Estou aqui pensando. Quantas vezes eu escrever, é esse o número de vezes que você vai ler... “A máscara, ainda que me esconda, tem o formato do meu rosto.”. Eu podia passar mais da metade do meu texto fazendo você ler essa frase indefinidamente, até que você se canse e desista ou até que ela se grude tanto na sua memória que você sonhe com isso durante a noite. Eu, como autor, tenho poderes. Eu tenho poderes sobre você. Eu tenho muitos poderes, sou poderoso. Posso voar. É só eu dizer assim: “o autor voa.” Viu? Simples assim, três palavras. Mas não tem o efeito daquela frase que eu disse antes. Frases de efeito são ótimas. No entanto, não basta só dizer, tem que dizer e ficar repetindo, ela tem que se grudar na mente das pessoas. Um belo dia essa frase vai estar lá, nos mais altos platôs da erudição e eu vou dizer que a frase é minha, só minha. Que frase? Ah, você já esqueceu? Não, eu não vou fazer com que você a leia mais uma vez. Fica sabendo que se até agora não a tem decorada na memória, é porque você não é digno. Receio que você me odeie. Sabe? Sei lá. A gente acaba criando meio que uma relação, né? Sabe como é... Enfim, você é uma pessoa esperta e vai vê que já está acabando. Todo leitor, por mais que goste de ler, ansia pelo espaço em branco. Sei que você talvez não deva estar gostando, mas tudo bem. Eu poderia perguntar o clássico: “foi bom pra você?”, mas não sei, tenho medo da resposta. A gente só pergunta o que quer que seja respondido. Eu gostei tanto daquela minha frase, que eu até já esqueci, por sinal, que eu vou colocá-la no título. Queria saber se você gosta. É sério. É que eu só estou pensando o título agora. Mas, enfim, agora que importa? O título foi a primeira coisa que você leu e eu fiquei falando de um monte de coisa, depois fiquei falando do cu e da buceta, e depois, agora que voltei pra uma discussão mais direita, pensei no título que já não tem mais nada a ver com aquele início. Mas enfim, o título vai ser aquela frase. Mas eu queria saber a sua opinião. Mesmo. De verdade. Eu vou fazer o seguinte. Vou deixar três linhas pra você se expressar. Mas, é sério, eu quero que você se expresse mesmo. Só não te dou mais espaço, porque sabe como é, daí já entra em regime de coautoria e aí já fica tudo mais complicado. Vou deixar aqui, três linhas pra você, quero que você se expresse, ok? Pode falar de qualquer coisa que você quiser (olha como eu sou legal), mas peço por favor que não deixe as linhas em branco... Ok, valendo a partir de agora: ________________________________________________________________________________
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Bom, espero que você tenha se divertido com as linhas que lhe foram dadas. Esse era o espaço para que você me xingasse. Se você me xingou, fico feliz. Naturalmente, não por ser xingado, mas era um espaço seu. E eu sei que te encho um pouco o saco. Enfim, caríssimo interlocutor (eu ia te chamar de leitor, mas nossa relação já está bem avançadinha), eu peço de verdade que você me desculpe. Eu ia começar falando que escrever romances policiais deve ser chato, mas viu só? Acabei nem desenvolvendo a idéia. Daí, acabei caindo pra esses lados da metalinguagem, que vou te falar, eu acho chatíssimos. É chato principalmente porque é muito difícil ser original. Fica uma coisa meio ciência do método, todo mundo falando sobre o ato de falar, escrevendo sobre o ato de escrever. Chato isso! E chato por chato a gente cai numa redundância no meio do texto, de forma que por aqui me calo. Agora vai, pode ir, agora você é livre. Pode ir, é isso: FIM, acabou, agora é cada um por si. Eu só quero te dizer que foi bom pra mim também. Se te apetece, fuma um cigarro ou come uma jujuba: de qualquer forma, vai; volta pros teus afazeres de antes, vai ser feliz.
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Bom, espero que você tenha se divertido com as linhas que lhe foram dadas. Esse era o espaço para que você me xingasse. Se você me xingou, fico feliz. Naturalmente, não por ser xingado, mas era um espaço seu. E eu sei que te encho um pouco o saco. Enfim, caríssimo interlocutor (eu ia te chamar de leitor, mas nossa relação já está bem avançadinha), eu peço de verdade que você me desculpe. Eu ia começar falando que escrever romances policiais deve ser chato, mas viu só? Acabei nem desenvolvendo a idéia. Daí, acabei caindo pra esses lados da metalinguagem, que vou te falar, eu acho chatíssimos. É chato principalmente porque é muito difícil ser original. Fica uma coisa meio ciência do método, todo mundo falando sobre o ato de falar, escrevendo sobre o ato de escrever. Chato isso! E chato por chato a gente cai numa redundância no meio do texto, de forma que por aqui me calo. Agora vai, pode ir, agora você é livre. Pode ir, é isso: FIM, acabou, agora é cada um por si. Eu só quero te dizer que foi bom pra mim também. Se te apetece, fuma um cigarro ou come uma jujuba: de qualquer forma, vai; volta pros teus afazeres de antes, vai ser feliz.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
ainda caio
que em três semanas vem e mexe, assim, de leve comigo. vem e farfalha. não promete, não diz nada. não diz que é amor eterno nem que é fogo de palha, mas insinua, faz ares de quem quer e de quem acredita que possamos evoluir além do passo dado. apresenta amigos, amigas, fala da vida e de como chegamos até aqui, até este ponto. nós dois numa mesa de bar, sozinhos, num momento só nosso, o que de mais nosso tivemos até então. virtualmente, somos só carência. na vida real, eu sei, é vida que nos tenta a cada instante, impulso carnal; tesão e cerveja. eu entendo. eu entendo tudo isso. nas três semanas eu quis e agora já não sei se quero; honestamente, acho que não. não quero discutir relações que não existem, não quero desconfianças e cobranças adicionais. eu quero é o sincero, o tête-à-tête. no fundo, eu sei que o que eu quero mesmo é alguma coisa que procurei incansavelmente nessas três semanas, mas que não encontrei. encontrei, em contrapartida, um tesão louquíssimo de minha parte, uma necessidade sexual intensa, quase violenta, voraz. encontrei também um brilho nos olhos surpreendente, uma candura e uma placidez que são lindas, mas que não se permitem. encontrei um dos sorrisos mais doces e irresistíveis que já vi. no entanto, desculpa, não era o que eu procurava, apesar de saber que cheguei perto, bem perto. faltou em você uma vontade de se dar, de se jogar de verdade. faltou vontade de escolha a meu favor. no mais, pro que se vai cedo é antes brisa que bofetada. e somos todos jovens, temos o mundo inteiro no nosso quintal. e eu poderia dizer que agora eu sei como o mundo funciona, dizer que não me engano mais, dizer que não caio mais nessa; mas é inevitável: ainda caio.
porque eu não consigo ser outra coisa diferente desse tipo de polvo que me tornei, sondando o mundo e as pessoas com tentáculos longos, procurando abraços em pedras no fundo do oceano.
ademais, agora eu sou de todos.
porque eu não consigo ser outra coisa diferente desse tipo de polvo que me tornei, sondando o mundo e as pessoas com tentáculos longos, procurando abraços em pedras no fundo do oceano.
ademais, agora eu sou de todos.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Soneto LXIX

Garoto que ainda não me pertence,
Vou dançar pra você, eu sou fogosa
Eu tenho o mamilo bem cor-de-rosa
Eu sou Carla, a garota do pole dance
E se você me quiser, antes pense
Que eu cobro caro, mas sou carinhosa
Que se eu quiser, posso ser perigosa
Faço de tudo, normal ou nonsense
Mas se você fizer cara de mau
E então, me olhar com nojo, com desdém
Vir querendo fazer sexo comigo
O meu trabalho eu faço; faço bem
Mas como moral nenhuma eu não sigo
Se eu te chupar, eu arranco seu pau
sábado, 17 de julho de 2010
das amizades perdidas
Nessa semana, perdi uma amizade. Quiçá duas. Ah, foi o orkut que me contou. Foi assim: um dia, eu mandei um recado dizendo que estava com saudades. Depois de um tempo sem resposta, fui na página de recados e vi que meu recado não estava lá, que tinha sido apagado. Fiquei meio surpreso, na verdade, tão surpreso, que até supus que eu não tivesse mandado recado nenhum, que tinha havido algum erro no envio ou outro problema. Daí, mandei outro recado. Um recado mais doce, até. Reiterei que estava com saudades, fiz perguntas sobre a faculdade e sobre a vida. Não obtive respostas. Quando fui procurar, vi que não éramos mais amigos. Fui buscar o perfil através de amigos em comum. E lá estava, na frase de status, uma frase meio seca: alguma coisa sobre se deletar quem é descartável. Eu soube que era pra mim. Uma outra amizade nossa em comum também me deletou, mas sem frases de efeito. Sei lá. Fiquei triste. Fui sumariamente deletado do orkut e avisado de que nossa amizade tinha acabado. Confesso que tenho uma certa dificuldade ainda em lidar com isso. Primeiro, porque são pessoas que eu gosto, ainda gosto. E segundo, porque eu sempre fui acostumado a um senso de justiça, onde por mais que haja decisões unilaterais, sempre é dado direito de resposta, sempre se pode buscar um outro ângulo pros fatos, uma contraargumentação. É isso. O orkut me ensinou que sou descartável. Assim, fácil, sem conflitos. No mais, não vou pegar o telefone e ligar pra esclarecer essas coisas porque eu tenho algum orgulho. Mas não tenho raiva e nem ódio de ninguém. Nem rancor, ainda que algumas mágoas a gente acabe inevitavelmente guardando. Mas essas coisas fazem mal, sabe. Pra pele, pro cabelo. Vão deixando a gente feio, feio. No fundo, não acho que esse seja o caminho, não acho que valham a pena as coisas feitas dessa forma. Mas é bom a gente saber como funcionam as pessoas; no mais, eu cresço. Com sorte, até aprendo. Enfim, é isso. Foi desse jeito que eu perdi uma amizade. Quiçá duas.
natimorto
o feto
natimorto
por decreto
é quase aborto
é ruptura
antes do início
morte prematura
ao que no princípio
já não dura
é azar
jogo perdido
filho não tido
é ponderar
sem romance
pra se esgueirar
num relance
e prometer
adiante
arrefecer
do não quisto
e do mal-dito
é veredicto
sem vencer
é o não visto
é precipício
é o que não nasce
murro na face
desinício
natimorto
por decreto
é quase aborto
é ruptura
antes do início
morte prematura
ao que no princípio
já não dura
é azar
jogo perdido
filho não tido
é ponderar
sem romance
pra se esgueirar
num relance
e prometer
adiante
arrefecer
do não quisto
e do mal-dito
é veredicto
sem vencer
é o não visto
é precipício
é o que não nasce
murro na face
desinício
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