sexta-feira, 25 de julho de 2008

escrito

Mais uma vez como todas as outras em que eu me deparo com a folha em branco e me questiono incrédulo sobre a matéria escrita próxima, se ficção, se realidade, ou ainda, quem sabe, se alguma coisa que oscila, alguma coisa como que em fragmentos, em pedaços de realidade, ou ainda algum tipo de fantasia em pó porque, no fundo, é essa necessidade inexpugnável de escrever alguma coisa que sirva, ainda, mesmo sabendo que talvez ninguém nunca leia, mesmo que talvez entre pra já quase infinita coleção das cartas que eu nunca irei mandar e que apodrecerão amarelentas dentro de caixas que estarão dentro de gavetas, que estarão dentro de armários, que estarão dentro de cômodos e que, por mais que eu queira negar, sei que sempre estarão lá, me olhando de dentro do fundo da caixa, me mostrando uma passagem, uma nesga de memória, um pedaço entrecortado de algum momento importante, uma nota de rodapé, uma crítica de um livro, uma anotação boba, um carinho, um presente, um marcador de livro, um cartão-postal, uma lembrança, outra lembrança, um envelope selado, uma conta de banco, um artesanato, um cartão de Feliz Natal, algum nada cheio de significado, uma etiqueta de roupa, uma agenda, uma foto, um cheiro, uma folha seca, umas contas de um colar que se assemelham a dois olhos e que sempre olham pra mim quando eu os encaro interrogativo e com violência, esses olhos que não se deixaram fotografar porque eram duas bolotas laranjas cada uma com um círculo mal desenhado e que ficavam assim, exatamente como dois olhos que me fitariam longo, muito embora os olhos de verdade ainda que dulcíssimos, se me recusassem a olhar e é como se tivesse ficado a lembrança, é como se as contas laranjas do colar colorido fossem a lembrança, porque elas me remetem ao olhar, aquele olhar, ao olhar dela que é assim, baixinha, arretada, com uma voz meio esganiçada mas muito senhora-de-si, altiva, inteligente, que sabe se impor, se expressa, conhece, escreve, lê, sabe, guia, muito guia, nos levando pela cidade fora do circuito, pela parte que ficou de fora do roteiro sempre tão mais divertida onde as pessoas fumam apreensivas suas pedras de crack pela calçada e vivem as suas alucinações sem se preocupar sobremaneira com o mundo que aí está e que desmesuradamente os exclui de qualquer coisa que transcenda os próprios limites da sua zona geograficamente delimitada para este fim, da zona que ficou demarcada como o refúgio da cidade, no local, naquele local onde a cidade é tão mais ameaçadoramente verdadeira que é preciso fugir dela a qualquer custo e para isso, sim, os cachimbos de crack aqui, ali, por todos os lados, em todas as calçadas, em todas as pessoas, esta fuga do mundo, este não-estar, este não-ser, este negar que às vezes é tão mais fácil do que encarar o mundo de frente, mesmo que para isso seja preciso enxergar a vida assim, feia, feiíssima, tal como ela é, de forma que reste para nós o desafio de que não sejamos apenas transeuntes e que, por mais que não saibamos contornar essa vida urbana tão cheia de mazelas, por mais que não consigamos mudar o mundo, é preciso que se o percorra, de todos os modos, de todas as maneiras, porque isso é sério, a vida é séria, e por isso é preciso avisar a todos os seus amigos, a todas as pessoas que você conhece que a vida é séria, que a vida séria pra caralho e que por isso, justamente por isso, é preciso que se ria, é preciso que se ria ao máximo e sempre que se possa, rir, sim, rir, rir para o mundo, e rir do mundo ainda, quando isso for possível, dos tropeços, das quedas, da cara das pessoas no elevador quando elas entram sempre com as suas caras de chaminé e você pensa que ainda terá que encará-la por mais uns quarenta segundos, mas vá lá, é definitivamente melhor do que perguntar sobre a chuva, sobre o jogo, sobre a notícia sensacionalista do jornal de anteontem mostrando mais uma vez os episódios folhetinescos das menininhas que são jogadas das janelas, de todas as janelas, todos os dias, de todos os sextos andares, de todos os edifícios London, de todas as São Paulos que existem dentro de cada um de nós com suas contas de colares, casacos perdidos, faculdades, amigos, cafés gelados, festas, ônibus, cracolândias, corridas, dúvidas, hotéis, conversas, pessoas, sim, pessoas, muitas pessoas, aos montes, as que não voltam, as que ficaram, as que foram viver suas aventuras mochileiras mundo afora, as que dão saudade, as que tomaram um chopp comigo por aí algum tempo depois, as que reencontrei e que faço questão de ser amigo e de ser amigo pra caralho e agora é preciso que se faça uma interrupção brusca no que quer que se tenha dito porque a pessoa da qual eu falava de ser amigo, de ser amigo pra caralho, acaba de entrar no msn porque, sim, eu sou desses que se desacostumaram à velocidade lenta, lentíssima da caneta imprimindo sua marca, imaculando a folha de papel, e bem, estamos aí, na Internet, na rede, no mundo e, de vez em quando somos presenteados com uma dessas coincidências tão contemporâneas, do pensar em alguém e o alguém te ligar, aparecer no msn, logar no Orkut, quando eu fico mesmo imaginando do lado de cá que a coincidência mesmo seria receber uma carta de alguém que se gosta quando se passou o dia inteiro pensando nela e chegar na sua caixa de correio e ter lá um envelope com seu nome, sobrenome, endereço, CEP, selo, carimbo, mas bem, já não importa e já não mais é possível porque as cartas são contas, todas, sempre, de forma que abrir a caixa de correio já provoca uma espécie de náusea programada e, bem, ninguém passa mais pensando o dia inteiro numa só pessoa porque acabou esse negócio de amigos, todo mundo sabe, amizade é last week à beça, a onda agora são contatos, pessoas que formam uma rede, o que se chama de networking e aí, aí é o fim da poesia, das ligações de madrugada, do liguei só pra ouvir a sua voz, do ligar pra não dizer nada, do mandar uma carta pra alguém que está longe porque, veja bem, os contatos, diferentemente dos amigos, devem ser gerenciados, sim, gerenciados, como contas, documentos, arquivos, processos, tudo devidamente classificado, catalogado, categorizado, hermeticamente fechado, dentro de uma estrutura virtual, lógica, algo que é construído sistematicamente, isso, por ordem alfabética, você talvez nunca tenha pensado no fato, mas está aí, você tem contatos organizados por ordem alfabética, reflexo de um mundo que faz questão de colocar em ordem todas as suas coisas, em ordem e progresso, destruindo qualquer tentativa vã da poesia, da fotografia, da pintura, da expressão, da vanguarda, da arte, obrigando qualquer manifestação artística a ser linear e taxonômica como os insetos numa aula de entomologia, sem que se possa ousar sem explicar a ousadia, sem que se possa explodir o sentido sem que haja sentido, sem que se possa criar algo que transcenda, de verdade, as malditas classificações, a maldita ordem que aí está e que nunca se configura em progresso, nem em regresso, e que nunca se configura em nada, ainda que as coisas queiram movimentar-se, ganhar vida por si próprias, mas há um gancho, alguma coisa que prende, alguma coisa que não permite, alguma coisa que sufoca, sim, que sufoca, mas é preciso que se saiba que não é preciso sufocar, que sufocar não é preciso, que por mais que a vida seja um sufoco às vezes, e que sufoco, é preciso que não se sufoque pois, pelo contrário, é preciso que se deixem as coisas, todas elas, livres, soltas, fluidas, por aí, meio a esmo e sem controle, como palavras chovendo, como palavras brotando, como palavras em orvalho que jorrariam das pétalas e matariam todas as sedes do mundo, essa sede de arte, de proximidade, de toque, de abraço, de cidades, canções, aventuras, lojas, bolos de chocolate, jogos, sorvetes, cafés, lugares, pessoas, pessoas, pessoas, muitas, todas as pessoas, as sedes de todas as pessoas, até daquelas que estão alucinadas em seus alucinógenos e daquelas que fazem de suas vidas uma estrada muito mais alucinante, que acreditam na paz, no amor, na poesia, numa foto encontrada na rua, na magia de um encontro casual com um desconhecido numa terça-feira às quatro horas da tarde em frente à livraria com um camisa xadrez e uma calça jeans meio surrada e um cabelo loiro com dreadlocks e um piercing no lábio e outro na orelha e outro, e outro, e que perguntava as horas entusiasmado num idioma incognoscível enquanto falava rápido e apontava desesperado pro meu relógio de pulso de ponteiros magníficos e eu teria dito que eram quatro horas, exatamente, quatro e três, quatro horas e três minutos, em português, inglês, espanhol, italiano, alemão, árabe, mandarim, finlandês, turco, romeno, quéchua, sueco, guarani, zulu, húngaro, língua do pê, maspas nãopão hapavipiapa línpínguapa quepe epelepe enpentenpendepessepe, donde eu só pude lamentar profundamente e continuar seguindo a minha trajetória, um tanto quanto desapontado e completamente desorientado porque já não era mais possível saber se eu iria pra direita, pra esquerda, se iria a pé, se tomaria um metrô, um táxi, um ônibus, e eu adoro ônibus, sim, um ônibus, tomaria um ônibus, o primeiro que aparecesse, pra qualquer lugar, um ônibus, um ônibus circular, e a gente ia conversando e rindo, falando mal dos outros a viagem inteira, sem qualquer tipo de pudor, aliás a gente não tinha mesmo nenhum pudor, rotulando as pessoas que passavam e rindo tão deslavadamente da cara delas, mas num riso só nosso e tão entre a gente que as pessoas jamais poderiam saber que comentávamos o seu nariz torto, a sua cara de infelicidade, as suas roupas tão feias, os seus arquétipos de mamãe-quero-ser-indie-parte3, ou ainda de mamãe-não-tenho-marido-parte2 ou ainda de mamãe-acabei-de-descobrir-que-sou-gay-e-estou-doido-pra-dar-parte4 ou ainda outros, aos montes, múltiplos, porque os arquétipos se explodiam, e era sempre uma forma fácil de fazer com que o trajeto valesse a pena dentro daquele ônibus sem que de forma alguma soubéssemos pra onde estávamos indo, sem que isso tivesse qualquer importância até que qualquer de nós dissesse um agora, vamos, e então desceríamos do ônibus ali, lépidos e descompromissados, exercitando sempre por aí o nosso riso solto, fagueiro, nosso e só nosso, sem que tivéssemos que nos preocupar com qualquer outra coisa além de nós mesmos ali, naquele instante, mesmo sabendo que para cada um de nós haveria um cômodo e dentro de cada cômodo haveria uma gaveta, que conteria, cada qual um caixa, e dentro dessa caixa, haveria coisas nossas, umas cartas, uns ecritos, umas recordações, cartões-postais, memórias enevoadas, páginas viradas, olhos perscrutadores, contas de colar, ataques de riso, choros, segredos, artes, improvisos, eu, você, todos nós.

domingo, 25 de maio de 2008

Vendedores de Farmácia


Vendedores, de forma geral, são irritantes. Mas poucas coisas me irritam mais do que vendedores de farmácia. Não, não são os farmacêuticos que ficam atrás do balcão. São os vendedores mesmo, que circulam entre os esmaltes e tintas pra cabelo. Em primeiro lugar, eles são totalmente desnecessários, isto é, na quantidade em que existem. Tenho fé que um dia os donos de farmácia vão entender que poderiam muito bem trabalhar com metade ou um terço do contingente de vendedores.

Mas, como se não bastasse apenas a existência desses seres (que, como já disse, é mais do que suficiente pra irritar qualquer consumidor), eles sempre vêm pra te oferecer uma pseudo-ajuda, com as cestinhas, as malditas cestinhas. Não sei se é assim em todo lugar, mas aqui no Rio isso é bastante corriqueiro. Você entra na farmácia e já vem alguém te dando uma cestinha, sem ao menos você pedir. Dentro dessa cestinha, onde você supostamente colocará as suas compras (desodorante, shampoo, etc...), tem uma ficha com um número. Esse número é o código do vendedor e quando você passa suas mercadorias pelo caixa, fica registrado que o vendedor Alfabetagama te vendeu aqueles produtos e que vai ganhar uma comissão em cima das suas compras. Acho que eu, como consumidor, deveria somente ganhar a cestinha com o número quando o vendedor efetivamente me ajudasse a encontrar um produto que eu não acho, ou me ajudasse de alguma forma, sugerindo um produto, mostrando um lançamento, etc... Mas não, basta que a pessoa me dê uma maldita cesta sem nem olhar pra minha cara e pronto, já vai ganhar dinheiro às minhas custas. Mas sabem o que eu faço, muitas vezes? Recuso. Recuso solenemente a cesta. E muitas dessas vezes (olha o tamanho do abuso!), o vendedor pede apenas “então leva esse número lá no caixa”, retirando a cesta e me dando apenas a ficha com o número. E eu, digo, “Não, não. Não precisa.”, enquanto esboço um sorriso amarelo e uma cara meio sem paciência e me dirijo ao caixa sem qualquer ficha.

Certa vez, em uma farmácia, foram me oferecidos três números, de três vendedores diferentes. Fui recusando todos, um por um. “Mas é só apresentar o número no caixa”, disse a vendedora, levantando levemente a voz. E eu, sorridente, “Não, não, não precisa”, enquanto pensava que eu não iria de forma alguma dar dinheiro a um vendedor que não me atendeu, até porque eu não precisava de nenhuma ajuda.

É tão difícil assim entender que nem todo mundo precisa de ajuda quando vai comprar alguma coisa numa farmácia? Eles todos devem me detestar. Mas lamento, lamento muito. Só faço o que acho que devo.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Encontros


Eu sempre achei o encontro uma das coisas mais bonitas na vida. E é engraçado, porque eu estava justamente conversando com um amigo meu sobre isso anteontem e ele tem uma opinião muito parecida com a minha. Acho que os encontros têm qualquer coisa de mágico. Penso sempre que é uma coincidência muito grande estar exatamente na mesma hora e no mesmo lugar que outra pessoa. Penso também nos diversos encontros frustrados. Imagina só: se você encontra alguém na rua, quantos desencontros você viveu e nem sabe? Quantas pessoas passaram exatamente ali, mas dois minutos antes, quantas pessoas passaram exatamente naquele instante mas um quarteirão depois? Mas, bem, os encontros como digo, têm qualquer coisa de mágico. Às vezes (e isso já aconteceu mais de uma vez comigo e não foi com a mesma pessoa), você pensa em alguém durante o dia inteiro e, no fim do dia, encontra com ela por acaso e sabem, isso é tão bonito. Acho que a vida é feita de encontros. Eu tenho uma grande amizade que nasceu de um encontro. Ela esperava na porta da festa uns amigos chegarem, eu esperava uns amigos meus. Puxei assunto, conversamos, trocamos telefone, ficamos amigos. Hoje ela é uma grande amiga minha e posso afirmar com certeza que esse encontro mudou a minha vida. Outro exemplo: anteontem, estava com um grupo de amigos na Lapa e vi uma garota sozinha na noite, com sua latinha de cerveja, remoendo seus pensamentos. Fiquei preocupado, instiguei meus amigos a perguntarem se ela estava bem, se queria vir conosco, mas ela preferiu ficar sozinha. Não a conhecia, mas fiquei como que preocupado, pensei nela durante a noite. E encontrei-a no dia seguinte, andando pela rua no sentido oposto ao meu. Não falei com ela, decerto não me reconheceria. Mas fiquei com uma espécie de felicidade esquisita por vê-la, por reconhecê-la, por saber que ela estava (ao menos aparentemente) bem. Esse meu amigo com quem conversei anteontem disse que Clarice Lispector escreveu algo como “o encontro às vezes é tão mágico que ultrapassa o objeto encontrado” e, embora, eu particularmente não goste dela, tenho que admitir que o que ela disse é de uma genialidade ímpar e sintetiza o que eu quis dizer aqui.

Aproveito para pedir desculpas aos leitores porque não tenho postado na freqüência que gostaria. As coisas aqui pelo trabalho têm me ocupado bastante. Às vezes, posto final de semana, mas prefiro postar daqui do trabalho. E só hoje que as coisas deram uma arrefecida por aqui que consegui escrever (espero) alguma coisa à altura dos que me lêem.

Beijos e abraços.

Observação pós-escrito e pré-postagem muitíssimo válida: tenho o hábito de escrever o post e, então, pesquisar alguma coisa no google pra ilustrar o que eu digo, antes de efetivamente postar. Na busca por imagens, sempre digito o nome do post, ou uma palavra-chave que acredito que vá me dar um resultado útil. Tasquei lá na busca por imagens: “encontro”. A primeira imagem que apareceu foi uma cujo título é “Encontro dos Túneis”. Não, eu não a postarei aqui. Deixarei àqueles cuja curiosidade não caiba dentro de si a missão de procurar a tal imagem.

sábado, 10 de maio de 2008

Postcrossing

A internet é mesmo sempre um espaço de novidades. Óbvio que por algumas vezes ficamos entediados, mas é só fuçar que você acaba achando alguma coisa nova e interessante. E o mais legal da rede é quando você encontra uma novidade que não fica só no virtual, quando acontece uma interação com o mundo real. Pois é, foi numa dessas que eu sem querer, acabei fazendo uma das minhas melhores descobertas dos últimos tempos: o Postcrossing. O postcrossing é um sistema muito interessante de troca de cartões-postais, mas cartões-postais de verdade, em papel, que viajam pelo correio! XD

É assim: você solicita ao sistema um endereço para mandar um cartão-postal. Daí, vem lá um endereço de uma pessoa aleatória e você envia o postal. Essa pessoa não sabe de onde receberá o postal. Quando ela receber o postal, ela acusa o recebimento no site e o sistema então libera o seu endereço para a próxima pessoa que pessoa que solicitar. Daí, você vai também receber um cartão-postal de uma pessoa aleatória, de qualquer lugar do mundo (às vezes de lugares que você nem imagina...)! XDD Eu sei que tentando explicar por aqui pode parecer complicado, mas é bem simples, acreditem. E é realmente divertido! =D Já enviei e recebi sete postais até agora. Escaneei alguns e vou colocá-los aqui.

o/

sent by Mario - Germany


sent by Mirka - Finland

sent by Chris - Thailand
sent by Nilo - Netherlands

domingo, 4 de maio de 2008

Teatro: Yes, I do.

Pra quem não sabe, agora faço teatro. Faço um curso livre, todos os sábados pela manhã, na CAL, Casa de Artes de Laranjeiras. Pra quem não sabe, a CAL é uma das melhores (senão a melhor) casa de teatro do Rio. XD Bom, aquilo lá, mais do que qualquer coisa, é uma senhora terapia pra mim. Saio sempre leve depois dos ensaios, gosto, me envolvo, levo a sério. Sinto que tenho potencial. Estou lá há um mês. Deixei o teatro entrar na minha vida e estou gostando, de verdade. Em breve, na próxima novela das oito. =PP

terça-feira, 29 de abril de 2008

Não-lugar

Andando pela rua, ao sair do trabalho, encontrei um papel em branco no chão. Parecia o verso de uma fotografia. Chutei, o papel voou baixo, mas se manteve apenas com o verso à mostra. Chutei outra vez e, mais uma vez, só o verso. Na terceira vez, chutei o papel com mais força, de tal forma que consegui virá-lo e confirmei: era mesmo uma fotografia. E era justamente esta foto feia que aí se mostra: um cano enferrujando, uns vergalhões, uns blocos de cimento, umas folhas de mato.

Entre a via expressa que vai e a via expressa que volta, sem querer, encontrei um não-lugar. E este não-lugar é tão feio e tão vazio que não precisa mesmo ser lugar algum. Mas por não termos qualquer referência, qualquer informação adicional, este não-lugar pode ser qualquer lugar: aqui, , lá, acolá, ali adiante.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A Gaivota


Obrigado, não há de quê, e assim começa. Poderia ter sido de propósito, poderia ter sido complexo, mas foi assim, simples, sem tramas, sem ardis. Obrigado, não há de quê. Um agradecimento que eu joguei, você retribuiu, e a gente se olhou e se viu, apesar da calçada cheia de lixo e do cheiro podre que insistia em se fazer notar. Nesse momento, a gente olhou pro céu, não sei se com o intuito de disfarçar qualquer coisa, qualquer precipitação que poderia ser mal-interpretada. Acho que, no fundo, a gente buscou não se olhar, porque se a gente se olhasse (e a gente já tinha se olhado), teria a obrigação de progredir, de ir além, mas quem ousaria transpor o muito-obrigado-não-há-de-quê? E quem de nós quebraria o gelo invisível, quem de nós pronunciaria qualquer palavra tola e estúpida pra quebrar aquilo que ainda não tinha nome? Mas bem, a rua fedia, fedia mesmo, e o céu estava nublado e a gente olhava pro céu. E ao mesmo tempo em que não podíamos quebrar o gelo, não podíamos deixar que derretesse, que ficasse assim, se desmanchando pouco a pouco e fosse escorrendo pro ralo da via pública, se misturando ao chorume do lixo que fedia cada vez mais.

Então, olhávamos por céu. E o céu era cinza. E passou uma gaivota no céu. E aí, aí, eu olhei pra você e sorri. Perguntei se você tinha visto a gaivota e, olha só que coisa estúpida, isso não é lá coisa que se pergunte, mas bem, o gelo não tinha se derretido ainda, fiz o melhor que pude antes que você pudesse pensar em me virar as costas pra ir embora sem que eu soubesse nem o seu nome. Foi um recurso, a gaivota que passou, uma função fática bem empregada, isso, função fática, essa função lingüística que só serve pra manter contato e a gente aprende na oitava série, um oi, um alô, uma gaivota, poderia ter sido o táxi que passou quase nos atropelando enquanto olhávamos para cima, uma bicicleta, o bêbado que cambaleava no pé-sujo do outro lado da rua. Mas foi a gaivota.

Você baixou os olhos no momento em que eu falei com você, talvez um pouco antes porque você sorriu um sorriso sem graça e disse que não tinha visto e ficou parecendo naquilo tudo que eu te interrompi, que interrompi o que quer que você fosse fazer com os olhos longe do céu, acho que me olhar. Sim, você ia baixar os olhos e ia olhar de volta pra mim, talvez fosse embora, talvez olhasse pros meus pés pra ver se eu calçava uns All Stars que nem os seus, talvez, talvez. Mas nunca soube. Soube que baixou os olhos e me fitou, longa, profunda, num riso sem graça que se dissipava e te deixava com um aspecto de inexpressão crônica, assim, a fitar-me, a medir-me, de dentro dos seus olhinhos pretos.

Eu lembro do seu aspecto, inquisitiva, quase soturna. Mas, de repente, e muito de repente, você perguntou se eu tinha visto o bêbado, no outro lado da rua. E quando você me perguntou isso, você abriu um sorriso tão largo que, putz, pude contar todos os seus vinte e oito dentes, é, você não tinha sisos. Eu juro, diria que não, não pelo fato de que eu realmente não tivesse mesmo visto o bêbado do lado de lá, mas é que eu também fiquei com uma certa raiva incontida de você porque você não tinha visto a maldita gaivota que agora ninguém nunca mais verá, mas ok, decidi dar um crédito, um voto de confiança a você, ao mesmo tempo pelo seu sorriso e pela sua atitude de jogar uma contra-função fática para mim, porque, analisando as coisas sob outra óptica, você poderia muito bem ter girado nos calcanhares e ter me virado as costas sem que as coisas evoluíssem além desse passo e eu ficaria aqui, terno, com uma cara de bobo, um toco seco no meio da calçada que fedia. E decidi, por fim, olhar pro bêbado do outro lado da rua, não pelo bêbado, mas só pra poder dizer que o tinha visto e dar um sorriso tão largo quanto o seu. E, para que a partir daí, talvez, quem sabe, pudéssemos avançar para um outro tipo de assunto, adotar outros estratagemas que permitissem uma aproximação mais real e mais franca, sem que tivéssemos necessariamente que ficar ali naquela rua que fedia mais que qualquer coisa.

Então, eu olhei pro bêbado. Eu vi o bêbado que cambaleava trôpego, apoiando uma das mãos no pequeno poste de metal que indicava que ali era um ponto de ônibus e carregando um terço na outra mão. E eu ri, ri um riso meu, mas o meu riso é feio. Feio sem motivo aparente, feio por ter sido assim sempre, sem que me precisassem faltar os dentes ou ter a boca torta. Feio porque não harmonizava com o meu rosto e a boca, não sei, meio que não abria espaço pros dentes aparecerem e os dentes, grandes, exigindo espaço para se mostrar ao mundo, brancos e incólumes, mas essa boca que se retesava, esse riso preso, aparentemente preso apesar de sincero e muito sincero, essa guerra visível entre a boca e os dentes, isso, era isso que se externalizava pro mundo fazendo com que o meu sorriso ficasse muito feio, desarmonioso, sem que ninguém conseguisse achar uma causa à primeira olhadela descompromissada. Você deve ter achado o meu riso bonito, ou ao menos, não tão feio, porque você, e só aí, só dessa vez, sorriu pra mim de verdade, e eu soube que o seu riso era pra mim e só pra mim, não pra situação, como fora o seu riso largo anterior sem sisos.

Então, eu fiz menção de dizer alguma coisa, possivelmente o bêbado, sim, deveria ser sobre o bêbado, o nosso cupido cristão, deveria pegar um gancho para falar do bêbado, da sua aparência malcuidada, dos seus hábitos condenáveis, sim, bebo, mas socialmente, jamais chego a esse estado, se bem que sim, enfim, uma vez, quando eu ainda era adolescente, mas quem nunca, e enfim, e a partir daí estaríamos todos já bem-resolvidos, já teríamos entrado em contato, já teríamos despidos nossas armaduras e nossos elmos, deixaríamos que nossas espadas descansassem sem que precisássemos tê-las sempre à mão para o caso de qualquer emergência.

Mas antes que eu pudesse falar sobre o bêbado e divagar sobre o seu torpe cristianismo, antes disso, no incomensurável instante antes que as cordas vocais vibrassem para que eu começasse a minha fala que daria margem a toda essa gama de possibilidades onde poderíamos ser nós e só nós, com a boca já entreaberta, você fala alguma coisa e eu quase atropelo a sua fala porque, bem, eu estava tão preocupado e tão concentrado em falar, a começar o assunto que certamente mudaria o curso das nossas vidas dali pra diante, mas bom, talvez você tivesse tido a mesma idéia, no mesmo instante, e tenha ganhado de mim só por uma questão de reflexo e de velocidade, mas, bom, é preciso não só que eu admita a perda e o ter que calar a um instante do som, mas que eu admita que também não consegui mesmo entender o que você disse. Sou forçado, portanto a lançar mão de um oi, como, repete, não entendi, ou de outras artimanhas que certamente demonstrariam um grau, ainda que pequeno, de surdez ou de déficit de atenção. Você repetiu, um pouco mais alto e pausadamente, sinceramente em dúvida se o meu problema era de surdez ou de retardo, que ali fedia.

Achei na hora, confesso, um disparate você ter dito aquilo assim, sem preparo, na lata, um “aqui fede” que soa quase como um “você fede” depois de um obrigado e de uma gaivota e de um bêbado. Contemporizei e, tentando levar pelo lado positivo da coisa, talvez você estivesse querendo dizer não que fosse eu quem estivesse fedendo ou que o assunto fedia, não, nada disso. Talvez você estivesse querendo apenas dizer que o lugar fedia, e fedia mesmo. E que poderia ser interpretado como um convite de vamos-sair-daqui, porque bem, fede.

O problema dessa hora é que você olhou pra mim com uns olhos interrogativos, sem sorriso nem muxoxo. Olhou como quem mais do que interrogar, alfineta, propõe um desafio, algo como “e agora, o que você vai dizer, o que você fazer?”. Confesso que a primeira coisa que me veio naquela hora foi dizer um “fede mesmo” e te devolver esses olhos de charada, certo de que te colocaria em uma sinuca de bico e você ficaria desesperada, atônita, aflita, sem saber o que fazer. Sim, passar a bola pra você, igual a gente faz quando está conversando na internet e diz alguma coisa só pra dizer que disse, só pra dizer “agora é com você, seja capaz de puxar um assunto mais interessante”. Mas pensando um pouco melhor, descobri que não seria o melhor caminho, porque veja, você ali, donzelinha, com um cara estranho que agradecia e falava de gaivotas, estaria no pleno direito de virar as costas sem dizer palavra se se sentisse amedrontada, como um coelho em fuga. E, novamente, eu, pretenso vitorioso dessa guerrinha estúpida e sem sentido mesmo antes de nos conhecermos, ali, a olhar pra paisagem fétida enquanto você ia embora.

Não, definitivamente não. Eu tinha que dizer alguma coisa, rápido. Alguma coisa que, ao mesmo tempo que não te encurralasse, deixasse transparecer que eu tinha entendido o seu truque, o seu jogo sujo, e que, por mais que não fosse a tão fatídica e previsível sinuca de bico, fosse uma outra jogada, nova, que abrisse o jogo do tabuleiro de xadrez para que pudéssemos jogar com classe e com liberdade de movimentos, sendo cada um de nós responsável por cada jogada, por cada palavra, cada lance, cada passo em falso.

Saí com meus cavalos e parti pro jogo, não sem antes vestir uma deslavada carapuça de perdedor. Lancei o “fede mesmo”. E fingi que deixaria nisso, fiz questão de deixar aqueles três segundos no ar, aquele silêncio no qual as pessoas matutam suas dúvidas, aquele instante no qual você se questionaria resoluta, mas então, será que é só isso? Mas não poderia deixar o fede mesmo solto. Emendei logo depois dessa pequenina pausa estratégica um “você aceita uma carona?”. E a partir daí, a situação fiou quase cômica porque era muito surpreendente pra você que eu puxasse a carona como uma carta na manga e você retrucou um “oi?”, assim, como pra ver se era realmente isso que tinha sido dito e não alguma coisa como fanchona, bobona, acetona.

Mas sim, era uma carona, exatamente uma carona aquilo que eu te oferecia naquele instante. Você se valeria dos seus artifícios, certamente pra ganhar tempo, mas bem, eu deixei as suas aritméticas sem variáveis, seus orçamentos sem margens, você não tinha com o que jogar.

Você não sabia pra onde eu ia, não sabia quem eu era, não sabia nada de mim. E, agora numa perspectiva mais material, você não sabia qual era o meu carro, se tinha ar-condicionado, som stereo, quatro portas, conforto, air-bag, e não me venha com o papo de que as mulheres não pensam nisso porque pensam sim: as mulheres, os homens e as crianças. Não sabia a quantos metros o meu carro estaria estacionado. Não sabia se era uma demonstração singela e descompromissada de educação ou se era uma tentativa de fazer a côrte, de dar início a qualquer desses joguinhos de demonstração de poder, de abrir a cauda como um pavão, de mostrar-me desde aquele instante um macho alfa.

E teria que negociar com os pensamentos que lhe rondavam, você, naquela hora, porque teria que decidir-se se me respondia ou se me retrucava e se me retrucasse, se tentaria me colocar numa sinuca ou se me faria uma pergunta honesta e ainda, qual pergunta. Mas era preciso que a ação se desenrolasse e você não tinha todo o tempo do mundo. Depois de pensar tanto a ponto de fazer nascer uma ruga sutilíssima logo em cima da sobrancelha esquerda, você disse que aceitava. Pronto, era o que faltava. Você aceitou. Você não soube jogar o maldito jogo, disse que aceitava. Você também fugiu a toda e qualquer previsibilidade, você tinha que ter tentando me ludibriar, tinha que ter querido saber mais: de mim, do carro.

Naquele momento, eu percebi que você entregou os pontos, ao mesmo tempo em que jogava o jogo com uma pretensa habilidade. Ali, você, entregando os pontos, olha só, virava o jogo sem querer. Porque agora, nesse momento em que já não havia mais gaivotas, nem bêbados, nem sorrisos, eu jamais deixaria você desconfiar que não havia também carro. E eu tive que fazer uma manobra, mas uma manobra mal-feita, uma barbeiragem, dessas de quem acaba de tirar a carteira de motorista e quer ficar se achando o tal.

Eu perguntei, sem tempo para devaneios, num átimo, pra onde você ia. E você apontou pra rua, no sentido do fluxo dos carros. E eu fiz uma cara descarada de não-vai-dar-mesmo, porque veja só, eu estou indo para lá, olha, no contrafluxo, justamente no sentido contrário ao seu.

Você olhou fundo pra mim. Fundo, muito fundo, profundo dos meus olhos. Você olhou, eu contra-olhei. No meu contra-olhar, você descobriu que eu mentia, você soube, ligeira, fácil, que não era verdade. E aí você aproveitou as delícias da regra do jogo e jogou. Fluida, meio descompassada e atarantada “Puxa, inda bem, lembrei mesmo que eu preciso resolver umas coisas no banco e ele fica logo ali”, e apontou para o sentido do contrafluxo. Eu poderia tentar insistir para que fôssemos a pé, que meu carro estava estacionado longe, que o trânsito está ruim e que a gente pode ir de trem, metrô, barco, avião.

Mas não havia meio de escapar. Eu me enredei nesse novelo insalubre, caí na própria trama, pisei no ardil. E era preciso que eu falasse alguma coisa porque você me olhava muito dura e não tínhamos tempo e não tínhamos nada. E por não termos nada, pensei que poderia fugir ao pseudo-compromisso de ter que dar satisfações, poderia virar as costas derradeiro, resoluto, olha só que simples, e nunca mais nos veríamos e a situação estaria feita. Mas havia alguma coisa ainda dentro de mim que se compadecia, uma mistura de ética e vontade e eu sabia que não seria capaz de dar-lhe as costas.

E o que quer que eu dissesse era preciso que fosse rápido, porque bem, era sempre possível e provável que o outro de nós estivesse tão cheio com os seus afazeres que não poderia ficar perdendo tempo ali com um desconhecido, numa conversa extravagante, muito embora esse não fosse o motivo principal porque qualquer coisa parecia secundária e menor ante o fedor que se fazia.

E aí, lembro como se fosse hoje, baixei os olhos. Fiquei assim uns trinta segundos, como uma criança que sabe da própria culpa. E depois, depois levantei os olhos até os seus e te encarei. E eu falei que menti. Mal nos conhecíamos e eu já lhe presenteva com uma mentira deslavada, suja, da pior espécie. Esperei os seus olhos me encararem cheios de rancor, de raiva, de mágoa condensada. Mas você me olhou plácida. Depois me olhou pura. Depois compreensiva. Depois complacente. E riu um riso que não era largo, mas que também não era estreito. Riu um riso que não sei descrever, um riso bonito, o riso mais bonito que já vi, mas sem exageros, sem glamour, um riso sincero, belo de dentro pra fora. E rindo, você me disse quase num sussurro que também mentira, que tinha visto a gaivota.