quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Platôs e cordas bambas [3]

Tentativa boba essa de classificar o mundo e as coisas entre platôs e cordas bambas. Tudo é platô e tudo é corda bamba. Tal como o espaço e o tempo, são coisas que não podem ser vistas em separado. Ou melhor, até podem. Mas algo se perde.

O estranho é admitir que tudo que aí está, o que inclui nossas próprias vidas, é um enorme, complexo e fantástico sistema, o sistema platô-cordabamba. A curvatura do sistema platô-cordabamba arrasta as massas e as energias pra essa espécie de buraco negro onde tudo pode ser platô ou tudo pode ser corda bamba.

Mas nunca chegamos, estamos sempre nesse oscilar de movimento que é sempre um equilibrar-se. Um pouco platô, um pouco corda bamba; ser pedra e também ser vidraça; yin, yang. Dicotomias de um todo que, por mais que a gente insista em separar, é tudo uma coisa só.

Paradoxal e pendular, complexo sistema platô-cordabamba, mais ou menos como o ano de 2010.

Letra de música que condiz: Part of me laughs, part of me cries, part of me wants to question why. [Spice Girls]

ps: essa história de platô e corda bamba já deu, né? vou virar o disco, devo falar sobre o ano de 2010 dentro em breve, daí volto a falar de coisas legais, juro [ou não. =PP]

sábado, 4 de dezembro de 2010

Platôs e cordas bambas [2]

Ainda não sei quanto tempo falta, mas sei que falta pouco. Sei que daqui, de onde estou agora, já passei da metade da corda bamba e consigo entrever o platô do lado de lá, verde, pujante. Só sei que ao final de tudo isso, e já está quase no final que eu sei, tem gente me esperando do lado de lá, tem gente no platô. Gente que sorri, gente minha amiga e gente que gosta de mim, eu sei que eu tenho uma torcida imensa e que isso tudo é só uma má fase que já vai melhorando, que vai passando aos pouquinhos, que vai se curando devagar e sem pressa enquanto caminho pela corda bamba resoluto e sem medo da queda [porque não dá pra ter medo]. E sei lá, pra toda essa galera que me acena e quase se debruça no precipício pra me puxar de onde eu estiver, eu só tenho a agradecer. E mando um recado pra todos vocês [lindos] que me esperam no platô: eu estou chegando, e eu estou chegando rápido.

Todo caminho é mais fácil de ser trilhado quando tem alguém que te espera no pódio.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Platôs e cordas bambas


A vida é assim. A gente vai durante muito tempo caminhando por um imenso platô, liso, de terra batida, onde a grama é bem verde as flores são amarelas. O caminho é belo e sem percalços, e a gente vai descalço. Pode chover e pode relampejar que a gente continua indo descalço sem medo de cair e sem medo de adoecer. Porque a gente é jovem, e porque todas as tragédias que o mundo pode lhe oferecer serão inequivocamente atribuídas ao vizinho, afinal de contas, o inferno são os outros. O platô é lindo. Mas os altos platôs são altíssimos e, se formos sempre em linha reta, pode ser que haja um precipício lá embaixo.

As moléstias da vida, que podem ser físicas ou psicológicas [e há quem creia nas espirituais também], estão aí. A terra do platô pode estar contaminada por lítio, ou por radioatividade; as flores amarelas podem ter pragas ou abelhas venenosas; a grama verde pode ter fungos ou abrigar protozoários perigosos que a ciência ainda não conseguiu catalogar.

O problema da moléstia, independente de qual seja, é a culpa. Os que andam descalços por sobre os platôs molhados da chuva de ontem e que sabem que a terra molhada pode lhes adoecer, sim, estes têm culpa. No entanto, não têm culpa os que andam calçados sobre a terra. Não têm culpa aqueles cujas cabeças são atingidas por um raio numa madrugada violenta.

Há males de toda sorte. E para a maioria deles, não há culpa. Ou seja, aparte as doenças sexualmente transmissíveis, as gripes contraídas nos dias frios em que não se agasalha, algumas doenças do fumo e do álcool e outras pequenas exceções, não há culpa. E nessa ausência de culpa incluem-se aí os cânceres, as doenças silenciosas do coração, as síndromes de nomes estranhos que acometem 1 em 10 milhões, essas coisas; ninguém tem culpa. Ninguém tem culpa se o fígado se dilatou de uma forma estranha, ninguém tem culpa de uma nefrite, de uma tuberculose, de um cisto no ovário, de um tumor no joelho. Ninguém tem culpa.

As religiões tentam atribuir aos males de toda sorte que acometem os seres humanos alguma propriedade espiritual, divina. Chamam a isso de martírio. É mártir aquele que suporta a dor, que aguenta as chagas. Ser mártir de qualquer coisa é um prêmio de consolação pela desgraça. Não adianta ser mártir, o que importa é estar vivo.

Mas quando olhamos o precipício lá embaixo, de cima dos mais altos platôs, sentimos vertigem. Mas não importa, temos que cruzar a corda bamba [às vezes, de salto alto], temos que chegar lá do outro lado para continuar nossa caminhada pelos mesmos prados de gramados verdes e flores amarelas, multicoloridas talvez. Temos que continuar a nossa caminhada pelos mesmos prados, ainda que descontínuos, ainda que entrecortados por cordas bambas.

Porque é isso. Caminhamos sempre, sempre pra frente. Alternamos entre platôs e cordas bambas. Que o acaso, a sorte e a firmeza nos pés estejam sempre conosco ao caminhar. Ninguém quer cair da corda bamba, e nem podemos.

É natural que não percebamos o quão importantes são as cordas bambas. Mas fortalecem as pernas, nos equilibram mais para o próximo platô, nos deixam seguros. As cordas bambas não são do bem e nem são do mal. Elas estão aí, sempre.

Que existam, porque há que existirem, mas que sejam em pequenas quantidades, e curtas. No entanto, se forem longas, que nunca ofusquem a vista ou turvem as idéias de modo a nos fazer ignorar que, sim, que, mesmo que longe, existe um outro platô do lado de lá.


Obs: Sei que meu texto está bem ‘bad trip’. Mas informo a quem interessar possa que não tenho AIDS, não tenho sífilis, não tenho nenhuma doença sexualmente transmissível. Informo também que não tenho câncer e nem estou morrendo. Informo que estou bem, estou vivo e estou disponível. [tem que fazer esclarecimentos porque as pessoas são malucas, e o que eu já sofri de mal-entendidos nesse blog não está no gibi... rsrsrsrs] Mas é que esses dias têm sido meio chatos e cansativos, tediosos até [e ok, minha saúde não tem estado 100% também]. Agora, sem mais delongas, esse post é pra explicar que tenho passado por um momento mais corda bamba do que platô, esse fim de ano está com uns lances que não tenho curtido muito... Mas o fim de ano está chegando, e dentro em breve, teremos um post retrospectivo por aqui. =PP Beijos!

domingo, 31 de outubro de 2010

Ortografia e sexualidade


O travessão é masculino e o ponto final também. Talvez isso ocorra porque ao homem sempre foi dado o direito de falar e a ele sempre coube encerrar os assuntos.

No entanto, a exclamação, a interrogação e a vírgula são femininas. Naturalmente isto ocorre porque à mulher é dado o direito de exclamar, de questionar e, sobretudo, o direito de interromper.

O cifrão é masculino. O euro também é masculino. Os mais incautos podem depreender daí que o dinheiro está associado à masculinidade e ao poder. Mas a libra esterlina é feminina. E é a moeda mais cara de todas.

Os acentos são masculinos. Agudos ou cinrcunflexos, representam a força do homem, expressa na tônica de cada palavra.

O til também é masculino. No entanto, não atinge a força e a potência dos acentos. Não é formado por traços nem ângulos; é sinuoso, mas ainda assim, masculino. É metrossexual.

Os parênteses são masculinos, bem como os colchetes. Ambos têm formato simples e expressam coisas triviais. No entanto, as chaves são femininas. As chaves são utilizadas em expressões matemáticas de grande complexidade, e por si só, já são complicadas, difíceis de desenhar. Representam toda a complexidade da mulher moderna.

A barra e a barra invertida são femininas. Elas são como mães e avós, são opostas em si mesmas; mas estão sempre lá, ainda que pouco solicitadas. Quando, contudo, precisamos delas, nos guiam, nos mostram o caminho e, tal como arquivos de computador, fazem com que cheguemos exatamente onde queiramos.

A arroba é a mulher que está envolvida e a cedilha é aquela mulher mercenária que se pendura nos homens que, coitados, sempre minúsculos, têm sua vida radicalmente transformada.

A tralha é feminina, mas ninguém sabe. Os que ainda não perceberam tratar-se de uma mulher, insistem em chamá-la pela alcunha masculina de “o jogo-da-velha”.

Porém, quanto a outros elementos, não há dúvidas. As aspas são lésbicas, os dois pontos são gays e o ponto-e-vírgula é um travesti.

sábado, 25 de setembro de 2010

Ahead


Alguma coisa em mim muda, e apesar de parecer que muda devagar, muda depressa. E daí eu fico meio descompassado, desritmado: jogo montes de roupas fora, gasto dinheiro em coisas novas, invisto tempo em coisas diferentes. Do lado de dentro e do lado de fora tem muita coisa que não me representa mais, tem muita coisa em mim que já não sou, que não quero mais. Quero a vida menos fluida, quero crescer, quero ver o bolo tomar forma e consistência, quero projetos, ah, eu quero tanto.

Sei que a vida não é de graça e que os desígnios do destino são mesmo insondáveis. Mas estou tendo que aprender a ruminar esse cotidiano e a ir curtindo os melindres dessa coisa que não é alimento e que não é bolo alimentar ainda e que, portanto, tenho muita dificuldade em digerir.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

[re] conquista

ligar num fim de tarde
pra dizer que
nada basta
e tudo basta

que somos assim
espetáculo
tentativa de subversão

ainda que
afoitos e aflitos,
entre nós,

saibamos que
somos nossos
e que somos
nós, independentes

dessas coisas
pessoas e mundos
que nos prendem
que nos chamam
e nos gritam

a gente sabe que
tudo isso é nada
e que esse nada
também é tudo,
porque

nossos traços,
descompassados,
sem harmonia,

hão de revelar ainda
que não fomos feitos
um pro outro,
mas

a gente se tem
e se abandona,
todos os dias

incessantes
e paulatinos
certos de que

essa é
a melhor forma de
sermos

e estarmos

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Diálogo



Hoje eu fui a Angra dos Reis. Fui com o pessoal do meu novo trabalho, para conhecer o porto de lá. Éramos por volta de 70 pessoas e todas almoçaram no mesmo restaurante. Por motivos que não vêm ao caso [ok, eu estava sem dinheiro vivo e o restaurante não aceitava cartão], acabei indo comer em outro lugar, um salgado e um açaí. Volto para o restaurante onde estão todos e me recosto na parede do lado de fora, enquanto tomo o açaí. Nesse momento, pára ao meu lado um rapaz negro, alto, magro e visivelmente homossexual [e feio também, registre-se]. E então, dá-se esse curioso diálogo, que tentarei reproduzir de forma fidedigna aqui. Cabe ressaltar, que menti, e que menti deslavadamente. Sendo franco, menti e obliterei verdades com um talento que eu não sabia possuir [quem me conhece sabe que eu não minto e não sei mentir, e quem me conhece também vai perceber durante o diálogo quais são as mentiras e quais são as verdades].  O fato é que a forma excessivamente interrogativa do diálogo me incomodou, e portanto, as mentiras [por que eu abriria informações pessoais a um desconhecido, estando sozinho e em um lugar estranho?]. Enfim, eis aí:

- Você sabe se esse restaurante é bom?
- Não sei, eu nunca fui.
- Ué, como assim, nunca foi?!
- É que eu não sou daqui...
- Ah, é? E você é de onde?
- Eu sou do Rio.
- Ah, que legal... Como é seu nome?
- O meu nome é João.
-Prazer, o meu nome é Marcelino.
Ele estende as mãos na minha direção e nos cumprimentamos, ao que prossegue:
- Mas o que você está fazendo aqui? É alguma entrega?
- Não, eu estou em um treinamento pela minha empresa.
- Ah, mas você está dando treinamento ou está recebendo treinamento?
- Estou recebendo treinamento.
- Desculpa perguntar, mas qual é a sue empresa?
- Uma empresa de consultoria...
- Ah... legal. Qual é o seu signo?
- Eu sou Áries.
- De que dia?
- 3 de abril.
-Ah, eu sou do dia primeiro.
Pausa dramática, ao que ele prossegue:
-Você é bonito. Você é gay?
- Não. Por quê?
- Ah, por nada... Bom, deixa eu ir lá, que eu tenho que dar uma passada no shopping. Tchau.
- Tchau.