Termino de ler o livro da Leda Maria Martins, “Performances do tempo espiralar”, e tento escolher um caminho para escrever algo. É difícil, todo texto é também uma encruzilhada.
As encruzilhadas não são nós. São
aberturas, possibilidades de caminhos: elas são devires.
Portanto, todo ato de escrita
carrega consigo a possibilidade também do que não se escreveu. Tudo o que é, e
tudo que vem sendo, carrega consigo a possibilidade do que também poderia ter
sido.
Certa vez li um texto do José Gil, chamado “As pequenas percepções”, que discutia um pouco sobre a
apreciação estética nas artes visuais – percepção, sensação, experiência etc.
Uma das frases que mais me marcou nesse texto foi esta: “A atmosfera é
infra-semiótica.”.
Eu estava cursando o primeiro
período da faculdade de psicologia, e a ideia de uma atmosfera infra-semiótica
me atingiu em cheio. Tudo o que há no mundo está carregado de partículas cujo
sentido não está dado – são, portanto, infra-semióticas. São as consciências
das pessoas que acionam ou agenciam essas partículas e as dotam de sentido.
Para a fenomenologia, que é um certo modo de construir a filosofia a partir do
que se nos dá a ver (ou seja, do fenômeno), toda consciência é sempre consciência
de algo. E esse algo seria o que está nessa atmosfera: partículas soltas,
livres, desorganizadas, aquém do sentido. É por esse viés que se desdobra
aquela visão mais jovem-mística de que “o que vai acontecer já está acontecendo”.
Ou seja, o que vai acontecer já está concebido em devir, já é potencialidade,
já é coágulo de partículas infra-semióticas se imbricando mutuamente e erigindo
desde agora a possibilidade de seu sentido futuro, à espera de uma consciência
que lhe dê sentido e corpo.
Corpo.
Nos estudos que tenho feito (na
faculdade, mas também nas leituras esparsas que cultivo aqui e ali), a ausência
do corpo como locus de produção de
sentido das coisas é a tônica geral. Fala-se de consciência como se ela fosse
descorporificada, como se a intencionalidade para com os objetos e partículas
infra-semióticas às quais se dará sentido fosse feita a partir de uma
consciência que se estabelecesse como algo etéreo, desmaterializado, que não só
pudesse existir de maneira alheia a esse corpo como fosse em tudo a ele
superior.
Mas é no corpo que a consciência
é. E no corpo o tempo bailarina.
Mas pode uma consciência bailar?
Se o tempo bailarina nos voltejos
do corpo, como nos diz Leda Maria Martins, ele bailarina também nos voltejos da
consciência.
É que, talvez, para dar ao corpo
a centralidade epistêmica que se impõe no tempo (que bailarina?), devamos
deixar de falar de uma consciência corporificada, e passar a falar de um corpo
conscientificado.
Não é a consciência, portanto,
que teria a propriedade de ter um corpo, do qual, supostamente, se locupletaria
como aquilo que lhe permitisse experimentar as percepções e sensações dos
objetos, para então poder submetê-las ao seu escrutínio e processamento. É o
corpo, por sua vez, que carrega essa propriedade ontológica de ser. O corpo,
então, uma vez sendo, é que teria na consciência uma de suas partes integrantes,
que seria justamente aquela que lhe forneceria a possibilidade de dar sentido
ao mundo experimentado.
É por essa razão que tenho
questionado um certo clichê ainda muito presente de que “o corpo é a nossa casa”
Quando dizemos isso, separamo-nos de nossa dimensão corpórea e dizemos que
somos esse algo mental, etéreo, e que o corpo seria a casa onde essa mente
habita. Acredito que o corpo não é “onde a gente mora”, o corpo é precisamente o
que somos.
Reivindicar a centralidade
epistêmica do corpo é um trabalho decolonial importante. É decolonial porque
ele precisa romper com o dualismo cartesiano mente-corpo, que dá àquela um
valor maior do que a este, e que justificou o projeto colonial ao ler a
alteridade como “aqueles que sabem menos”, “aqueles que não têm alma” etc, e
cujos corpos poderiam ser livremente dispostos e manejados pelos colonizadores.
É importante porque abre margem para que emerjam outras narrativas e outras
propostas éticas que haviam sido solapadas por esse projeto colonial.
E o corpo no tempo bailarina.
Essa dimensão da dança, do gesto,
do movimento faz com que o corpo não seja só um agente da escrita (por meio das
mãos que manuseiam canetas, teclados ou telas). Escrever é sempre um ato
corporal, já sabíamos, mas Leda Maria Martins nos alerta para a dimensão de que
o corpo também é onde se escreve – ou melhor, onde se inscreve o tempo.
O corpo-tela, como Leda nos diz,
é a possibilidade de que o corpo seja o espaço por onde o tempo flui. O tempo
existe, então, por meio do corpo. Se no corpo o tempo bailarina, isto o é
somente porque o corpo funda o tempo, e o refunda a cada vez, à medida que a
performance corporal evoca e atualiza uma certo modo de existência, um ethos.
Ora, se o corpo funda o tempo, e o
tempo no corpo bailarina, a dança, no que traz de próprio do performer, e do que isso evoca do que já
foi antes dançado, é a matéria mesma da existência.
O movimento, a dança, não é algo
que se faz porque o corpo quer dançar. É a dança que cria o mundo – nos voltejos
do corpo onde o tempo bailarina, onde o tempo se inscreve.
Causa-nos certa estranheza então
porque se fala tão pouco de movimento, de dança, de corpo. Por que é que isto
não se coloca na centralidade do pensamento sobre a vida? A quem interessa
calar a potência do corpo como elemento fundador e atualizador do mundo, do
tempo, da consciência?
Acho que há nisso tudo uma certa
dificuldade de lidar com uma perspectiva não essencialista das coisas – a ideia
de que o corpo não é algo, mas um vir-sendo.
Nesse ponto, acho que discordo um
pouco da autora, que parece defender uma perspectiva essencialista do corpo –
de que o mesmo ginga (nas encruzilhadas e fora delas) como que animado por uma
força vital, um axé, uma ancestralidade.
Penso, ao revés, que não há lá no
corpo que performa seus movimentos de um já-vindo e de um vir-a-ser, algo como
uma origem, um começo.
O corpo é um palimpsesto – assim como
as cidades. A despeito dos esforços para estabelecer um marco fundador, não há
um original a que se retornar. Mesmo as cidades, uma vez fundadas, se erigem em
um espaço que foi outra coisa, restando nelas sempre uma dimensão que
permanece.
Portanto, cada cidade (assim como
cada corpo) se atualiza no gesto e no concreto, na performance e no urbanismo,
não como quem evoca algo que partiu e já não está mais lá, mas sabendo que
ambos são mesmo constituídos disso que já foi, ao mesmo tempo que constituintes
de um vir-a-ser (e mesmo também de um já-sido, e nisso reside a espiralidade do
tempo).
Mas essa constituição não
rememora, evoca ou convoca uma anima ancestral
– é o fluxo do movimento que se dobra
e se desdobra sobre si mesmo, em circunvoluções que não vão apontar para uma essência,
ou algo que, enfim, seja.
Essa constituição do corpo (e
também das cidades) é mesmo a de um palimpsesto, em que as camadas se acumulam
umas sobre as outras, sem que haja um primeiro, uma origem.
Nosso corpo se compõe de células
de outros corpos, do que comemos, da poeira que respiramos junto com o oxigênio
que nos serve e o nitrogênio que se nos passa.
Somos cicatrizes, tatuagens,
memória de estalos, dentes quebrados, alongamentos, tensões, traumas.
Isto que somos faz, pensa, existe.
Evoca sem copiar, cria sem definir – ginga na encruzilhada e instaura o tempo
como tensão. Mas só é porque se move. E no que se move, dá sentido ao mundo,
criando-o a partir de suas infrasemioticidades, de seus quase-seres.
É o movimento mesmo essa origem e
esse destino. E que tinge o mundo, de cores e de potências, quando acontece
como presença.